O Pato que Não Gostava de Água

11 min de leituraHistorinha para dormir
O Pato que Não Gostava de Água
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No tranquilo Lago do Salgueiro, todos os patos seguiam uma rotina muito clara. Acordavam, espreguiçavam as asas, faziam uma fila indiana organizada e — tchibum! — mergulhavam na água fresca para começar o dia nadando, pescando e brincando de “quem afunda mais rápido”.

Todos, exceto Lino.

Lino era um pato diferente. Ele tinha penas brancas e macias, um bico laranja brilhante e olhos curiosos. Mas Lino tinha um segredo vergonhoso para sua espécie: ele detestava água.

Para Lino, a água era molhada demais, fria demais e instável demais. — Por que flutuar se eu posso caminhar em terra firme e segura? — dizia ele.

Enquanto os outros patinhos aprendiam a mergulhar, Lino ficava na margem. E ele não ficava de qualquer jeito. Lino era o único pato do lago (e talvez do mundo) que usava um par de galochas amarelas de borracha e carregava um pequeno guarda-chuva vermelho preso às costas, caso começasse a chover.

— Olha lá o “Pato Seco”! — zombavam os gansos, que eram conhecidos por serem antipáticos. — Cuidado, Lino, uma gota de orvalho pode te derreter!

Lino fingia não ouvir. Ele preferia passar seus dias com as galinhas no terreiro vizinho. As galinhas entendiam Lino. Elas também não gostavam de água. — Você é muito sensato, querido — cacarejava Dona Berta, uma galinha ruiva. — Terra seca é dignidade. Água é para peixes e sapos.

E assim Lino vivia, convicto de que era um “pato de terra”. Ele corria atrás de grilos, tomava banho de poeira (o que deixava sua mãe, Dona Pata, horrorizada) e bebia água do bebedouro com muita delicadeza, para não respingar no peito.

Mas o destino, como sempre, tinha outros planos. E o destino de um pato, cedo ou tarde, acaba molhado.

Era uma tarde de verão, quente e abafada. O sol brilhava forte e até as cigarras pareciam suar. Todos os animais do sítio estavam dentro do lago se refrescando. Lino, porém, estava sentado à sombra de um salgueiro, suando dentro de suas galochas amarelas, observando sua irmãzinha, Tita.

Tita era pequena, ainda com penugem de bebê, e adorava brincar. Naquele dia, ela tinha ganhado um presente especial: um barquinho feito de casca de noz com uma folha servindo de vela.

— Olha, Lino! — gritava Tita da margem. — Eu sou a Capitã Tita e vou navegar pelos sete mares!

Ela colocou o barquinho na água rasa. Lino sorriu e acenou. — Cuidado para não se molhar muito, Tita!

De repente, o tempo mudou. Aquela calmaria abafada de verão foi quebrada por uma rajada de vento repentina, típica das tempestades de fim de tarde. O vento soprou forte, curvando as taboas e levantando poeira.

E soprou o barquinho de Tita.

A casca de noz, leve como uma pena, foi empurrada para longe da margem. Tita tentou pegá-lo, mas seus pezinhos curtos tropeçaram na lama e ela caiu sentada. — Meu barco! — chorou ela. — Ele está indo para o Sumidouro!

O “Sumidouro” era o centro do lago, onde a água era escura e havia um redemoinho perto das pedras grandes. E o pior: o vento estava levando o barquinho direto para lá.

Lino olhou ao redor. Dona Pata tinha ido buscar minhocas do outro lado do sítio. Os gansos estavam dormindo longe. Não havia ninguém por perto.

Só Lino.

Ele correu até a margem. A água lambeu a borracha de suas galochas. Ele recuou, tremendo. — Eu não posso — sussurrou ele. — Eu não sei nadar. Eu sou um pato de terra.

— Você é um pato, ponto final — disse uma voz grave.

Lino olhou para baixo. Em cima de uma vitória-régia, estava Tobias, o sapo mais velho e rabugento do lago. — Tobias, faça alguma coisa! O barco vai sumir! — implorou Lino.

— Eu sou um sapo, não um rebocador — respondeu Tobias, sem se mexer. — E aquele barco é problema de pato. Você tem remos nos pés, rapaz. Use-os.

Lino olhou para seus pés. Ele não via remos. Via galochas amarelas. Tita chorava mais alto. O barquinho já estava na metade do caminho, balançando perigosamente nas ondas formadas pelo vento.

