O Gato de Botas

Há muito tempo, na França, vivia um moleiro que tinha um moinho, um burro e um gato.
Ele tinha também três filhos.
Quando o moleiro ficou doente e soube que não ia durar muito, chamou os três e dividiu o que tinha.
O filho mais velho ficou com o moinho.
O do meio ficou com o burro.
E o mais novo ficou só com o gato.
O filho mais novo
O rapaz olhou para o gato e suspirou.
— Meus irmãos podem trabalhar juntos e ganhar a vida. Eu, o que faço com um gato? Posso até cozinhá-lo e usar a pele para fazer um agasalho, mas aí fico de novo sem nada.
O gato ouviu tudo.
Ele sentou na frente do rapaz, muito sério, e falou:
— Meu senhor, não se preocupe. Me dê uma bolsa e um par de botas para andar no mato, e o senhor vai ver que não ficou com a pior parte.
O rapaz levou um susto, porque nunca tinha visto um gato falar.
Mas já tinha visto esse gato caçar ratos com muita esperteza, e resolveu confiar.
Deu a bolsa. Arranjou as botas.
O gato calçou, pôs a bolsa nas costas e saiu andando, de cabeça erguida.
O coelho
O gato foi até um lugar onde havia muitos coelhos.
Ele colocou farelo e uma folha de couve dentro da bolsa, deitou-se no chão como se estivesse morto e esperou.
Não demorou, um coelho, desses que ainda não sabem das armadilhas do mundo, entrou na bolsa para pegar a comida.
O gato fechou a bolsa. E levou o coelho direto para o palácio do rei.
— Majestade — disse ele, com uma reverência —, meu senhor, o Marquês de Carabás, manda este coelho de presente.
O gato tinha inventado aquele nome na hora.
O rei, que gostava muito de coelho, ficou contente e agradeceu.
Os presentes
Nos meses seguintes, o gato fez a mesma coisa várias vezes.
Pegava perdizes, levava ao palácio e dizia que eram presentes do tal Marquês de Carabás.
O rei foi gostando cada vez mais daquele marquês que ele nunca tinha visto.
E o rapaz, em casa, só sabia que o gato vivia ocupado e que, de vez em quando, voltava com algumas moedas.
O banho no rio
Um dia, o gato soube que o rei ia passear de carruagem com a filha, a princesa, pela beira do rio.
Ele correu para o rapaz.
— Se o senhor quiser seguir meu conselho, sua sorte está feita. Vá tomar banho no rio, no lugar que eu mostrar. Depois deixe o resto comigo.
O rapaz achou esquisito, mas fez o que o gato mandou.
Enquanto ele nadava, o gato escondeu debaixo de uma pedra as roupas dele.
Quando a carruagem do rei passou, o gato saiu correndo pela estrada, gritando:
— Socorro! Socorro! Meu senhor, o Marquês de Carabás, está se afogando! Uns ladrões levaram as roupas dele!
O rei reconheceu o gato dos presentes e mandou que levassem ao rio roupas finas, as melhores do palácio.
O marquês
O rapaz vestiu as roupas.
Ficou tão elegante que a princesa, quando o viu, achou que ele tinha um jeito muito bonito.
O rei convidou o rapaz para subir na carruagem e passear com os dois.
O gato ficou contente. O plano estava indo bem.
Mas faltava uma coisa: o rapaz não tinha nenhuma terra, nem castelo, nem nada que um marquês de verdade deveria ter.
O gato correu na frente da carruagem.
Os campos
No caminho, ele encontrou camponeses que estavam colhendo trigo e disse:
— Gente boa, quando o rei passar e perguntar de quem são estes campos, respondam que são do Marquês de Carabás. Se não responderem isso, vão ter problemas.
Os camponeses, que tinham medo de gato falante, concordaram.
Quando o rei passou e perguntou, eles responderam:
— São do Marquês de Carabás, majestade.
— Que belas terras! — disse o rei ao rapaz.
O rapaz ficou calado, sem entender nada.
O castelo
Mais adiante, o gato chegou a um castelo enorme.
Quem morava ali era um ogro, grande, mal-humorado, dono de todos aqueles campos.
O gato pediu licença para entrar, fez uma reverência e disse:
— Disseram-me que o senhor sabe se transformar em qualquer animal. Mas isso é verdade?
O ogro se orgulhou e, num instante, virou um leão.
O gato levou um susto, pulou para cima de uma prateleira e se agarrou nas botas, de tanto medo.
Quando o ogro voltou à forma de antes, riu muito.
— Agora quero ver o senhor virar um bichinho bem pequeno, como um rato. Isso eu acho que não consegue.
— Consigo, sim! — respondeu o ogro, ofendido.
E, num instante, virou um ratinho.
O gato deu um pulo e agarrou o ratinho.
Dizem que, dali em diante, o ogro nunca mais foi visto.
A festa
Naquela hora, a carruagem do rei chegou ao castelo.
O gato foi até a porta, com todo o cuidado, e disse:
— Majestade, seja bem-vindo ao castelo do meu senhor, o Marquês de Carabás!
O rei olhou para tudo, para o jardim, para as torres, para o salão, e ficou admirado.
— Senhor Marquês, sua casa é ainda mais bonita do que as terras!
O rapaz, que ainda não tinha entendido bem como aquilo tudo tinha acontecido, só conseguiu dar a mão à princesa e entrar.
Tinha uma mesa preparada com um banquete, que o ogro esperava para os amigos dele.
Todos comeram juntos.
O fim
O rei ficou tão encantado com o Marquês que, depois de alguns dias, disse:
— Senhor Marquês, a minha filha gostou muito de você. Quer ser meu genro?
O rapaz aceitou, e casou-se com a princesa.
Mas, antes do casamento, ele chamou o rei num canto e contou toda a verdade: que o gato tinha inventado o nome, e que o castelo e as terras eram de um ogro.
O rei ouviu até o fim, e riu.
— Um rapaz que tem um amigo assim, que faz tanto por ele, só pode ser boa gente.
E o gato?
O gato virou um grande senhor, com botas novas, que passava o dia tomando leite quente ao lado da lareira.
Dizem que só corria atrás de ratos quando tinha vontade.
Este conto foi escrito pelo francês Charles Perrault e publicado em 1697. No conto original, o gato engana todo mundo e o ogro é comido por ele, e o rapaz nunca conta a verdade ao rei. Aqui, a parte em que o rapaz confessa ao rei foi inventada para esta versão, e o fim do ogro foi suavizado para a hora de dormir.
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