O Dinossauro Mensageiro

No Vale das Samambaias Gigantes, o tempo parecia passar devagar. Os brontossauros mastigavam folhas com uma calma infinita, demorando horas para engolir um único galho. Os estegossauros caminhavam como se carregassem o peso do mundo nas costas. Até o vento parecia preguiçoso, soprando suavemente entre as árvores.
Mas havia uma exceção. Um borrão verde e amarelo que cortava a paisagem deixando um rastro de poeira para trás.
Seu nome era Zigue. Zigue era um Gallimimus, um dinossauro que parecia um avestruz gigante, mas sem penas e com uma cauda longa para dar equilíbrio. Ele não tinha dentes afiados, não tinha garras poderosas e não tinha uma carapaça dura. O que Zigue tinha eram pernas. Pernas longas, fortes e feitas para uma única coisa: correr.
Zigue não sabia andar. Se ele queria beber água, ele corria. Se queria dar “bom dia”, ele passava correndo e gritava no meio do caminho. Os outros dinossauros ficavam tontos só de olhar.
— Zigue, meu filho, pare um pouco! — dizia Vovó Tita, uma Tricerátops idosa e rabugenta. — Você vai gastar o chão desse jeito!
— Não posso parar, Vovó! O vento me chama! — respondia Zigue, já sumindo na curva do rio.
Numa tarde abafada, porém, a correria de brincadeira virou coisa séria.
O céu ficou roxo e uma tempestade estranha trouxe um vento frio para o vale. O pequeno Bolota, neto da Vovó Tita, começou a tossir. Mas não era uma tosse comum. As escamas dele, que eram laranjas, começaram a ficar cinzentas. Ele não conseguia levantar a cabeça e sua respiração estava fraca.
O Doutor Hadro (um dinossauro bico-de-pato que conhecia todas as plantas) examinou o pequeno. Sua expressão era grave. — É a Febre da Névoa — disse ele. — É muito rara e avança rápido. O pequeno Bolota precisa do suco da Fruta do Sol.
— Onde encontramos isso? — perguntou Vovó Tita, desesperada.
— Esse é o problema — suspirou o Doutor. — A única árvore que dá a Fruta do Sol fica no topo da Montanha da Garra, do outro lado do Desfiladeiro dos Ventos. E precisamos da fruta antes que o sol se ponha hoje. Se a noite cair e ele não tiver tomado o remédio, a febre não vai passar.
Todos olharam para o sol. Ele já tinha passado do meio do céu. Restavam poucas horas. — É impossível — disse um Anquilossauro. — Leva-se dois dias para ir e voltar de lá caminhando.
— Caminhando, sim — disse uma voz fina e acelerada.
Todos olharam para baixo. Zigue estava lá, vibrando de ansiedade, batendo o pé no chão. — Mas correndo… correndo é outra história.
— Zigue, é perigoso — alertou o Doutor Hadro. — O Desfiladeiro é instável. E dizem que o Rex, o Rei Dentuço, está caçando naquela área.
Zigue olhou para o pequeno Bolota, que gemia baixinho. Ele olhou para Vovó Tita, que chorava. — Preparem o remédio quando eu voltar — disse Zigue. — Eu vou trazer o sol para ele.
Sem esperar resposta, Zigue virou-se e disparou. VRUM! Ele saiu tão rápido que levantou uma nuvem de folhas secas.
A primeira parte da viagem foi fácil. Zigue conhecia o vale como a palma de sua pata. Ele saltou troncos caídos, desviou de poças de lama e usou as raízes das árvores como rampas para ganhar velocidade. Ele se sentia um pássaro sem asas, voando rente ao chão.
Mas então ele chegou ao Rio Bravo. Normalmente, havia pedras para atravessar, mas a chuva recente tinha feito o nível da água subir. A correnteza era forte e barulhenta.
Zigue freou na margem, derrapando. — Pense, Zigue, pense rápido! — disse ele para si mesmo.
Ele viu um tronco oco flutuando, descendo o rio em alta velocidade. E viu uma pedra no meio do rio. Não dava para nadar. Ele teria que usar a física. Zigue recuou dez passos. Respirou fundo. E correu. Ele correu com tanta força que seus pés mal tocavam o chão. Ele saltou da margem, aterrissou no tronco em movimento (que girou sob seus pés), usou o impulso para saltar para a pedra e, num último esforço, pulou para a outra margem.
Ele caiu rolando na grama, mas levantou-se sem parar o movimento. — Um obstáculo vencido!
Agora vinha a parte difícil: o Desfiladeiro dos Ventos. Era um corredor estreito entre dois paredões de rocha. O problema não era o chão, mas quem morava lá.
