O Tamanduá que Comia um Pouquinho de Cada Casa

5 min de leituraHistorinha para dormir
O Tamanduá que Comia um Pouquinho de Cada Casa
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No meio do cerrado, onde o capim fica dourado na seca e as árvores são baixinhas e tortas, andava uma fêmea de tamanduá-bandeira chamada Nhanhã.

Ela era grande. Tinha um focinho comprido e fino, um rabo enorme e peludo, que ela usava de cobertor na hora de dormir, e uma faixa preta e branca atravessando o corpo.

E, montada nas costas dela, andava a Nica.

O filhote invisível

A Nica era filha da Nhanhã, e morava ali em cima desde que nasceu.

E tinha uma coisa curiosa: quando a Nica se deitava nas costas da mãe do jeito certo, a faixa preta e branca do pelo dela encaixava bem em cima da faixa da mãe.

Encaixava tão bem que sumia. De longe, ninguém via um filhote em cima de uma tamanduá. Via só uma tamanduá grande.

Era o esconderijo dela. E era o melhor esconderijo do mundo.

O jeito de comer

Do alto das costas da mãe, a Nica passava o dia vendo ela comer.

A Nhanhã não tinha dente nenhum. Nenhum, mesmo. O que ela tinha era uma língua comprida, fina e grudenta, que ela enfiava dentro das casas de formiga e de cupim.

Ela chegava perto de um formigueiro, rasgava um buraquinho na lateral com a unha da frente, enfiava o focinho e começava.

A língua entrava e saía tão rápido que a Nica nem via direito. Só ouvia um barulhinho: ti-ti-ti-ti-ti-ti.

E aí, poucos instantes depois, ela tirava o focinho, tapava o buraco com terra do lado e ia embora.

A Nica nunca entendeu essa parte.

— Mãe. Por que você para tão rápido?

— Você vai descobrir.

O primeiro dia sozinha

Quando a Nica ficou grande demais para caber nas costas da mãe, chegou o dia de comer sozinha.

Ela desceu, se espreguiçou e saiu andando com aquele jeitão desengonçado de tamanduá, com as unhas da frente dobradas para dentro, pisando nos nós dos dedos.

Andou pelo capim, farejando com o focinho comprido. E achou uma coisa que deixou ela tonta de alegria.

Um cupinzeiro.

Mas não era um cupinzeiro qualquer. Era o maior que ela já tinha visto: alto como ela, de terra avermelhada, duro feito pedra, cheio de cupim lá dentro.

— MÃE! — ela gritou. — Vem ver o tamanho desse aqui!

A Nhanhã veio andando devagar, olhou o cupinzeiro e deu um resmungo de aprovação.

— Bonito. Come um pouquinho.

— Um pouquinho? — A Nica riu. — Mãe, dá pra comer a semana inteira!

A lambida grande

A mãe não disse nada. Sentou no capim e ficou olhando.

A Nica rasgou o cupinzeiro com a unha, enfiou o focinho e começou a comer.

Estava delicioso. Ela comeu, comeu, comeu. Não parou depois de um pouquinho. Não parou depois de dois pouquinhos. Ela queria acabar com aquilo.

E foi aí que aconteceu.

Primeiro foi uma mordida no focinho. Depois duas. Depois um monte.

Os cupins soldados tinham chegado.

São os cupins de cabeça grande, que aparecem quando a casa é atacada e mordem tudo o que encontram. E, quando eles chegam em quantidade, não tem focinho que aguente.

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A Nica deu um pulo para trás, esfregando a cara no chão, soltando fungadas de dor, dando voltas no capim.

Levou um tempão para se acalmar.

Quando finalmente parou, com o focinho ardendo, a mãe continuava sentada no mesmo lugar.

— Agora você entendeu por que a gente para rápido?

As duas razões

A Nica resmungou que sim, muito emburrada.

— A primeira razão é essa: os soldados demoram um pouquinho para chegar. Se você comer rápido e sair, você come em paz. Se você ficar, você apanha.

— E tem uma segunda?

A Nhanhã levantou e foi andando até o cupinzeiro. A Nica foi atrás.

— Olha esse buraco que você fez.

Era um buraco enorme. Um pedaço inteiro da parede tinha caído, e dava para ver os corredorezinhos lá dentro, com os cupins correndo desesperados, tentando tapar tudo.

— Se você acabar com essa casa, ela some. — Ela olhou para a filha. — E, quando você passar aqui de novo daqui a uns meses, não vai ter nada.

A Nica olhou para o cupinzeiro quebrado.

— Eu como um pouquinho de cada casa — continuou a mãe. — De um monte de casas diferentes, todo dia. Nenhuma delas acaba. E todas continuam aqui no ano que vem, e no outro, e quando você tiver filhote.

A lição no focinho

Naquela tarde, a Nica aprendeu a comer direito.

Achava o formigueiro. Rasgava um buraquinho pequeno na lateral, o menor possível. Enfiava o focinho. Ti-ti-ti-ti-ti-ti.

E saía antes de os soldados chegarem.

Andava mais um pouco, achava outro. Ti-ti-ti-ti-ti-ti. E saía.

E outro. E outro.

No fim do dia, ela tinha comido em umas quarenta casas diferentes, estava de barriga cheia, e não tinha levado nenhuma mordida.

E nenhuma daquelas quarenta casas tinha acabado.

Muito tempo depois

A Nica cresceu e ficou grande como a mãe, com o mesmo focinho comprido e o mesmo rabo enorme de cobertor.

Ela andou por muito cerrado. Aprendeu a se levantar nas patas de trás quando aparecia perigo, abrindo os braços e mostrando as unhas, que é o jeito que os tamanduás têm de dizer "não chega perto".

E, um dia, ela passou de novo naquele mesmo lugar.

O cupinzeiro grande ainda estava lá. A parte que ela tinha quebrado já tinha sido remendada pelos cupins, com uma terra de cor um pouco diferente, que ficou parecendo uma cicatriz.

A Nica rasgou um buraquinho pequeno na lateral. Comeu um pouquinho. Ti-ti-ti-ti-ti-ti.

E saiu antes dos soldados.

Atrás dela, encaixado nas costas, de um jeito que ninguém de longe conseguia ver, ia um filhote.

E o filhote perguntou, do alto:

— Mãe. Por que você para tão rápido?

A Nica continuou andando pelo capim dourado, com o rabo balançando atrás.

— Você vai descobrir.

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