O Dinossauro que Tinha Medo do Escuro

No tempo em que a Terra era coberta de samambaias gigantes e o céu ficava cor de abóbora ao entardecer, vivia um filhote de dinossauro chamado Dodô. Ele era um braquiossauro de pescoço comprido, pele verde-clarinha e olhos grandes como duas jabuticabas. Dodô era o filhote mais alto de todo o Vale das Samambaias — conseguia alcançar as folhas mais altas das árvores sem nem ficar na ponta das patas.
Mas Dodô guardava um segredo que o deixava envergonhado: ele tinha medo do escuro.
Todas as noites era a mesma coisa. Quando o sol se escondia atrás das montanhas e o vale ia ficando cinzento, o coração de Dodô começava a bater mais rápido. Ele enfiava a cabeça debaixo da asa da mamãe pterossauro que morava ali perto, ou fechava os olhos com força e contava até cem, esperando o dia voltar.
— Um dinossauro tão grande e com medo de uma coisa tão pequena — suspirava ele. — Que vergonha.
A Noite da Lua Escondida
Certa noite, aconteceu uma coisa diferente. As nuvens vieram devagarinho e cobriram a lua inteira, como um cobertor cinzento. O vale ficou mais escuro do que Dodô jamais tinha visto. Nem uma estrelinha aparecia.
Dodô estava tremendo no seu cantinho quando ouviu um som fininho vindo lá de baixo:
— Socorro... alguém me ajuda?
Ele esticou o pescoço comprido e escutou com atenção. O som vinha do fundo do vale, perto do Riacho das Pedras Lisas. E Dodô reconheceu a voz na hora: era Pipa, a filhotinha de triceratops que brincava com ele todas as tardes.
O coração de Dodô apertou. Pipa estava lá embaixo, no escuro, sozinha.
Ele olhou para a escuridão à sua frente. Era espessa como tinta. Não dava para ver nem as próprias patas.
— Eu não consigo — sussurrou. — Está escuro demais.
Mas então ele ouviu de novo:
— Alguém me escuta? Estou com medo...
E Dodô entendeu uma coisa: se ele estava com medo ali, seguro no seu cantinho, imagina como Pipa devia estar se sentindo, sozinha lá embaixo.
Um Passo de Cada Vez
Dodô respirou fundo, bem fundo, até o ar encher toda a sua barriga. Depois deu um passo. Só um.
Nada de terrível aconteceu.
Deu outro passo. E mais outro.
O chão era o mesmo chão de sempre, macio e coberto de musgo. As samambaias faziam o mesmo cheiro verde de todos os dias. O escuro, percebeu Dodô com surpresa, não tinha mudado nada de lugar — só tinha apagado a luz.
— É o mesmo vale — disse ele para si mesmo, baixinho. — É o mesmo vale de sempre.
E foi descendo, passo a passo, com o pescoço esticado para a frente como quem tateia o caminho.
No meio da descida, uma coisa mágica começou a acontecer. Pontinhos dourados foram acendendo no ar ao redor dele. Um, depois dois, depois dezenas. Eram vaga-lumes! Eles saíam de dentro das samambaias e voavam devagarinho, formando um caminho de luzinhas que descia até o riacho.
Dodô arregalou os olhos. Em todas aquelas noites escondendo a cabeça, ele nunca tinha visto aquilo. Os vaga-lumes só apareciam quando estava bem escuro — e ele sempre fechava os olhos antes.
— Vocês estavam aqui esse tempo todo? — sussurrou, encantado.
O Encontro no Riacho
Guiado pelas luzinhas, Dodô chegou ao Riacho das Pedras Lisas. E lá estava Pipa, encolhidinha entre duas pedras grandes, com o casquinho tremendo.
— Pipa! — chamou ele.
A triceratops levantou a cabeça, e seus olhos brilharam de alívio.
— Dodô! Eu escorreguei na pedra molhada e meu pé ficou preso. Tentei sair sozinha, mas não consegui, e aí ficou escuro e eu... eu fiquei com tanto medo.
Dodô se aproximou com cuidado. Com seu pescoço comprido e forte, ele empurrou devagarinho a pedra que prendia o pezinho de Pipa. A pedra rolou para o lado e Pipa saiu, mancando um pouquinho, mas inteira.
Ela se aninhou ao lado dele.
— Como você teve coragem de vir? — perguntou. — Está tão escuro.
Dodô pensou um pouco antes de responder.
— Eu não tive coragem — disse ele, sincero. — Eu vim com medo. O medo veio junto comigo o caminho todo. Ele só não conseguiu me fazer parar.
O Caminho de Volta
Os dois subiram juntos o vale, devagarinho, com Pipa se apoiando no pescoço de Dodô. E os vaga-lumes iam à frente, acendendo o caminho.
No meio da subida, Pipa parou e olhou ao redor.
— Dodô... o escuro é bonito.
Ele olhou também. As samambaias tinham virado sombras macias, azuis. O riacho brilhava lá embaixo como uma fita de prata. E o céu, agora que as nuvens começavam a se abrir, mostrava estrelas que ele nunca tinha reparado — porque estrelas só aparecem quando está escuro o bastante.
— É — respondeu Dodô, com a voz cheia de espanto. — É bonito mesmo.
Quando chegaram em casa, a mãe de Pipa abraçou os dois de uma vez só, e a mãe de Dodô encostou o focinho no dele, do jeitinho que as mamães dinossauro fazem quando estão orgulhosas.
Naquela noite, pela primeira vez na vida, Dodô não escondeu a cabeça. Ele deitou de barriga para cima, olhando o céu, e ficou contando estrelas até o sono chegar.
Ele ainda achava o escuro um pouquinho assustador. Isso não mudou. Mas agora ele sabia de uma coisa que antes não sabia: o escuro não era um lugar diferente e perigoso. Era o mesmo mundo de sempre, só descansando — e guardando, quietinho, algumas das coisas mais bonitas que existem.
E toda vez que a noite chegava, Dodô se lembrava dos vaga-lumes e pensava, com um sorriso: "Que bom que eu dei aquele primeiro passo."
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