O Galo que Esquecia de Cantar

10 min de leituraHistorinha para dormir
O Galo que Esquecia de Cantar
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No Sítio Raio de Sol, a vida seguia um ritmo muito preciso, e o maestro dessa orquestra era Gilberto. Gilberto não era um galo comum. Ele tinha uma crista vermelha que brilhava como um morango maduro, penas da cauda que reluziam em tons de verde e azul petróleo, e um peito estufado de quem sabia exatamente o seu valor.

Gilberto acreditava piamente numa coisa: o Sol só nascia porque ele cantava.

Todas as manhãs, exatamente às cinco horas, Gilberto subia na cerca de madeira velha, limpava a garganta com um pigarro elegante, esticava o pescoço e soltava um sonoro, vibrante e impecável: — CO-CO-RO-CÓÓÓÓ!

Imediatamente, o céu passava de roxo para laranja, as galinhas desciam dos poleiros, as vacas começavam a mugir pedindo ordenha e o Seu Joaquim, o dono do sítio, acendia a luz da cozinha para passar o café.

Até que chegou a fatídica “Terça-Feira do Silêncio”.

Naquela manhã, o ar estava frio e úmido. Gilberto subiu na cerca como sempre. Ele sentiu o orvalho nas patas. Ele viu a primeira fresta de luz no horizonte. Ele encheu os pulmões de ar, preparou o bico e…

— Hic!

Saiu um soluço. Gilberto arregalou os olhos. Ele tentou de novo, com mais força. — Coooo… cof, cof!

Nada. Nem uma nota musical. Apenas um som rouco, parecido com o de uma porta velha rangendo. Gilberto entrou em pânico. Ele tentou gritar, conversar, sussurrar. Mas sua voz tinha sumido completamente.

O pior aconteceu em seguida: o Sol nasceu. Sem ele.

O disco dourado subiu no céu, indiferente ao drama do galo. As galinhas acordaram sozinhas. Seu Joaquim acordou atrasado, correndo de ceroulas pelo quintal porque o despertador natural tinha falhado.

Gilberto desceu da cerca, humilhado. Ele se escondeu atrás do trator, com a cabeça baixa. — Minha carreira acabou — pensou ele. — Um galo sem canto é como um peixe sem água. Sou apenas um espanador de pó com penas chiques.

Foi Dona Cota, a galinha mais velha e sábia do galinheiro, quem o encontrou. — Gilberto? Por que você está escondido aí com essa cara de quem comeu minhoca azeda?

Gilberto abriu o bico para explicar, mas só saiu um sopro de ar. Ele apontou para a garganta e fez um gesto dramático de negação.

— Oh! — exclamou Dona Cota. — Você perdeu a voz? Isso é grave. Mas não se preocupe, querido. O sítio inteiro vai ajudar. Talvez você só tenha esquecido onde a colocou.

E assim começou a Operação Resgate do Canto.

A primeira parada foi no chiqueiro. Tonico, o porco, estava tomando seu café da manhã (que era basicamente tudo o que sobrava do almoço de ontem). — Tonico! — chamou Dona Cota. — O Gilberto esqueceu como se canta. Você pode ensinar o seu som para ele? Talvez ajude a destravar a garganta.

Tonico limpou o focinho sujo de lama. — Claro! É muito técnico. Você tem que puxar o ar pelo nariz e soltar pela garganta fazendo um som de ronco. Assim: OINC!

Gilberto tentou. Ele puxou o ar e fez força. — Fwiuuu… — saiu um som de apito murcho.

— Não, não — disse Tonico. — Falta paixão pela lama. Tente se sujar um pouco.

Gilberto, que detestava sujeira, recusou educadamente com a cabeça.

Eles seguiram para o pasto. Lá estava Jeremias, o burro. Ele era conhecido por ter o som mais alto do sítio. — Jeremias, precisamos de volume! — explicou Dona Cota.

Jeremias mastigou um capim calmamente. — O segredo, meu caro galo, é a melancolia. Você tem que pensar em algo triste, como quando a cenoura acaba. E aí você solta: I-ÓÓÓÓ!

