O Poço que Fica Azul às Duas da Tarde

Rafa tinha medo de água funda.
Não de água. De água funda. Piscina rasa, tudo bem. Mar até o joelho, tudo bem. Mas, quando o pé não alcançava o chão, o coração dela acelerava e a respiração ficava curtinha.
Ela nunca tinha contado isso para ninguém. Dava um jeito. Ficava na beira. Dizia que estava com frio.
O problema é que a família inteira foi passar as férias na Chapada Diamantina, na Bahia.
E, na Chapada, todo passeio tem água.
O poço
No terceiro dia, o pai anunciou no café da manhã:
— Hoje é o Poço Azul.
Rafa olhou para o irmão, que já estava empolgado.
— É o quê?
— É uma gruta — explicou o pai, mostrando uma foto no celular. — Tem um poço de água dentro. E numa certa hora do dia entra um raio de sol por um buraco no teto, e a água fica azul.
Rafa olhou a foto. A água na foto era de um azul que ela nunca tinha visto na vida. Parecia mentira. Parecia coisa pintada.
— Que hora?
— Depende da época do ano. Hoje deve ser do meio-dia e meia até umas duas e meia.
— E é fundo?
O pai deu uma risada.
— Bem fundo.
Rafa não comeu mais nada.
As regras
Na entrada do poço tinha uma casinha de madeira e uma moça chamada Tati, que era a guia.
Antes de qualquer coisa, ela reuniu o grupo e explicou as regras.
— Primeira: ninguém entra com protetor solar, nem com repelente, nem com creme nenhum. Quem passou hoje tem que tomar banho antes de entrar.
Um senhor do grupo reclamou.
— Mas o sol tá forte…
— Tá. Por isso a gente entra de camiseta. — A Tati foi firme. — Aquela água é limpa há muito mais tempo do que a gente existe. Um pouquinho de creme de cada pessoa, vezes todo mundo que vem aqui, acaba com ela.
Rafa achou isso justo.
— Segunda: todo mundo entra com colete salva-vidas. Todo mundo. Sabendo nadar ou não.
Rafa levantou a cabeça.
— Todo mundo mesmo?
— Todo mundo. É obrigatório.
E aí uma coisa estranha aconteceu dentro da barriga da Rafa: um pouquinho do medo foi embora.
A descida
Eles desceram por uma escada de madeira, dentro de uma fenda na pedra.
Lá dentro era outro mundo. Fresco. Escuro. Com aquele cheiro de pedra molhada e um silêncio grande, desses que fazem a gente falar baixo sem ninguém mandar.
O teto era alto, cheio de bicos de pedra apontando para baixo. E, lá na frente, o chão acabava e começava a água.
A água estava escura. Preta, quase. Dava para ver a superfície brilhando de leve com a luz que vinha da entrada, e mais nada.
O irmão de Rafa entrou na hora, fazendo barulho.
Rafa sentou na pedra da beirada, com o colete já vestido e a máscara na testa, e ficou olhando.
A espera
A Tati sentou do lado dela.
— Você não vai?
— Daqui a pouco.
A guia não insistiu. Ficou ali, olhando a água junto.
— Sabe o que eu mais gosto daqui? — ela disse depois de um tempo. — É que não adianta ter pressa. O sol chega na hora que ele quer. Você pode gritar, pode implorar. Ele chega na hora dele.
Rafa deu uma risadinha.
— E se ficar nublado?
— Aí não acende. Já aconteceu comigo. Fiquei duas horas dentro da água e nada.
— E aí?
— E aí eu voltei no dia seguinte.
Rafa ficou pensando nisso.
— Tati. Eu tenho medo de água funda.
Falou assim, de uma vez, sem ensaiar. Foi a primeira vez na vida que ela falou isso em voz alta.
A Tati não fez drama nenhum.
— Então faz o seguinte. Entra e fica segurando na corda que tem ali na beira. Não solta. Só boia. Se depois de cinco minutos você quiser sair, você sai, e tá tudo certo.
A entrada
A água estava gelada no começo. Rafa desceu devagarinho, com as duas mãos na corda, sentindo a pedra sumir debaixo do pé.
O colete puxou ela para cima.
E ela ficou boiando.
O corpo dela, sozinho, estava boiando. Sem esforço, sem afundar, só boiando.
Ela ficou agarrada na corda um tempo bom, respirando fundo, esperando o coração acalmar.
E ele acalmou.
Duas da tarde
Foi aí que o pessoal do grupo começou a falar ao mesmo tempo.
— Tá vindo!
— Olha lá!
Rafa virou a cabeça.
Lá no alto, num buraco no teto da gruta, tinha entrado um risco de luz. Um raio de sol fininho, cheio de poeirinha girando dentro dele.
O raio foi descendo devagar pela parede de pedra, como se alguém estivesse empurrando com o dedo, e chegou na água.
E a água acendeu.
O azul
Não tem como explicar direito.
De um segundo para o outro, aquele poço preto virou azul. Um azul-turquesa que vinha de dentro, brilhando, iluminando a caverna inteira por baixo.
E, quando Rafa baixou a máscara e botou a cara na água, ela viu o fundo.
Via tudo. As pedras lá embaixo, muito longe, nítidas como se ela estivesse olhando pelo ar. Os peixinhos passando devagar, cada escaminha aparecendo. A sombra do próprio corpo desenhada no fundo azul, muitos metros abaixo.
A água era tão limpa que sumia. Parecia que ela estava boiando no céu.
Rafa soltou a corda.
Ela nem percebeu na hora. Só percebeu depois de um tempo, quando levantou a cabeça para respirar e viu que estava com as duas mãos livres, no meio do poço, rodando devagar.
E não estava com medo nenhum.
O que tem no fundo
Quando saíram, de camiseta pingando, a Tati contou mais uma coisa.
— Sabe o que já tiraram lá do fundo? Osso de bicho gigante. Preguiça do tamanho de um carro, que viveu aqui há milhares de anos. Caíam por uma fenda que tem ali atrás, lá longe, e ficavam.
Rafa olhou para o buraco do teto, pequenininho, com o raio de sol ainda passando.
— Eu boiei em cima disso?
— Boiou.
Rafa ficou quieta. Achou que aquilo era a coisa mais incrível que ela já tinha ouvido.
No carro
Na volta, de cabelo molhado, encostada na janela do carro, Rafa ficou olhando as montanhas de topo reto da Chapada passando.
O irmão dormiu na primeira curva.
O pai olhou pelo retrovisor.
— E aí, filha? Gostou?
Rafa demorou para responder.
— Pai. Eu tinha medo de água funda.
Ele olhou para ela pelo espelho.
— Tinha?
— Tinha.
E ela voltou a olhar pela janela, sorrindo de um jeito que era só dela, enquanto o sol da tarde deixava tudo lá fora cor de mel.
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