O Ouriço que Queria Dar um Abraço

5 min de leituraHistorinha para dormir
O Ouriço que Queria Dar um Abraço
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Na beira da Floresta das Folhas Douradas morava um ouriço chamado Tico. Ele tinha o focinho pequenininho, os olhos escuros e brilhantes, e trezentos e quarenta e dois espinhos nas costas — ele já tinha contado, numa tarde chuvosa em que não havia nada melhor para fazer.

Tico era alegre, curioso e falava pelos cotovelos. Todos os bichos da floresta gostavam dele.

Mas Tico tinha uma tristeza guardada, e a tristeza era esta: ele nunca tinha dado um abraço.

Não que não quisesse. Ele queria muito. Era só olhar a esquilinha Fifi abraçando a mãe depois de um susto, ou os filhotes de coelho dormindo amontoados num bolo de pelo macio, e o peito de Tico ficava apertado de vontade.

O problema eram os trezentos e quarenta e dois espinhos.

— Ai! — dizia sempre alguém, se afastando depressa. — Desculpa, Tico, mas espeta.

E Tico dizia "tudo bem, tudo bem" e ria, e por dentro a tristeza ficava um pouquinho maior.

A Ideia da Almofada

Tico não era de desistir. Ele passou uma semana inteira tentando resolver o problema.

Primeiro, forrou as costas com folhas secas. Ficaram lindas, macias e cheirosas — até ele se mexer. Aí as folhas se soltaram todas e voaram, e os espinhos continuaram lá.

Depois, tentou musgo. O musgo grudou melhor, mas escorregava, e no meio do abraço com o castor Nico ele acabou espetando o coitado assim mesmo.

Por último, teve a ideia mais ambiciosa de todas: uma almofada. Tico juntou penugem de pássaro, algodão de flor e pelo de ovelha que tinha ficado preso na cerca. Fez um trouxinha grande e macia, amarrou nas costas com um cipó, e saiu pela floresta com um sorriso enorme.

— Quem quer um abraço? — anunciou.

Foi um sucesso. A tarde inteira, os bichos abraçaram Tico e sua almofada.

Mas quando a noite chegou e ele tirou a trouxinha para dormir, Tico se sentiu esquisito. Ficou olhando a almofada largada no chão e pensou:

— Eles abraçaram a almofada. Não abraçaram a mim.

E naquela noite ele dormiu com a tristeza um pouquinho maior ainda.

A Coruja da Árvore Torta

Na manhã seguinte, Tico foi procurar dona Corina, a coruja que morava na árvore torta e que, segundo diziam, tinha resposta para tudo.

Ele contou a história inteira: as folhas, o musgo, a almofada. E terminou dizendo, com a voz baixinha:

— Dona Corina, eu acho que eu nasci errado.

A coruja abriu bem os olhos amarelos e ficou olhando para ele por um tempo comprido.

— Tico — disse ela, enfim —, me responde uma coisa. Para que servem os seus espinhos?

Tico deu de ombros.

— Para atrapalhar.

— Não. Pensa direito.

Tico pensou.

— Para... me proteger?

— Isso. E quem protege os outros, também precisa de proteção?

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— Precisa — disse Tico, ainda sem entender.

Dona Corina inclinou a cabeça.

— Então talvez o seu abraço não seja com as costas, meu bem. Talvez o seu abraço seja de outro jeito. Espinho não foi feito para machucar quem você ama. Foi feito para ficar entre quem você ama e o perigo.

Tico ficou quieto. Ele não entendeu direito naquela hora — mas guardou a frase.

A Noite da Tempestade

Foi na semana seguinte que a tempestade chegou.

Veio de repente, no fim da tarde, com um vento que arrancava folhas e uma chuva que caía de lado. Os bichos correram para as tocas. Tico se enfiou debaixo de uma raiz e ficou ouvindo os trovões.

Foi então que ele escutou um choro fininho.

Era Fifi, a esquilinha, encolhida no meio da clareira. A árvore onde ela morava tinha caído com o vento, e ela estava ali, ensopada, sem ter para onde ir.

Tico saiu correndo debaixo da chuva.

— Vem! — gritou. — Vem para cá!

Mas onde? A raiz era pequena demais para os dois, e a chuva batia de lado, molhando tudo.

Foi aí que Tico entendeu.

Ele se posicionou de costas para o vento, entre Fifi e a tempestade. Depois se enrolou um pouquinho, do jeito que os ouriços fazem, deixando um espaço quentinho na frente da barriga — o único lugar do corpo dele que não tinha espinho nenhum.

— Aqui — disse ele. — Entra aqui.

Fifi se aninhou naquele espaço macio, e Tico fechou os bracinhos ao redor dela.

E os trezentos e quarenta e dois espinhos ficaram de fora, virados para a chuva e para o vento, como um telhadinho de agulhas.

Ficaram assim a noite inteira. Tico com as costas geladas e molhadas, e Fifi sequinha e quentinha no meio.

O Abraço

De manhã, a tempestade tinha ido embora e o sol entrava na clareira em raios oblíquos, fazendo tudo brilhar.

Fifi saiu do abraço devagarinho, olhou para Tico — todo encharcado, com folhas grudadas nos espinhos — e falou:

— Tico, esse foi o melhor abraço da minha vida.

Tico piscou.

— Foi... um abraço?

— Claro que foi. Você me abraçou a noite inteira.

E Tico, que tinha passado a vida achando que abraço era uma coisa que se dá com as costas, descobriu naquela manhã que sempre soube dar abraço. Ele só estava tentando dar do jeito errado.

Dali em diante, a notícia se espalhou pela floresta. E sempre que algum bichinho estava com frio, com medo ou com o coração apertado, ia procurar o ouriço Tico — porque todo mundo sabia que ele dava o abraço mais seguro de toda a Floresta das Folhas Douradas.

Ele nunca mais usou almofada nenhuma. Nem precisava.

Porque a gente não abraça com o corpo que gostaria de ter. A gente abraça com o corpo que tem — e, quando o abraço é de verdade, ele sempre acha o jeito de caber.

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