O Caco de Vidro e a Canção da Maré

4 min de leituraHistorinha para dormir
O Caco de Vidro e a Canção da Maré
Ads

Era uma vez, no fundo escuro e agitado do oceano, um caco de vidro verde. Ele havia pertencido a uma garrafa imponente e orgulhosa que viajava no convés de um navio real, mas uma tempestade terrível o havia despedaçado e lançado ao mar.

Agora, ele era apenas um fragmento pontiagudo, cheio de bordas afiadas que cortavam as correntes de água. Ele estava cheio de amargura.

— Olhem para mim — lamentava o caco de vidro, afundando na areia fria. — Fui feito para estar na mesa dos reis, para refletir a luz dos candelabros de ouro. E agora, sou apenas lixo perigoso, feio e quebrado.

Perto dali, dentro de conchas fechadas, repousavam as pérolas. Elas eram lisas, redondas e imaculadas.
— Que criatura rústica e barulhenta — sussurrou uma pérola brilhante para a outra. — Ele é cheio de arestas cortantes. Nunca terá o brilho suave da nobreza. Ele foi feito para ferir, nós fomos feitas para encantar.

O caco de vidro ouviu isso e sentiu uma dor profunda em seu interior de silício. Ele desejava, mais do que tudo, ser uma pedra preciosa. Ele queria ser uma esmeralda! Mas como poderia, se era apenas um pedaço de tristeza estilhaçada?

O oceano, que é muito antigo e muito sábio, ouvia os lamentos do caco. Em vez de deixá-lo no fundo, a maré decidiu levá-lo para uma longa e dolorosa jornada.

As ondas agarraram o caco de vidro e o arremessaram contra as rochas. Crack! As pedras arranharam sua superfície perfeita. A areia esfregou-se contra ele dia após dia, noite após noite. Era exaustivo. O vidro chorava lágrimas que se misturavam à água salgada.

— Por que me castigas, mar implacável? — perguntava o vidro, enquanto rolava pelo cascalho. — Não vês que já estou quebrado? Por que me arranhas e me bates sem piedade?

Mas o mar não respondia com palavras. Respondia com o sussurro constante das espumas e o embalo das correntes. O mar, na verdade, estava usando a sua magia mais antiga: a magia da paciência.

Os anos se passaram, longos e frios. Inúmeras luas prateadas brilharam sobre a água, e o caco de vidro absorveu a luz de cada uma delas enquanto era rolado pela areia.

Ads

Um dia, uma grande onda o ergueu bem alto e, com um suspiro suave, depositou-o na areia quente de uma praia iluminada pelo sol.

O vidro fechou os "olhos", esperando a escuridão e o frio. Mas sentiu algo diferente. Sentiu o calor do sol da manhã. Ele tentou encontrar suas bordas afiadas, suas pontas que costumavam cortar, mas elas não estavam mais lá.

Ele havia mudado. A surra das ondas, o atrito da areia e o sal do mar haviam levado embora toda a sua fúria e todas as suas arestas cortantes. Ele não era mais transparente e orgulhoso, nem pontiagudo e perigoso. Sua superfície agora era fosca, suave como seda, de um verde leitoso que parecia guardar o próprio luar dentro de si. Ele havia se tornado Vidro do Mar.

Foi então que passos leves ecoaram pela areia. Era uma menina, pequena e com roupas remendadas. Ela caminhava de cabeça baixa, triste porque sua mãe estava doente e ela não tinha nada para lhe dar que pudesse trazer um sorriso ao seu rosto pálido.

De repente, um brilho suave chamou a atenção da menina. Ela se abaixou e pegou o vidro do mar.

— Oh! — ela suspirou, maravilhada, segurando-o contra a luz do sol. O vidro fosco brilhou com uma magia doce e misteriosa. — É uma lágrima de sereia! Uma esmeralda mágica do oceano!

A menina apertou o vidro contra o peito, correndo para casa com o coração cheio de esperança e alegria.

Nas mãos quentes e gentis da criança, o pedaço de vidro finalmente entendeu. As pérolas lá no fundo do mar poderiam ser perfeitas e intocadas, mas estavam trancadas na escuridão de suas conchas, temendo o mundo. Ele, por outro lado, havia enfrentado as tempestades. Ele havia sido quebrado e machucado, mas as mesmas ondas que o fizeram sofrer também o curaram, lapidando sua alma.

Ele não precisava estar em um anel de ouro ou na mesa de um rei. Ser a esperança nas mãos de uma criança e ter o coração suavizado pelas tempestades era a magia mais bonita que poderia existir no mundo. E, pela primeira vez desde que caiu no mar, o pedaço de vidro sentiu-se perfeitamente inteiro.

Ads

O Que Achou da Historinha?

Toque nas estrelas para avaliar

O que achou desta história?

Compartilhe a Historinha:

Comentários (0)

Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a comentar!

Historinhas Relacionadas