Gilberto tentou imitar. Ele pensou que nunca mais cantaria. A tristeza era real. Ele abriu o bico. — Méééé… — saiu um som que parecia uma cabra resfriada.

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Jeremias balançou as orelhas compridas. — É… falta drama. Você é muito contido.

A manhã foi passando e a frustração de Gilberto só aumentava. Ele tentou grasnar com os patos (e quase se afogou na lagoa), tentou piar com os pintinhos (e pareceu ridículo por ser tão grande) e até tentou latir com o cachorro Rex (o que fez o gato subir na árvore de susto, mas não de respeito).

Ao meio-dia, Gilberto estava exausto. Ele sentou-se na varanda da casa, olhando para o horizonte. Ele sentia que tinha falhado com o sítio, com o Sol e consigo mesmo.

Foi então que um pequeno passarinho, um Canário-da-Terra amarelo e vibrante, pousou no corrimão da varanda. O passarinho olhou para Gilberto e começou a cantar uma melodia complexa, cheia de trinados e assobios rápidos.

Gilberto olhou com inveja. Como algo tão pequeno podia ter uma voz tão grande?

O canário parou e inclinou a cabeça. — Você está tentando muito, grandão — disse o passarinho.

Gilberto arregalou os olhos. O passarinho falava a língua dos galos? O canário continuou: — Eu vi você tentando fazer Oinc, I-ó e Au-au. Mas você não é um porco, nem um burro, nem um cachorro. Você é um galo.

Gilberto suspirou (sem som). Ele sabia disso. Mas o som não saía!

— Por que você canta, Gilberto? — perguntou o canário.

Gilberto pensou. “Para fazer o sol nascer”, ele queria dizer. Mas, lá no fundo, ele sabia que isso não era verdade. O Sol tinha nascido sem ele hoje. O mundo não tinha parado.

Ele fechou os olhos e pensou de verdade. Por que ele cantava? Ele não cantava por obrigação. Ele cantava porque, quando a luz da manhã tocava suas penas, ele sentia uma alegria tão grande, uma energia tão forte subindo de seus pés até a cabeça, que se ele não cantasse, ele explodiria. O canto não era um trabalho. Era um agradecimento. Era pura felicidade.

Gilberto sentiu seu coração bater mais rápido. Ele não precisava imitar o barulho forte do burro ou o som nasal do pato. Ele precisava apenas deixar a alegria sair.

— Tente agora — sussurrou o canário. — Não pense no som. Pense na luz.

Gilberto relaxou os ombros (ou melhor, as asas). Ele visualizou o sol dourado. Sentiu o cheiro do café de Seu Joaquim. Lembrou-se do carinho de Dona Cota.

Ele encheu o peito. Não com ar, mas com sentimento. Ele abriu o bico.

— CO… — a voz falhou um pouco, mas ele não parou. Ele insistiu na alegria. — CO-CO-RO-CÓÓÓÓÓÓ!

O som saiu. Não foi o canto perfeito e polido de sempre. Foi um canto meio rouco, meio desafinado no final, mas foi o canto mais alto e verdadeiro que o Sítio Raio de Sol já tinha ouvido.

Dona Cota veio correndo, batendo as asas. Tonico acordou no chiqueiro. Jeremias soltou um “I-ó” de aprovação. Até Seu Joaquim apareceu na janela e gritou: — É isso aí, Gilberto! Achei que ia virar canja, rapaz! Que bom que melhorou!

Gilberto corou (sua crista ficou ainda mais vermelha), mas estufou o peito.

Naquela noite, Gilberto foi dormir cedo. Ele aprendeu uma lição valiosa. Ele não era responsável por fazer o sol nascer — o sol sabia o que fazer. Ele era responsável por celebrar o novo dia com sua própria voz.

Na manhã seguinte, quando a primeira luz violeta pintou o céu, Gilberto não estava ansioso. Ele não estava preocupado em ser perfeito. Ele subiu na cerca, olhou para seus amigos dormindo e cantou.

— CO-CO-RO-CÓÓÓ!

E, embora o Sol tivesse nascido de qualquer jeito, todos no sítio concordaram que o dia parecia muito mais brilhante quando começava com a voz do amigo Gilberto.

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