O Sino que Perdeu a Voz no Natal

Na vila de Pinheiro Branco, onde a neve começava a cair sempre no primeiro dia de dezembro, havia uma igrejinha de madeira com uma torre pontuda. E no alto dessa torre morava um sino de bronze chamado Bimbalho.
Bimbalho tinha uma voz linda. Quando o vento o balançava, ele soltava um "blém-blom" tão bonito que dava vontade de parar tudo só para ouvir. As pessoas da vila diziam que o Natal só começava de verdade quando Bimbalho tocava na noite do dia vinte e quatro.
Ele se orgulhava muito disso. Era o trabalho mais importante da vila inteira.
O Dia em que a Voz Sumiu
Naquele ano, porém, aconteceu uma coisa terrível.
Faltavam três dias para o Natal quando o velho sineiro subiu na torre para testar o sino, puxou a corda e...
Nada.
Ou melhor: quase nada. Saiu um som pequenininho e rachado, tipo "blem", meio engasgado, que morreu no ar antes de chegar na primeira casa.
O sineiro examinou Bimbalho de perto e balançou a cabeça, triste.
— Rachou — disse ele. — O frio rachou o bronze.
Bimbalho sentiu o coração afundar. Ele tentou de novo. E de novo. Cada vez saía aquele mesmo som quebrado e feio.
— Eu perdi a minha voz — pensou ele, desesperado. — E o Natal está chegando.
A Tristeza da Torre
Nos dois dias seguintes, Bimbalho ficou calado na sua torre, olhando a vila lá embaixo.
Via as pessoas pendurando luzinhas nas janelas. Via as crianças fazendo bonecos de neve na praça. Via o cheiro de canela subindo das chaminés.
E pensava: "Todos eles estão esperando por mim. E eu não vou conseguir."
Na tarde do dia vinte e quatro, um pardal pousou na beirada da torre. Era o Tuim, que morava no beiral da padaria.
— Oi, Bimbalho. Por que tanta cara feia?
— Eu rachei — disse o sino. — Não consigo mais tocar. Vou estragar o Natal de todo mundo.
Tuim inclinou a cabecinha.
— Você acha que o Natal depende de você?
— Depende! O Natal começa quando eu toco. Sempre foi assim.
O pardal ficou quieto um pouco.
— Bimbalho — disse ele, enfim —, você já reparou no que as pessoas fazem quando você toca?
— Elas param para ouvir.
— E depois?
Bimbalho pensou.
— Depois... elas se abraçam. E entram em casa. E ficam juntas.
— Então o seu trabalho não é fazer barulho — disse Tuim. — O seu trabalho é avisar que chegou a hora de estarem juntas. Isso é outra coisa.
A Noite de Natal
Quando o sol se pôs, a vila inteira começou a se juntar na praça, como fazia todos os anos. As pessoas vinham com cachecóis e lanternas, e ficavam olhando para a torre da igrejinha, esperando.
O sineiro subiu, olhou para Bimbalho com pena, e puxou a corda mesmo assim.
"Blem." O som rachado e pequenininho.
Um silêncio esquisito caiu sobre a praça.
Bimbalho quis se enterrar de vergonha.
Mas então uma coisa aconteceu.
Uma menininha, lá embaixo na praça, chamada Ana, puxou a manga do casaco da mãe e perguntou:
— Mãe, o sininho está doente?
— Está, filha. Ele rachou.
Ana pensou um pouco. Depois soltou a mão da mãe, subiu no banco de pedra da praça, e cantou.
Era uma música de Natal simples, dessas que toda criança sabe. A voz dela era fininha e um pouco desafinada, mas era clara e chegava longe no ar gelado.
Um senhor de barba branca, que estava ali perto, começou a cantar junto. Depois uma moça. Depois a família inteira da padaria.
E em poucos minutos a praça inteira de Pinheiro Branco estava cantando, com as lanternas na mão e a neve caindo devagarinho em cima de todo mundo.
O Que Bimbalho Entendeu
Lá do alto da torre, Bimbalho escutava.
Nunca, em todos os seus anos de bronze, ele tinha ouvido a vila fazer aquilo. Sempre que ele tocava, as pessoas ouviam ele. Naquela noite, elas ouviram umas às outras.
Uma lágrima — se sinos pudessem chorar, seria isso — escorreu pela lateral do bronze rachado.
Mas não era uma lágrima triste.
— Tuim tinha razão — pensou ele. — Não era sobre mim.
O Ano Seguinte
Na primavera, o velho sineiro juntou dinheiro com a vila toda e mandou consertar Bimbalho. Um ferreiro de outra cidade veio, esquentou o bronze e fechou a rachadura com todo o cuidado.
A voz voltou. Um pouquinho diferente de antes — um tom mais grave, mais quente —, mas voltou.
E no Natal seguinte, quando o sineiro puxou a corda, Bimbalho tocou seu "blém-blom" mais bonito de todos os tempos.
A praça se encheu, como sempre.
Só que dessa vez, quando o sino se calou, ninguém foi embora. Uma menininha subiu no banco de pedra e começou a cantar — e a vila inteira cantou junto, outra vez, embaixo da neve.
Virou tradição. Até hoje é assim em Pinheiro Branco: primeiro o sino chama, depois as pessoas cantam.
E Bimbalho, lá do alto, acha que aquele ano em que ele perdeu a voz foi o melhor Natal que já aconteceu naquela vila.
Porque foi o ano em que todo mundo descobriu que também tinha uma.
Feliz Natal, e que a sua casa esteja cheia de vozes hoje.
O Que Achou da Historinha?
Toque nas estrelas para avaliar
O que achou desta história?
Comentários (0)
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a comentar!



