O Filho que Voltou para Casa

Jesus gostava de contar histórias.
Um dia, quando as pessoas se reuniam em volta dele, ele começou assim: havia um homem que tinha dois filhos.
E todo mundo ficava quieto, porque sabia que vinha uma história que ia fazer pensar.
Esta é uma delas.
Os dois irmãos
O homem era rico.
Tinha terras, rebanhos, empregados e uma casa grande. E tinha dois filhos.
O mais velho trabalhava com o pai todo dia, cuidando da fazenda, sem reclamar.
O mais novo era diferente. Era alegre, falante, cheio de planos, e vivia olhando para longe, como quem sente que a vida de verdade acontece em outro lugar.
Um dia, ele foi falar com o pai.
— Pai, eu quero a minha parte da herança. Agora.
O pedido
Era um pedido muito duro.
Normalmente, o filho só recebia a herança depois que o pai morria. Pedir antes era mostrar que não queria esperar.
O pai ficou calado por um tempo.
Ele podia ter dito não. Podia ter ficado furioso. Podia ter mandado o filho trabalhar e esquecer essa ideia.
Mas não fez nada disso.
Ele dividiu os bens e entregou ao filho mais novo a parte que era dele.
A partida
Poucos dias depois, o filho juntou tudo o que tinha, vendeu o que podia vender e partiu para um país distante.
O pai ficou olhando o filho ir embora, até ele virar um pontinho na estrada e sumir.
Depois entrou, em silêncio.
E, todo fim de tarde, durante muito tempo, ele voltava a ficar parado na mesma porta, olhando a estrada.
O país distante
O filho chegou numa cidade grande e animada.
Tinha dinheiro, e logo apareceram amigos. Muitos amigos. Eles faziam festas, comiam bem, riam alto, passeavam.
E, enquanto durou o dinheiro, aquele filho achou que tinha conseguido tudo o que queria.
Mas as moedas foram acabando.
E, quando acabaram de vez, os amigos sumiram.
A fome
Veio uma seca na terra.
Faltou comida, e o preço de tudo subiu. O jovem, que não tinha mais nem uma moeda, passou a sentir fome de verdade.
Ele precisava trabalhar. Arranjou um serviço com um homem da cidade, que o mandou cuidar de porcos.
Para um judeu daquele tempo, era um dos trabalhos mais humilhantes.
E, mesmo assim, ele passava tanta fome que olhava para a comida dos porcos, as vagens que eles comiam, e sentia vontade de comer também.
Ninguém lhe dava nada.
O momento da verdade
Foi numa tarde, sentado no chão, no meio do chiqueiro, que ele parou para pensar.
Pensou na casa do pai.
Pensou nos empregados de lá, que tinham comida de sobra, pão quente e cama limpa.
E disse para si mesmo, em voz baixa:
— Os empregados do meu pai comem melhor do que eu. E eu estou aqui, com tanta fome.
Ele ficou um tempo em silêncio.
Depois decidiu.
— Vou voltar para o meu pai. E vou dizer: pai, eu errei. Não mereço ser chamado de filho. Me aceita como um dos seus empregados.
Levantou, sacudiu a poeira da roupa e começou a caminhar.
A estrada
A volta foi longa.
Ele andou dias, descalço, magro, com a roupa suja e esfarrapada, ensaiando o que ia dizer.
Pai, eu errei. Pai, eu errei.
Repetia isso a cada passo, para não esquecer.
Ele não sabia se o pai ia abrir a porta. Não sabia se o irmão ia olhar para ele. Não sabia se ia ser mandado embora.
Sabia só que não tinha outro lugar para ir.
O pai na porta
E aqui a história muda.
O pai estava na porta de casa, como estava todo fim de tarde, olhando a estrada.
E, lá longe, no fim do caminho, viu um vulto.
Magro. Cabisbaixo. Andando devagar.
Ele não precisou ver o rosto.
Reconheceu pelo jeito de andar.
E fez uma coisa que um senhor respeitado daquele tempo costumava não fazer: levantou a barra da túnica e saiu correndo.
O abraço
O pai correu pela estrada, de braços abertos, e abraçou o filho.
Abraçou com tanta força que quase o derrubou.
E o filho, que tinha passado a viagem inteira ensaiando um discurso, começou a falar, chorando:
— Pai, eu errei contra o céu e contra o senhor. Não mereço ser chamado de seu filho…
O pai nem deixou ele terminar.
Virou para os empregados, que tinham vindo atrás dele, e deu ordens, uma atrás da outra:
— Tragam a melhor túnica! Coloquem um anel no dedo dele! Calcem sandálias nos pés! E matem o bezerro gordo, porque vamos fazer uma festa!
O motivo da festa
— Porque este meu filho estava morto e voltou a viver. Estava perdido e foi achado.
E a festa começou.
Tinha música, comida e dança. Os empregados riam, os vizinhos chegavam, alguém tocava flauta.
O filho mais novo estava sentado à mesa, de roupa limpa, com um anel no dedo, sem acreditar.
Ele tinha pedido para ser tratado como empregado.
E tinha voltado a ser filho.
O irmão mais velho
Mas havia uma pessoa que não estava na festa.
O irmão mais velho estava no campo, trabalhando, como sempre.
Quando voltou para casa, no fim do dia, ouviu a música de longe, e perguntou a um empregado o que estava acontecendo.
— O seu irmão voltou. O seu pai matou o bezerro gordo, porque ele chegou são e salvo.
O irmão mais velho ficou parado.
Sentiu uma raiva que não conseguia esconder.
Não quis entrar.
O pai saiu de novo
O pai, ao ver que o filho mais velho não entrava, saiu para falar com ele.
— Por que você não vem?
— Pai, eu trabalho para o senhor há tantos anos. Nunca desobedeci. E o senhor nunca me deu nem um cabrito para fazer uma festa com meus amigos. E agora esse seu filho, que gastou tudo, volta, e o senhor mata o bezerro gordo?
O pai ouviu tudo, sem interromper.
Depois disse, com carinho:
— Meu filho, você está sempre comigo. Tudo o que é meu é seu. Mas a gente precisava fazer uma festa, porque o seu irmão estava morto e voltou a viver. Estava perdido e foi achado.
O fim aberto
A história de Jesus termina aqui.
Ele não conta se o irmão mais velho entrou na festa ou ficou do lado de fora.
Ele deixa a pergunta no ar, para quem estava ouvindo decidir.
E é isso que faz essa história ficar na cabeça da gente.
Porque dá para se ver nos dois irmãos: no que errou e voltou, com medo de não ser aceito, e no que sempre ficou, e sentiu que ninguém reparou.
E no pai, que ficou olhando a estrada.
Esta história está na Bíblia, no Evangelho de Lucas, capítulo 15. Jesus a contou como uma parábola, que é uma história inventada para ensinar uma lição. Alguns detalhes, como o pai esperando na porta, os amigos e a flauta, foram imaginados para contar a história.
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