O coração de Lino batia tão forte que parecia um tambor dentro do peito. Ele olhou para a água escura. O medo dizia: “Fique aqui. É seguro”. Mas o amor pela irmã gritava: “Vá!”.

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Num impulso, Lino fez algo que nunca tinha feito antes. Ele chutou a pata direita. A galocha amarela voou longe. Ele chutou a pata esquerda. A outra galocha voou para a grama.

Ele sentiu a grama úmida e fria em seus pés palmados. Era uma sensação estranha. Ele tirou o guarda-chuva das costas e jogou no chão.

— Lino? — soluçou Tita, parando de chorar ao ver o irmão descalço.

Lino fechou os olhos, respirou fundo e… correu. Ele não parou na beira. Ele correu direto para a água.

SPLASH!

O choque térmico foi imediato. A água era fria. Lino sentiu suas penas ficarem pesadas por um segundo. Ele afundou um pouco e entrou em pânico. “Vou afundar como uma pedra!”, pensou.

Mas então, a mágica da natureza aconteceu. Suas penas, que ele passava horas alisando com óleo natural (mesmo sem saber para quê), repeliram a água. Ele subiu à superfície como uma rolha. Ele estava boiando!

— Eu… eu não afundei? — Lino disse, surpreso.

O barquinho estava longe. Lino precisava se mover. Instintivamente, suas patas debaixo da água se abriram e empurraram para trás. Seu corpo deslizou para frente com uma velocidade impressionante.

Lino arregalou os olhos. Ele tentou de novo. Esquerda, direita. Esquerda, direita. Não era difícil. Na verdade, era… fácil. Era muito mais fácil do que andar na terra com aquelas galochas pesadas. Na água, ele era leve. Ele era aerodinâmico. Ele era rápido.

— Estou indo, Tita! — gritou ele, ganhando confiança.

Ele cortava a água, sentindo o vento no rosto. A sensação de liberdade era indescritível. Por que ele teve medo disso a vida toda? Era como voar, mas sem tirar os pés do chão (ou da água).

Ele alcançou o barquinho de noz justo quando ele estava prestes a entrar no redemoinho das pedras. Com o bico, Lino agarrou a folha que servia de vela.

Agora vinha a parte difícil: voltar contra o vento. Lino fez força. Suas pernas ardiam, mas ele se sentia forte. Ele era um pato, caramba! Ele foi feito para aquilo.

Dona Pata chegou à margem correndo, tendo ouvido os gritos. Ela viu a cena mais inacreditável de sua vida: seu filho, o Lino das galochas, nadando com a força de um motor de popa, trazendo o brinquedo da irmã.

Quando Lino chegou ao raso, ele não saiu desajeitado. Ele surfou numa pequena onda até a areia. Tita correu e o abraçou (molhando-se toda, mas nem ligou). — Você salvou meu barco! Você foi incrível! Parecia um foguete!

Lino estava ofegante, pingando água, com lama nas patas. E ele estava sorrindo. Um sorriso que ia de orelha a orelha.

— Você viu, mãe? — perguntou ele. — A água… ela me segura.

Dona Pata sorriu, com lágrimas nos olhos. — A água sempre te segurou, meu filho. Você só precisava confiar nela. E em você.

O sapo Tobias coaxou da sua vitória-régia: — Nada mal para um turista de terra firme.

Lino olhou para suas galochas amarelas caídas na grama. Elas pareciam tristes e vazias. Ele foi até lá e as calçou? Não. Ele as pegou pelo cano e as colocou debaixo de uma árvore.

— Vou guardá-las — disse Lino. — Elas são ótimas para dias de tempestade na terra. Mas acho que, a partir de hoje, vou passar mais tempo sem elas.

Naquele final de tarde, quando a chuva finalmente caiu, Lino não abriu seu guarda-chuva. Ele ficou lá, no meio do lago, sentindo as gotas baterem em suas costas, nadando ao lado de Tita e Dona Pata.

Ele descobriu que a água não era inimiga. A água era seu lar. E embora ele ainda fosse o Lino, o pato que gostava de um bom banho de poeira e de conversar com galinhas, ele nunca mais foi o pato que tinha medo de ser quem ele realmente era.

E dizem as más línguas que, até hoje, se você for ao Lago do Salgueiro, verá um pato muito veloz nadando por lá. E se olhar bem para a margem, verá duas galochas amarelas plantadas com flores dentro, servindo de casa para grilos, lembrando a todos que a coragem é apenas o medo que decidiu molhar os pés.

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