O Travesseiro que Guardava Sonhos

Havia uma menina chamada Lila que morava numa casa azul de janelas grandes. Ela tinha sete anos, um gato preguiçoso chamado Bolota e um travesseiro muito velho.
O travesseiro tinha sido da mãe dela quando a mãe era pequena. Era branco (mais ou menos), meio amassado num canto e tinha um cheirinho que Lila não sabia explicar — um cheiro de sono bom.
O que Lila não sabia é que aquele travesseiro tinha um trabalho.
O Trabalho do Travesseiro
Todas as noites, quando Lila enfim parava de se mexer e a respiração dela ficava lenta e funda, o travesseiro começava a trabalhar.
Ele juntava os pedacinhos do dia que tinham ficado soltos na cabeça dela — o cheiro do pão da tarde, a risada da amiga no recreio, a cor do céu na hora de voltar da escola, aquela música que tocou no rádio do carro — e ia costurando tudo com muito cuidado, formando um sonho.
Depois soprava o sonho devagarinho para dentro da cabeça de Lila.
E também guardava. Cada sonho que ele fazia, o travesseiro guardava uma cópia lá dentro, no meio da penugem, para o caso de precisar um dia.
Fazia isso havia trinta anos, sem nunca reclamar.
A Noite Difícil
Aconteceu numa terça-feira.
Foi um dia ruim. Lila tinha brigado com a melhor amiga por causa de uma bobagem, tinha errado a lição de casa na frente da turma toda e, quando chegou em casa, descobriu que Bolota estava doente e teve que ir para o veterinário.
À noite, ela deitou e ficou olhando para o teto. Os olhos ardiam. A garganta estava apertada.
O travesseiro sentiu na hora. Ele sempre sentia.
Ele começou a procurar os pedacinhos do dia para costurar o sonho — mas era só pedaço ruim. Briga, vergonha, medo. Não dava para fazer um sonho bom com aquilo.
Foi então que o travesseiro se lembrou: ele tinha um estoque.
O Baú de Penugem
Lá no fundo dele, entre as penas mais macias, o travesseiro guardava trinta anos de sonhos. Ele foi procurando, com todo o cuidado.
Passou por um sonho de voar por cima do mar — bonito, mas grande demais para uma noite pequena.
Passou por um sonho de castelo de doce — gostoso, mas Lila ia acordar com fome.
Passou por um sonho antigo, um dos primeiros, de quando a mãe dela era pequena e tinha medo de trovão.
E parou nesse.
Era um sonho simples. Não tinha aventura nenhuma. Era só uma tarde de sol, um quintal, e alguém segurando a mão dela. Só isso.
O travesseiro achou que servia.
E soprou.
O Sonho
Lila sonhou que estava num quintal que ela nunca tinha visto, mas que parecia dela de algum jeito. Tinha uma figueira grande e um varal com lençóis brancos balançando no vento.
Ela estava sentada na grama. E do lado dela tinha uma menina, mais ou menos da idade dela, com o cabelo preso em duas trancinhas.
— Você teve um dia ruim? — perguntou a menina.
— Tive — respondeu Lila.
— Eu também tenho, às vezes.
Ficaram um tempo assim, sem falar nada, olhando os lençóis balançarem.
— E aí passa? — perguntou Lila.
A menina pensou.
— Passa. Não passa na hora. Mas passa.
E então ela pegou a mão de Lila, e ficaram as duas ali, no sol morno, ouvindo o vento.
A Manhã
Lila acordou na quarta-feira com uma sensação estranha no peito. Não era alegria exatamente. Era mais como aquela leveza de quando a chuva para.
Ela ficou deitada um tempo, tentando lembrar do sonho, e só conseguiu pegar pedaços: um varal, uma figueira, uma mão segurando a dela.
No café da manhã, sua mãe estava fazendo torrada.
— Mãe — disse Lila. — Você tinha uma figueira no quintal quando era pequena?
A mãe parou com a faca no ar.
— Tinha — respondeu, devagar. — Como você sabe disso?
Lila deu de ombros.
— Sonhei.
A mãe olhou para a filha por um tempo comprido. Depois sentou do lado dela, passou a mão no cabelo dela e disse:
— Sabe, esse travesseiro era meu.
— Eu sei.
— Eu dormia com ele quando as coisas ficavam difíceis.
Lila mordeu a torrada e sorriu.
— Funciona bem — disse ela.
O Que Aconteceu Depois
Naquela tarde, Lila fez as pazes com a amiga. Foi mais fácil do que ela imaginava — bastou dizer "desculpa" primeiro.
Bolota voltou do veterinário com um remedinho e uma cara de indignação, mas voltou.
E a lição de casa ela refez, e dessa vez acertou.
À noite, quando Lila deitou, ela abraçou o travesseiro velho com força e falou baixinho, meio sem jeito, sentindo-se um pouco boba:
— Obrigada.
O travesseiro não respondeu, claro. Travesseiro não fala.
Mas ele ficou muito contente. E, com os pedacinhos daquele dia — o "desculpa" que deu certo, o ronronar do Bolota, a lição acertada —, ele costurou o sonho mais macio que já tinha feito na vida.
E guardou uma cópia lá no fundo. Para o caso de precisar um dia.
Boa noite, e que o seu travesseiro faça um sonho bem bonito para você hoje.
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