O Ano que a Água Entrou em Casa

A casa da Iracema era em cima de estacas.
Não era casa de chão. Era casa de madeira, apoiada em quatro estacas grossas de acapu, com uma escada que descia da porta até o barranco do rio.
Todo mundo lá era assim. Uma fila de casinhas na beira do rio, cada uma empoleirada nas suas estacas, olhando para a água.
E era assim por um motivo.
Cheia e vazante
— O rio respira — o pai da Iracema explicava. — Enche e esvazia. Enche e esvazia. Todo ano.
Na seca, lá pelo fim do ano, a água baixava tanto que aparecia uma praia de areia branca na frente da casa. Dava para jogar bola. Dava para correr atrás do cachorro. A escada ficava com dez degraus de fora.
Depois a água começava a subir, lá por dezembro. Subia devagarinho, sem pressa, alguns centímetros por dia, e só parava de subir lá por junho. A praia sumia. O barranco sumia. Os degraus da escada iam sumindo um por um.
Iracema tinha nove anos e já sabia de cor o jeito de medir: a marca preta no terceiro degrau. Quando a água chegava ali, era hora de puxar a canoa para mais perto da porta.
O ano diferente
Só que, naquele ano, o rio não parou no terceiro degrau.
Passou do terceiro. Passou do quarto. Passou do quinto.
Choveu demais lá na cabeceira, lá longe, em outro país até, e toda aquela água estava descendo.
Quando a água chegou no penúltimo degrau, o pai da Iracema não falou nada. Só foi buscar as tábuas que ficavam guardadas embaixo da casa.
— Vamos ter que levantar as coisas.
O dia da mudança para cima
Foi um dia inteiro de trabalho.
O pai e o tio Zeca pregaram um estrado de tábuas num nível mais alto, dentro da casa mesmo, quase na altura da janela. Em cima dele foram o fogão, o colchão, a caixa de roupa, o saco de farinha, o rádio.
A Iracema ajudou carregando as coisas leves, uma por uma, subindo na escadinha improvisada.
A galinha e os pintinhos foram para uma gaiola amarrada no caibro do teto, o que deixou a galinha muito indignada.
O cachorro, o Frajola, foi o mais difícil. Ele não queria subir de jeito nenhum. Ficou choramingando embaixo, andando de um lado para o outro, até o tio Zeca pegar ele no colo e içar para cima.
De noite, quando todo mundo deitou no estrado alto, a Iracema ficou ouvindo um barulho novo.
Plic… ploc… plic.
Era a água. Lá embaixo. Dentro de casa.
Morando em cima
Na manhã seguinte, a Iracema acordou, se debruçou na beirada do estrado e olhou para baixo.
O chão da casa tinha sumido. No lugar dele tinha um espelho escuro, parado, que refletia o teto.
Ela ficou um tempo olhando aquilo, meio assustada, meio achando bonito.
E então, no meio da sala — dentro da casa —, passou um peixe.
Um tucunaré, tranquilo, de nadadeira mexendo devagar, como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.
— PAI! Tem peixe na sala!
O pai nem levantou a cabeça do café.
— Amarra o anzol na janela, então. Poupa o trabalho de sair.
E ele estava falando sério. Naquela semana, a Iracema pescou dois tucunarés sentada na janela da própria casa, de pijama, com os pés pendurados em cima da água.
A escola de canoa
A escola ficava a uns vinte minutos rio acima.
Na seca, dava para ir andando pela trilha. Na cheia, não tinha trilha. Tinha água.
Então a Iracema ia de canoa, com mais quatro crianças da vizinhança. Cada um sentava num banquinho, com a mochila no colo para não molhar, e todo mundo tinha a sua vez de remar.
A canoa passava por cima de coisas que, na seca, eram do chão: por cima do campo de futebol, por cima da cerca do vizinho, por cima do pé de goiaba, que agora era só uns galhos com folha saindo da água.
— Olha, a goiabeira virou arbusto — dizia o Juninho, rindo.
Eles passavam por dentro da mata alagada, desviando de tronco, no meio de um silêncio esquisito, com a sombra das árvores em cima e o reflexo delas embaixo.
Um dia, uma preguiça olhou para eles de um galho a um metro da canoa, sem se mexer, com aquela cara de quem não entende nada e não se importa.
A noite do vento
A parte difícil veio numa noite de vento.
Veio um temporal de madrugada. A chuva batia na telha de zinco fazendo um barulho de mil tambores, e o vento empurrava a água do rio contra as estacas da casa.
A casa balançou.
Não foi muito. Foi um tremorzinho, um rangido nas tábuas, mas a Iracema acordou com o coração disparado.
— Pai!
— Tô acordado.
Ele estava sentado no escuro, na beirada do estrado, ouvindo.
— A casa vai cair?
— Não vai.
— Como o senhor sabe?
— Porque quem fincou essas estacas foi meu pai, e ele fincou fundo. — Ele falou sem pressa, como quem explica uma conta. — E porque essa casa já passou por cheia maior que essa. Em oitenta e nove. Eu era menino.
Ficaram os dois ali, escutando o barulho.
— Mas se o senhor tiver medo, pode falar — disse a Iracema.
O pai riu baixinho.
— