O Presépio de Barro da Vó Inês

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O Presépio de Barro da Vó Inês
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Todo ano, no primeiro domingo de dezembro, a casa da vó Inês cheirava a café e a poeira de caixa velha.

Era o dia de montar o presépio.

A caixa ficava em cima do guarda-roupa o ano inteiro, embrulhada num pano de linho. Lá dentro, cada figura de barro vinha enroladinha em papel de jornal amarelado.

O Bento, que tinha sete anos, achava aquele o melhor dia de dezembro. Melhor até que o dia de montar a árvore.

As figuras

A vó Inês desembrulhava uma por uma, sempre na mesma ordem, e contava a história de cada uma.

— Essa aqui é a mais velha de todas — dizia ela, mostrando um boi de barro escuro. — Era do meu pai. Tem mais de setenta anos.

Depois vinha o burrinho, com a pintura já apagada nas costas.

Depois os três pastores, um deles com o cajado torto.

Depois as ovelhas: seis, todas diferentes, porque foram feitas à mão em anos diferentes.

Depois José, Maria, os três reis do Oriente e o anjo com a asa remendada.

E, por último, embrulhado em dois papéis em vez de um, o Menino Jesus.

A ovelha do Bento

Entre as seis ovelhas, tinha uma que era a preferida do Bento.

Era a menorzinha, meio torta, de orelhas grandes demais para o tamanho do corpo. A vó dizia que essa tinha sido a primeira que ela mesma pintou, quando era menina, e que por isso tinha ficado com aquele olhar espantado.

Todo ano, era o Bento quem punha essa ovelha no presépio, sempre no mesmo lugar: bem na frente, perto da manjedoura.

O acidente

Naquele ano, aconteceu.

O Bento estava atravessando a cozinha com a ovelhinha na mão, foi contornar a cadeira, esbarrou na quina da mesa e a ovelha escapou dos dedos dele.

Caiu no chão de cimento.

Tec.

Não foi um barulho grande. Foi um barulhinho seco, e dos piores que existem.

A orelha esquerda da ovelha soltou e ficou ali no chão, do lado do corpo.

O Bento ficou parado, olhando.

Depois começou a chorar, daquele jeito de quem chora sem fazer barulho, que é o pior de todos.

A vó

A vó Inês não gritou. Não disse "eu falei para tomar cuidado".

Ela se abaixou devagar, com aquele esforço de joelho de gente grande, catou a orelhinha do chão e pôs na palma da mão.

— Olha aqui, Bento.

Ele olhou, com o rosto molhado.

— Quebrou em pedaço grande. Isso é sorte.

— Sorte?

— Pedaço grande cola. Pedaço pequeno vira pó. — Ela levantou, se apoiando na mesa. — Vai lá na gaveta pegar a cola.

O conserto

Já estava escurecendo quando eles sentaram os dois na mesa da cozinha, embaixo da lamparina.

A vó Inês passou uma linha bem fina de cola na beirada da orelha, encaixou no lugar, girou um pouquinho até achar o ponto certo e apertou.

— Agora a gente conta até sessenta. Sem soltar.

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Eles contaram juntos, bem devagar.

Depois ela mostrou a ovelha na luz. Dava para ver uma risquinha mais clara, fininha, na base da orelha.

— Vai ficar marcado — disse o Bento, desapontado.

— Vai. Marca de conserto sempre fica.

Os outros remendos

Aí a vó Inês fez uma coisa que o Bento não esperava.

Ela pegou o anjo e virou de costas para ele.

— Tá vendo essa asa?

Tinha uma linha grossa de cola, bem feia, atravessando a asa inteira.

— Fui eu, em 1968. Deixei cair na pia. Chorei mais que você.

Depois pegou um dos reis do Oriente e mostrou o pé, que era de uma massa de cor diferente.

— Esse aqui perdeu o pé de vez, e o seu bisavô fez um novo com massa de parede. Nem ficou da mesma cor, ó.

E o boi de barro, o mais velho de todos, tinha um chifre colado de lado.

— Só uma peça desse presépio nunca quebrou — disse ela. — Sabe qual?

O Bento olhou tudo com atenção.

— O Menino Jesus?

— Esse é o que eu embrulho em dois papéis — riu ela. — Mas não é. É a ovelha branca grande ali, aquela lisinha, sem marca nenhuma.

O que ela falou

— Eu gosto mais das remendadas — disse a vó Inês, arrumando as figuras no pano de linho.

— Por quê?

Ela pensou um pouco, alinhando o burrinho ao lado da manjedoura.

— Porque a que nunca quebrou é a que ninguém nunca escolheu pegar. Fica sempre no fundo, atrás de todo mundo, e volta para a caixa do mesmo jeito que saiu. E as remendadas são as que foram para a mão de todo mundo, ano após ano. Criança pegou, tirou do lugar, brincou escondido, levou para mostrar para o vizinho. Elas quebraram porque foram usadas. — Ela deu de ombros. — Presépio não é para ficar bonito na caixa.

A noite de Natal

Na noite de Natal, com a família toda na casa, o presépio ficou na mesa da sala, em cima do pano de linho, com palha em volta e uma vela acesa do lado.

O Bento pôs a ovelhinha dele no lugar de sempre, bem na frente, perto da manjedoura.

A risquinha clara da orelha aparecia se a gente olhasse de perto.

O primo mais velho olhou de perto e perguntou o que tinha acontecido.

E o Bento, que tinha chorado tanto três semanas antes, contou a história inteira sem se acanhar. Contou o esbarrão, a queda, a cola, a contagem até sessenta, e ainda mostrou a asa do anjo de 1968 e o pé do rei feito de massa de parede.

Muitos anos depois

O Bento cresceu.

Hoje é ele quem guarda a caixa em cima do guarda-roupa, embrulhada no mesmo pano de linho.

Todo primeiro domingo de dezembro, ele desembrulha as figuras na mesma ordem que a vó Inês desembrulhava, com os filhos dele em volta.

E, quando chega na ovelhinha de orelhas grandes, ele sempre para um pouquinho antes de entregar para a criança mais nova da casa.

Porque é assim que essa ovelha anda de mão em mão há mais de setenta anos.

Com a marca e tudo.

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