O Trem Noturno dos Sonhos

4 min de leituraHistorinha para dormir
O Trem Noturno dos Sonhos
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Existe um trem que ninguém nunca viu de dia.

Ele fica guardado numa estação escondida entre duas montanhas, coberto por um lençol de neblina, dormindo. E quando a última luz do dia se apaga, o trem abre os olhos — quer dizer, acende os faróis — e começa a se aquecer.

O nome dele é Vagalume.

O maquinista chama-se seu Tomé. Ele tem barba branca, um chapéu azul de aba mole e um relógio de bolso que não marca horas: marca sonos. Quando o ponteiro chega no "quase dormindo", ele sabe que está na hora de partir.

A Partida

Vagalume solta um apito baixinho — nada de apito estridente, isso acordaria as pessoas — e sai deslizando pelos trilhos.

Só que os trilhos dele não são de ferro no chão. São feitos de luz de lua, e sobem devagarinho pelo céu, passando por cima dos telhados das cidades.

Do lado de fora das janelinhas do trem, a gente vê o mundo lá embaixo ficando pequenininho: as ruas com seus postes acesos, os quintais com suas roupas no varal, os gatos passeando em cima dos muros.

E dentro do trem?

Dentro do trem é a parte mais gostosa.

Os Vagões

O primeiro vagão é o Vagão dos Bocejos.

É onde todo mundo entra. Tem poltronas de veludo cor de mel, tão macias que a gente afunda um pouquinho ao sentar. E tem um cheirinho de leite morno com mel no ar.

Quem senta ali dá um bocejo enorme, daqueles que fazem a gente fechar os olhos sem querer. Depois dá outro. E os ombros vão descendo, e o pescoço vai amolecendo.

O segundo vagão é o Vagão das Cobertas.

Nele mora dona Malva, uma senhora tricoteira que passa a noite fazendo cobertores. Ela conhece o cobertor certo para cada pessoa: o de lã grossa para quem está com frio, o de algodão fininho para as noites quentes, o de retalhos coloridos para quem está com o coração meio triste.

Quando você passa por esse vagão, ela olha para você, pensa um pouquinho, e te entrega o seu.

O terceiro vagão é o Vagão das Histórias Mansas.

Ali não tem poltrona nem cobertor. Tem só uma janela grande e um senhor tocando um instrumento parecido com uma caixinha de música. As notas saem devagar e vão flutuando pelo vagão como bolhas de sabão.

Cada bolha tem uma historinha dentro. Pequenininha. Coisa de uma frase só.

"Um cachorro dormindo na sombra de uma árvore."

"Um pão saindo do forno."

"Alguém segurando a sua mão."

As bolhas encostam na gente de leve e estouram, e a historinha entra bem devagarinho pela cabeça.

O Último Vagão

O último vagão não tem nome escrito na porta.

Ele é o menor de todos, e a luz lá dentro é bem baixinha — só um lampiãozinho balançando no teto.

É ali que a gente chega quando já está quase, quase dormindo.

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O chão desse vagão é feito de nuvem. Não uma nuvem molhada e fria como as de chuva, mas daquelas nuvens de fim de tarde, que ficam douradas e parecem colchão.

A gente deita. E o balanço do trem faz o resto.

Tum-tum. Tum-tum. Tum-tum.

Sempre no ritmo do coração de quem está dormindo bem.

A Viagem

Vagalume viaja a noite inteira.

Ele passa por cima de florestas onde as corujas piscam para ele. Atravessa campos de milho que balançam quando o trem passa. Corta pelo meio de nuvens grandes e sai do outro lado com a fumacinha toda molhada de orvalho.

Em certo momento da madrugada, o trem passa bem pertinho da lua. Tão perto que dá para ver as manchas dela de perto, como se fossem ilhas num mar cinzento.

Seu Tomé sempre tira o chapéu quando passa por ali. É uma coisa de respeito.

A Chegada

E aí, sem que ninguém perceba, o céu começa a mudar de cor.

Primeiro fica azul-escuro. Depois azul de verdade. Depois aparece uma faixinha laranja lá longe, na beira do mundo.

Seu Tomé olha o relógio de bolso: o ponteiro está saindo do "sono profundo" e entrando no "quase acordando".

Ele puxa a alavanca devagar e Vagalume começa a descer, macio como uma folha caindo.

O trem para na estação escondida entre as duas montanhas. As portas se abrem sem fazer barulho.

E todo mundo volta para a sua cama, sem nem lembrar de ter saído dela.

Só fica uma coisa: aquela sensação boa de ter dormido bem. Aquele descanso que a gente sente no corpo quando acorda e o dia parece mais leve.

Isso é o Vagalume trabalhando.

Hoje à Noite

Ele passa toda noite. Toda noite mesmo, sem falhar.

E tem um lugar reservado para você.

Não precisa comprar passagem, nem chegar cedo, nem levar nada. Basta deitar, deixar o corpo pesar no colchão e o ar entrar e sair devagarinho.

Quando você bocejar pela terceira vez, é sinal de que Vagalume já está encostando.

Escuta bem: dá pra ouvir o apito baixinho dele, longe.

Fecha os olhos.

Seu Tomé já está tirando o chapéu para a lua, e dona Malva já separou o seu cobertor.

Boa viagem, e durma bem.

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