O Lado Frio do Travesseiro

O Enzo tinha seis anos e uma noite difícil pela frente.
Era uma noite de verão, daquelas em que o ar parece parado e o calor não vai embora nem de madrugada.
Ele já estava de pijama, com a cama arrumada e o abajur aceso.
Mas não conseguia dormir.
O calor
O Enzo virou para a direita.
Estava quente.
Virou para a esquerda.
Estava quente também.
Tirou o cobertor. Colocou de volta. Tirou de novo.
Colocou o pé para fora da cama, para ver se o ar ajudava.
Nada.
O travesseiro estava quente, a cama estava quente, e o quarto parecia um forno.
A mãe
A mãe percebeu o barulho e entrou no quarto.
— Está difícil, filho?
— Está muito quente. Eu não consigo dormir.
A mãe sentou na beirada da cama e passou a mão na testa dele.
— Quer um segredo que ajuda muito?
O Enzo levantou a cabeça, com curiosidade.
— Quero.
O segredo
A mãe pegou o travesseiro, virou ao contrário e colocou de volta.
— Agora deita.
O Enzo deitou.
E abriu os olhos, surpreso.
— Está gelado!
A mãe sorriu.
— O lado de cá estava debaixo, e não esquentou. O outro lado ficou grudado na sua cabeça, e esquentou.
O Enzo encostou o rosto no travesseiro.
Era uma sensação boa, fresquinha, como entrar num rio.
A explicação
— Mas por quê? — perguntou ele.
— Quando a gente deita, o corpo fica quente, e o calor passa para o travesseiro. Onde a cabeça ficou, ele vai esquentando aos poucos. Do outro lado, o travesseiro continua na temperatura do quarto, que é mais fresca que a gente.
— Então o travesseiro guarda o calor?
— Guarda um pouquinho. E esse calor vai embora devagar, mas, quando a gente vira, encontra um lado novo.
O Enzo pensou.
— É igual a virar o pão na frigideira.
A mãe riu.
— Mais ou menos. Só que ao contrário: aqui a gente vira para esfriar.
O ventinho
A mãe foi até a janela e abriu uma fresta.
Entrou um ventinho leve, que mexeu a cortina.
Lá fora, os grilos cantavam, e a lua estava redonda, cor de leite, no céu.
— Veja só — disse a mãe. — Agora, com o ventinho, o quarto vai esfriando.
O Enzo olhou para a lua, depois para o travesseiro.
Tinha um lado frio, e um ventinho, e uma mãe ali, sentada.
Era bem melhor do que dez minutos antes.
A sequência
— Se esquentar de novo, o que eu faço?
— Vira o travesseiro outra vez.
— E se esquentar de novo?
— Vira de novo. Ou muda de posição, ou põe o pé para fora do cobertor. A gente sempre encontra um pedacinho fresco, é só procurar.
O Enzo sorriu, com o rosto colado no travesseiro.
— Eu gosto desse segredo.
— Eu também.
O fim da noite
A mãe apagou o abajur.
A luz da lua ficou sozinha no quarto, prateada, entrando pela janela.
— Boa noite, Enzo.
— Boa noite, mãe.
— Dorme bem.
Ela deu um beijo na testa dele, e saiu do quarto, devagar.
O Enzo ficou ali, de olhos fechados.
Sentiu o travesseiro fresquinho, o vento nas cortinas, o cheiro de noite de verão.
E, quando o lado esquentou, nem percebeu.
Já estava dormindo.
De verdade
O travesseiro não guarda o calor para sempre, mas ele esquenta mesmo, porque o nosso corpo está mais quente que o ar do quarto. O calor vai passando da cabeça para o travesseiro, e o lado que fica embaixo continua mais fresco.
Por isso virar o travesseiro dá aquela sensação boa.
Da próxima vez que estiver com calor para dormir, é só tentar.
Mas, se estiver muito calor mesmo, pode também abrir uma fresta na janela, usar um lençol mais leve e tomar um pouco de água.
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