Zigue entrou no desfiladeiro. O silêncio era pesado. Ele tentou ser silencioso, mas “silêncio” e “velocidade máxima” não combinam. Seus passos ecoavam: Tuc-tuc-tuc-tuc.
De repente, uma sombra gigante cobriu o sol. Um rugido fez as pedras tremerem. — ROAAAAAR!
Saindo de trás de uma rocha, estava ele: o Rei Dentuço. Um Tiranossauro Rex enorme, com dentes do tamanho de bananas e um olhar de quem estava com fome. Ele bloqueava o caminho.
Zigue parou por um segundo. Seu coração batia tão rápido que parecia um beija-flor. Se ele voltasse, perderia tempo. Se ele tentasse lutar… bem, ele seria um lanche rápido.
— A única saída é através — sussurrou Zigue.
O T-Rex abriu a boca e avançou. Zigue não correu para longe. Ele correu em direção ao monstro. Quando o T-Rex abaixou a cabeça para morder, Zigue fez uma finta para a esquerda. O T-Rex virou o pescoço. Zigue mudou de direção num milésimo de segundo e passou por baixo das pernas gigantes do predador.
— Yoo-hoo! — gritou Zigue.
O T-Rex, confuso, tentou girar para pegar aquela “coisa” rápida, mas sua cauda bateu na parede do desfiladeiro, fazendo cair pedras que bloquearam o caminho atrás de Zigue. O dinossauro mensageiro já estava longe, deixando o predador comendo poeira.
Finalmente, a Montanha da Garra. A subida era íngreme. As pernas de Zigue ardiam. O ar ficava rarefeito. Ele olhou para o céu. O sol estava perigosamente baixo, tocando o horizonte, pintando as nuvens de laranja.
— Não pare. Pelo Bolota. Não pare.
Com a língua de fora, Zigue alcançou o topo. Lá estava ela. A árvore solitária com frutas amarelas brilhantes. A Fruta do Sol. Zigue não tinha mãos, mas tinha um bico ágil. Ele arrancou um cacho com três frutas, segurando-as com cuidado no bico.
Agora, a volta. Descer é mais fácil que subir, dizem. Mas descer correndo com uma fruta delicada na boca, fugindo do pôr do sol, é loucura. Zigue desceu a montanha quase escorregando. Ele usou a gravidade a seu favor. Ele era um meteoro verde descendo a encosta.
Ele passou pelo desfiladeiro (o T-Rex já tinha ido embora, resmungando). Ele passou pelo rio (o tronco já tinha ido, então ele teve que saltar num galho de árvore que pendia sobre a água).
Quando ele entrou no Vale das Samambaias, a última fatia do sol estava sumindo. As sombras já cobriam o acampamento.
Vovó Tita chorava baixinho ao lado de Bolota, que agora mal se mexia. O Doutor Hadro balançava a cabeça, triste. — Acabou o tempo — disse o Doutor.
— NÃO ACABOU NÃO!
O grito veio acompanhado de um vento forte. Zigue surgiu do meio dos arbustos, freando com tanta força que deixou marcas profundas no chão. Ele estava suado, arranhado e exausto, mas no seu bico, intactas e brilhantes, estavam as Frutas do Sol.
O Doutor Hadro correu. Ele espremeu o suco da fruta na boca do pequeno Bolota. Houve um silêncio tenso. Um minuto. Dois minutos.
De repente, Bolota espirrou. Suas escamas cinzentas começaram a brilhar em laranja novamente. Ele abriu os olhos e olhou em volta. — Vovó? — chamou ele. — Estou com fome.
O vale explodiu em alegria. Os dinossauros rugiam, batiam patas e comemoravam. Vovó Tita abraçou o pescoço fino de Zigue com tanta força que ele quase engasgou. — Você salvou ele, Zigue! Você foi mais rápido que o sol!
Zigue sorriu, sentou-se no chão e massageou as coxas doloridas. — Foi só uma corridinha, Vovó — disse ele, tentando ser modesto.
Naquela noite, Zigue dormiu como uma pedra. Ele não correu em seus sonhos. Pela primeira vez, ele estava feliz em ficar parado. Ele aprendeu que sua velocidade não era apenas para brincar ou fugir; era um dom. Um poder. Ele era Zigue, o Mensageiro Veloz, o Guardião do Tempo, o dinossauro que venceu o sol.
E, na manhã seguinte, quando acordou… bem, a primeira coisa que ele fez foi apostar uma corrida com o vento. Afinal, heróis também precisam se divertir.
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