O Travesseiro que Guardava Sonhos

4 min de leituraHistorinha para dormir
O Travesseiro que Guardava Sonhos
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Havia uma menina chamada Lila que morava numa casa azul de janelas grandes. Ela tinha sete anos, um gato preguiçoso chamado Bolota e um travesseiro muito velho.

O travesseiro tinha sido da mãe dela quando a mãe era pequena. Era branco (mais ou menos), meio amassado num canto e tinha um cheirinho que Lila não sabia explicar — um cheiro de sono bom.

O que Lila não sabia é que aquele travesseiro tinha um trabalho.

O Trabalho do Travesseiro

Todas as noites, quando Lila enfim parava de se mexer e a respiração dela ficava lenta e funda, o travesseiro começava a trabalhar.

Ele juntava os pedacinhos do dia que tinham ficado soltos na cabeça dela — o cheiro do pão da tarde, a risada da amiga no recreio, a cor do céu na hora de voltar da escola, aquela música que tocou no rádio do carro — e ia costurando tudo com muito cuidado, formando um sonho.

Depois soprava o sonho devagarinho para dentro da cabeça de Lila.

E também guardava. Cada sonho que ele fazia, o travesseiro guardava uma cópia lá dentro, no meio da penugem, para o caso de precisar um dia.

Fazia isso havia trinta anos, sem nunca reclamar.

A Noite Difícil

Aconteceu numa terça-feira.

Foi um dia ruim. Lila tinha brigado com a melhor amiga por causa de uma bobagem, tinha errado a lição de casa na frente da turma toda e, quando chegou em casa, descobriu que Bolota estava doente e teve que ir para o veterinário.

À noite, ela deitou e ficou olhando para o teto. Os olhos ardiam. A garganta estava apertada.

O travesseiro sentiu na hora. Ele sempre sentia.

Ele começou a procurar os pedacinhos do dia para costurar o sonho — mas era só pedaço ruim. Briga, vergonha, medo. Não dava para fazer um sonho bom com aquilo.

Foi então que o travesseiro se lembrou: ele tinha um estoque.

O Baú de Penugem

Lá no fundo dele, entre as penas mais macias, o travesseiro guardava trinta anos de sonhos. Ele foi procurando, com todo o cuidado.

Passou por um sonho de voar por cima do mar — bonito, mas grande demais para uma noite pequena.

Passou por um sonho de castelo de doce — gostoso, mas Lila ia acordar com fome.

Passou por um sonho antigo, um dos primeiros, de quando a mãe dela era pequena e tinha medo de trovão.

E parou nesse.

Era um sonho simples. Não tinha aventura nenhuma. Era só uma tarde de sol, um quintal, e alguém segurando a mão dela. Só isso.

O travesseiro achou que servia.

E soprou.

O Sonho

Lila sonhou que estava num quintal que ela nunca tinha visto, mas que parecia dela de algum jeito. Tinha uma figueira grande e um varal com lençóis brancos balançando no vento.

Ela estava sentada na grama. E do lado dela tinha uma menina, mais ou menos da idade dela, com o cabelo preso em duas trancinhas.

— Você teve um dia ruim? — perguntou a menina.

— Tive — respondeu Lila.

— Eu também tenho, às vezes.

Ficaram um tempo assim, sem falar nada, olhando os lençóis balançarem.

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— E aí passa? — perguntou Lila.

A menina pensou.

— Passa. Não passa na hora. Mas passa.

E então ela pegou a mão de Lila, e ficaram as duas ali, no sol morno, ouvindo o vento.

A Manhã

Lila acordou na quarta-feira com uma sensação estranha no peito. Não era alegria exatamente. Era mais como aquela leveza de quando a chuva para.

Ela ficou deitada um tempo, tentando lembrar do sonho, e só conseguiu pegar pedaços: um varal, uma figueira, uma mão segurando a dela.

No café da manhã, sua mãe estava fazendo torrada.

— Mãe — disse Lila. — Você tinha uma figueira no quintal quando era pequena?

A mãe parou com a faca no ar.

— Tinha — respondeu, devagar. — Como você sabe disso?

Lila deu de ombros.

— Sonhei.

A mãe olhou para a filha por um tempo comprido. Depois sentou do lado dela, passou a mão no cabelo dela e disse:

— Sabe, esse travesseiro era meu.

— Eu sei.

— Eu dormia com ele quando as coisas ficavam difíceis.

Lila mordeu a torrada e sorriu.

— Funciona bem — disse ela.

O Que Aconteceu Depois

Naquela tarde, Lila fez as pazes com a amiga. Foi mais fácil do que ela imaginava — bastou dizer "desculpa" primeiro.

Bolota voltou do veterinário com um remedinho e uma cara de indignação, mas voltou.

E a lição de casa ela refez, e dessa vez acertou.

À noite, quando Lila deitou, ela abraçou o travesseiro velho com força e falou baixinho, meio sem jeito, sentindo-se um pouco boba:

— Obrigada.

O travesseiro não respondeu, claro. Travesseiro não fala.

Mas ele ficou muito contente. E, com os pedacinhos daquele dia — o "desculpa" que deu certo, o ronronar do Bolota, a lição acertada —, ele costurou o sonho mais macio que já tinha feito na vida.

E guardou uma cópia lá no fundo. Para o caso de precisar um dia.

Boa noite, e que o seu travesseiro faça um sonho bem bonito para você hoje.

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