O Lado Frio do Travesseiro

3 min de leituraHistorinha para dormir
O Lado Frio do Travesseiro
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O Enzo tinha seis anos e uma noite difícil pela frente.

Era uma noite de verão, daquelas em que o ar parece parado e o calor não vai embora nem de madrugada.

Ele já estava de pijama, com a cama arrumada e o abajur aceso.

Mas não conseguia dormir.

O calor

O Enzo virou para a direita.

Estava quente.

Virou para a esquerda.

Estava quente também.

Tirou o cobertor. Colocou de volta. Tirou de novo.

Colocou o pé para fora da cama, para ver se o ar ajudava.

Nada.

O travesseiro estava quente, a cama estava quente, e o quarto parecia um forno.

A mãe

A mãe percebeu o barulho e entrou no quarto.

— Está difícil, filho?

— Está muito quente. Eu não consigo dormir.

A mãe sentou na beirada da cama e passou a mão na testa dele.

— Quer um segredo que ajuda muito?

O Enzo levantou a cabeça, com curiosidade.

— Quero.

O segredo

A mãe pegou o travesseiro, virou ao contrário e colocou de volta.

— Agora deita.

O Enzo deitou.

E abriu os olhos, surpreso.

— Está gelado!

A mãe sorriu.

— O lado de cá estava debaixo, e não esquentou. O outro lado ficou grudado na sua cabeça, e esquentou.

O Enzo encostou o rosto no travesseiro.

Era uma sensação boa, fresquinha, como entrar num rio.

A explicação

— Mas por quê? — perguntou ele.

— Quando a gente deita, o corpo fica quente, e o calor passa para o travesseiro. Onde a cabeça ficou, ele vai esquentando aos poucos. Do outro lado, o travesseiro continua na temperatura do quarto, que é mais fresca que a gente.

— Então o travesseiro guarda o calor?

— Guarda um pouquinho. E esse calor vai embora devagar, mas, quando a gente vira, encontra um lado novo.

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O Enzo pensou.

— É igual a virar o pão na frigideira.

A mãe riu.

— Mais ou menos. Só que ao contrário: aqui a gente vira para esfriar.

O ventinho

A mãe foi até a janela e abriu uma fresta.

Entrou um ventinho leve, que mexeu a cortina.

Lá fora, os grilos cantavam, e a lua estava redonda, cor de leite, no céu.

— Veja só — disse a mãe. — Agora, com o ventinho, o quarto vai esfriando.

O Enzo olhou para a lua, depois para o travesseiro.

Tinha um lado frio, e um ventinho, e uma mãe ali, sentada.

Era bem melhor do que dez minutos antes.

A sequência

— Se esquentar de novo, o que eu faço?

— Vira o travesseiro outra vez.

— E se esquentar de novo?

— Vira de novo. Ou muda de posição, ou põe o pé para fora do cobertor. A gente sempre encontra um pedacinho fresco, é só procurar.

O Enzo sorriu, com o rosto colado no travesseiro.

— Eu gosto desse segredo.

— Eu também.

O fim da noite

A mãe apagou o abajur.

A luz da lua ficou sozinha no quarto, prateada, entrando pela janela.

— Boa noite, Enzo.

— Boa noite, mãe.

— Dorme bem.

Ela deu um beijo na testa dele, e saiu do quarto, devagar.

O Enzo ficou ali, de olhos fechados.

Sentiu o travesseiro fresquinho, o vento nas cortinas, o cheiro de noite de verão.

E, quando o lado esquentou, nem percebeu.

Já estava dormindo.

De verdade

O travesseiro não guarda o calor para sempre, mas ele esquenta mesmo, porque o nosso corpo está mais quente que o ar do quarto. O calor vai passando da cabeça para o travesseiro, e o lado que fica embaixo continua mais fresco.

Por isso virar o travesseiro dá aquela sensação boa.

Da próxima vez que estiver com calor para dormir, é só tentar.

Mas, se estiver muito calor mesmo, pode também abrir uma fresta na janela, usar um lençol mais leve e tomar um pouco de água.

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