O Porquinho Detetive

Na Fazenda do Ipê Amarelo, a maioria dos porcos tinha apenas três interesses na vida: comer milho, rolar na lama fresca e tirar cochilos ao sol. Mas Horácio não era um porco comum.
Horácio era pequeno, rosado e tinha uma mancha marrom em volta do olho esquerdo que parecia muito com uma lupa. Talvez por isso, ou talvez porque ele fosse o animal mais curioso de todo o chiqueiro, ele preferia ser chamado de Sherlock Presunto.
Sherlock Presunto levava sua profissão muito a sério. Ele tinha um escritório (o canto mais limpo do chiqueiro), um assistente (um pato chamado Quackson, que na verdade só sabia dizer “quack”, mas Sherlock achava que eram conselhos brilhantes) e um faro imbatível para problemas.
Numa manhã de terça-feira, o caos se instalou no celeiro. Não era o caos comum de hora da comida. Era um caos de pânico.
Sherlock estava polindo seu casco quando ouviu os mugidos desesperados de Dona Mimosa. — É uma tragédia! Um escândalo! — mugia a vaca malhada.
Sherlock ajustou suas orelhas e olhou para Quackson. — O dever nos chama, meu caro amigo. Pegue seu bloco de notas imaginário.
Eles marcharam até o estábulo. Dona Mimosa estava cercada por outras vacas, todas com cara de preocupação. — Dona Mimosa — disse Sherlock, limpando a garganta com um oinc respeitoso. — O que houve?
— O meu sino! — choramingou ela. — Meu lindo sino de bronze polido, que ganhei no concurso de “Melhor Leite do Ano”. Ele sumiu do meu pescoço enquanto eu dormia!
Sherlock franziu o focinho. — Interessante. Muito interessante. Havia algum sinal de arrombamento na porta do estábulo? — Não! — respondeu ela. — A porta estava trancada.
Sherlock começou a investigar a cena do crime. Ele cheirou a palha. Cheirou o cocho. Cheirou o pescoço de Dona Mimosa (que cheirava a trevo e tristeza). — Humm… — murmurou Sherlock. No chão, perto da janela alta do estábulo, algo chamou sua atenção. Não era uma pegada. Era uma pena. Uma pena preta, pequena, mas com um brilho azulado. — Pista número um — sussurrou ele para Quackson. — Anote isso.
Antes que pudessem formular uma teoria, ouviram um cacarejo histérico vindo do galinheiro. — Roubo! Ladrão! Socorro!
Sherlock e Quackson correram para lá. O Galo Rodolfo, o animal mais vaidoso da fazenda, estava andando de um lado para o outro, arrancando as próprias penas de nervoso. — Detetive Presunto! — gritou Rodolfo. — Que bom que você chegou. Alguém roubou meu bem mais precioso!
— Seu milho especial? — arriscou Sherlock. — Não! Meu espelho de bolso! Aquele redondinho, com a borda prateada, que uso para ajeitar minha crista. Eu o deixei em cima do poste da cerca para pegar a luz da manhã, e quando olhei… PUF! Sumiu!
Sherlock examinou o poste da cerca. A madeira estava arranhada. E lá, presa numa farpa de madeira, estava outra coisa. Não uma pena dessa vez, mas um fio. Um fiozinho azul brilhante, que parecia ter vindo de um pedaço de fita. E, no chão, logo abaixo do poste… outra pena preta com brilho azulado.
— Quack — disse Quackson, olhando para a pena. — Exatamente o que eu estava pensando — concordou Sherlock. — O ladrão tem um padrão. Ele gosta de coisas que brilham. O sino de bronze. O espelho prateado.
Sherlock reuniu todos os animais no pátio central. Ovelhas, galinhas, vacas e cavalos formaram um círculo. — Atenção, cidadãos da Fazenda do Ipê Amarelo — anunciou Sherlock, subindo em cima de um caixote de madeira para parecer mais alto. — Estamos lidando com um criminoso em série. Um especialista em furtos brilhantes. Alguém mais notou o sumiço de algo?
Uma ovelhinha tímida levantou a pata. — Sr. Presunto? Minha coleira… ela tinha uma medalhinha de identificação de metal. Sumiu ontem à tarde.
— Onde você estava? — perguntou Sherlock. — Perto do Grande Carvalho Velho — disse a ovelha.
Sherlock trocou um olhar significativo com Quackson. O Grande Carvalho Velho ficava na divisa da fazenda. Era a árvore mais alta de todas.
— Obrigado — disse Sherlock. — O caso está quase resolvido. Quackson, prepare-se. Vamos fazer uma escalada… ou quase isso.
Eles foram até o Grande Carvalho. A árvore era imensa, cheia de galhos retorcidos. Sherlock olhou para cima. Porcos não sobem em árvores. Patos voam, mas Quackson era um pato doméstico meio preguiçoso que mal voava até a cerca.
— Precisamos de apoio aéreo — concluiu Sherlock. — Ou de alguém com garras.
