O Natal que Ficou Sem Luz

Na véspera do Natal, às nove da noite, a casa da família Ribeiro estava no auge.
O peru estava no forno elétrico havia três horas e cheirava a coisa boa por toda a casa. A tia Rose tinha chegado com a farofa. O tio Cláudio estava discutindo com o cunhado sobre futebol, que é uma coisa que se discute em todo Natal da família Ribeiro. A caixinha de som tocava música. Tinha quatro crianças correndo pelo corredor de casa.
E Duda, que tinha oito anos, estava no quarto, contando os minutos para a meia-noite.
Foi quando aconteceu.
Póc.
O escuro
Apagou tudo.
A música parou no meio. A luz da cozinha, a luz da sala, a luz do corredor. Tudo.
O silêncio durou mais ou menos um segundo.
Depois começou o barulho.
— Ai!
— Quem tá me pisando?
— NÃO ABRE A GELADEIRA!
— Cadê meu celular?
Duda saiu do quarto, tateando na parede, e chegou na sala.
Pela janela, dava para ver que não era só o apartamento deles. O prédio inteiro estava apagado. O prédio da frente também. A rua também.
Só as luzinhas de Natal da casa lá da esquina, que funcionavam com bateria, continuavam piscando, sozinhas, no meio do escuro todo.
A pior notícia
A mãe da Duda foi a primeira a lembrar.
— O peru.
Todo mundo ficou paralisado.
O tio Cláudio abriu o forno com o celular ligado na lanterna.
O peru estava lá. Bonito. Dourado por cima.
E cru por dentro.
— Ele precisava de mais uma hora e meia — disse a mãe, com uma voz que era quase um sussurro. — Uma hora e meia.
E aí veio a segunda tragédia:
— Gente. O sorvete.
A hora do desespero
Nos primeiros vinte minutos, foi um caos.
A tia Rose ligou para a companhia de energia e ficou na espera, ouvindo aquela musiquinha, com o celular no ouvido e cara de poucos amigos.
O tio Cláudio decidiu que ia consertar sozinho e foi mexer no quadro de luz do corredor com uma lanterna na boca, até a mãe da Duda mandar ele parar na hora.
O primo mais velho descobriu que a bateria do celular dele estava em oito por cento e entrou em pânico.
E a avó, a Dona Lourdes, sentou na poltrona dela e não falou nada.
Duda sentou no chão do lado da poltrona.
— Vó. O Natal acabou?
A Dona Lourdes deu uma risadinha no escuro.
— Menina, eu passei metade da minha infância sem luz elétrica. Vai buscar as velas.
As velas
Ninguém sabia onde estavam as velas.
Procuraram na gaveta da cozinha, no armário do corredor, na caixa de ferramentas. Acharam no lugar mais óbvio possível: na gaveta de bagunça, embaixo de dois carregadores velhos e um manual de liquidificador.
Eram sete velas brancas e uma vermelha, de aniversário.
A Dona Lourdes mandou acender e espalhar: duas na mesa, uma no aparador, uma na cozinha, uma no corredor.
E, de repente, a casa ficou bonita.
Foi isso mesmo que a Duda pensou. A casa ficou bonita. Aquela luz amarelinha mexendo nas paredes, as sombras de todo mundo enormes no teto, os rostos iluminados de baixo para cima.
A porta aberta
Aí bateram na porta.
Era o Seu Jorge, do 402, com uma lanterna.
— Boa noite! Vocês estão bem? Lá em casa também apagou.
Atrás dele apareceu a Dona Íris, do 401, que morava sozinha.
— A minha ceia tava no micro-ondas — ela disse. — Ficou na metade.
O tio Cláudio abriu a porta inteira.
— Entra, entra. Tá todo mundo no mesmo barco. Tem peru cru pra todo mundo.
E todo mundo riu.
A festa do corredor
O que aconteceu depois ninguém planejou.
Alguém levou mais uma vela para o corredor. Alguém levou uma cadeira. A Dona Íris voltou com a metade da ceia dela numa travessa. O Seu Jorge desceu os quatro andares no escuro até o mercadinho da esquina, que tinha gerador, e voltou com um isopor cheio de gelo. O sorvete foi salvo no último minuto.
Em meia hora, o corredor do quarto andar estava cheio de gente sentada no chão e nos degraus da escada, com vela apoiada em pires, comendo farofa direto da travessa.
Desceu gente do quinto. Subiu gente do terceiro.
Duda contou dezenove pessoas.
Dezenove pessoas que moravam no mesmo prédio e que, na maior parte do ano, só se falavam no elevador, e olhe lá.
O violão
Foi aí que alguém lembrou que a Dona Íris tocava violão.
Ela fez cerimônia, disse que não tocava havia anos, que os dedos não obedeciam mais. Todo mundo insistiu.
Ela foi buscar o violão.
E tocou.
Tocou umas músicas antigas que os adultos sabiam de cor e as crianças não conheciam. Depois tocou "Noite Feliz", e aí todo mundo sabia.
Dezenove pessoas cantando "Noite Feliz" num corredor de prédio, à luz de vela, na véspera do Natal, com um peru cru esfriando na cozinha.
Duda ficou sentada no degrau, encostada no joelho da avó, e não cantou. Só ficou olhando tudo aquilo e sentindo uma coisa estranha e boa no peito.
A luz
A energia voltou às onze e quarenta.
De uma vez, tudo acendeu junto: a luz do corredor, o rádio de alguém, a música, as lâmpadas do teto.
E aconteceu uma coisa que a Duda achou muito engraçada.
Todo mundo fez "oooooh".
Mas não foi um "oooooh" de alegria. Foi um "oooooh" de decepção. Como quem estava gostando e foi interrompido.
Ficou todo mundo parado ali no corredor iluminado, meio piscando, meio sem graça, segurando prato.
— Bom… — disse o Seu Jorge. — Acho que dá pra assar o peru agora.
A meia-noite
A meia-noite pegou todo mundo ainda no corredor, de prato na mão. Alguém gritou "Feliz Natal!" e virou um abraço só, que demorou uns bons cinco minutos para acabar.
O peru ficou pronto à uma e vinte da manhã.
Ninguém mais estava com fome, mas todo mundo comeu assim mesmo, porque é Natal.
E, na hora de dormir, já quase de madrugada, a Duda estava deitada no colchão da sala, ouvindo os adultos conversarem baixinho na cozinha.
Ela pensou no corredor cheio de vela. Nas dezenove pessoas. Na Dona Íris tocando violão.
E entendeu uma coisa que ela não conseguiria explicar direito se alguém perguntasse.
No ano seguinte
No Natal do ano seguinte não faltou luz nenhuma.
Mas, lá pelas dez da noite, alguém bateu na porta.
Era o Seu Jorge, do 402, com uma caixa de velas na mão e um sorriso de quem já sabe o que vai dizer.
— E aí, pessoal. Que tal a gente apagar tudo por uma horinha?
E foi o que eles fizeram.
Todo ano, desde então.
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