Sherlock chamou Bigodes, o gato da fazenda. Bigodes era sarcástico e cobrava caro por seus serviços (geralmente em leite fresco), mas era ágil. — Bigodes — disse Sherlock —, há um suspeito no topo desta árvore. Preciso que você suba lá e verifique se há um esconderijo.
— O que eu ganho com isso? — miou Bigodes, lambendo a pata. — A gratidão eterna da comunidade e, talvez, a chance de pegar o ladrão que roubou o brinquedinho de metal que você gosta de perseguir.
Os olhos de Bigodes se estreitaram. Ele também tinha sido vítima! Seu guizo de brinquedo havia sumido. — Estou dentro.
O gato subiu pelo tronco com a agilidade de um esquilo. Sherlock e Quackson ficaram lá embaixo, com o pescoço doendo de tanto olhar para cima. Passaram-se cinco minutos. De repente, ouviram um som lá em cima: Croc! Croc! E depois, um miado de triunfo.
— Peguei! — gritou Bigodes lá de cima. — E vocês não vão acreditar no tesouro que tem aqui!
Bigodes desceu, mas não veio sozinho. Ele veio empurrando, degrau por degrau dos galhos, uma pilha de objetos. O sino. O espelho. A medalha. O guizo. E até uma colher de chá que a esposa do fazendeiro estava procurando há semanas.
E, voando logo atrás de Bigodes, muito irritada, veio a culpada. Era uma Gralha-azul. Um pássaro bonito, com penas pretas e azuis, conhecido por sua inteligência e por uma mania incontrolável: colecionar coisas que brilham.
— Minhas joias! — grasnou a Gralha, pousando num galho baixo. — Devolvam minhas joias!
Os animais da fazenda cercaram a árvore. Dona Mimosa olhou feio para a Gralha. — Joias? Isso é o meu sino! — E o meu espelho! — gritou o Galo Rodolfo.
A Gralha encolheu-se. — Eu não sabia que eram de vocês… Eu só vi brilhando. O sol bateu neles e… ah, eu não resisti! Era tão bonito! Eu precisava decorar meu ninho.
Sherlock Presunto adiantou-se. — Sra. Gralha, a senhora cometeu um erro grave. Apropriação indébita de propriedade alheia. Na fazenda, não pegamos o que não é nosso.
A Gralha parecia arrependida (ou talvez apenas triste por perder seu tesouro). — Desculpem. É que aqui no alto é tão solitário. As coisas brilhantes me alegram.
Sherlock olhou para o monte de objetos recuperados. Depois olhou para a Gralha triste. O coração de Sherlock era mole como pudim.
— Humm… — pensou ele. — Quackson, o que você acha? — Quack! — disse o pato, bicando um pedaço de papel alumínio que estava no chão, resto do lanche do fazendeiro.
— Brilhante, Quackson! — exclamou Sherlock. — Absolutamente brilhante!
Sherlock virou-se para os animais. — Pessoal, vamos fazer um acordo. Recuperamos nossos objetos úteis. Mas, para que a Sra. Gralha não fique triste e não volte a roubar, podemos dar a ela coisas brilhantes que não precisamos.
Sherlock fuçou o lixo reciclável perto do celeiro. Ele pegou tampinhas de garrafa de metal. Pegou pedaços de papel alumínio amassado. Pegou uma fita de presente prateada velha. — Aqui, Sra. Gralha — disse Sherlock. — Isso brilha tanto quanto ouro. Pode ficar. É um presente da Fazenda do Ipê Amarelo. Mas prometa deixar nossos sinos e espelhos em paz.
Os olhos da Gralha brilharam mais que as tampinhas. — Oh! É lindo! É maravilhoso! Prometo! Prometo de pé junto!
Ela pegou as tampinhas e o papel alumínio e voou feliz para o topo do carvalho.
Dona Mimosa colocou seu sino de volta (DONG!). Galo Rodolfo se admirou no espelho. Ovelha Clarinha recuperou sua medalha.
— Você é um gênio, Sherlock — disse Dona Mimosa. — Como podemos agradecer?
Sherlock sorriu, seu rabinho enrolado balançando de felicidade. — Bem… ouvi dizer que o fazendeiro acabou de colocar uma mistura nova de cascas de melancia e milho no meu cocho. Se ninguém se importar de eu furar a fila do almoço…
Todos riram e abriram caminho para o detetive.
Naquela tarde, Sherlock Presunto deitou-se na sua poça de lama favorita. Ele estava cheio, feliz e coberto de lama fresca. Quackson dormia ao seu lado. Sherlock fechou os olhos, sentindo o sol na barriga. Ele sabia que, em breve, outro mistério surgiria. Talvez o “Caso da Cenoura Mordida” ou o “Enigma do Ovo Quadrado”. Mas, por enquanto, o caso estava encerrado.
E lá no alto, no Grande Carvalho, o ninho da Gralha brilhava ao sol, o farol mais cintilante de toda a região, vigiando o sono do maior detetive suíno do mundo.
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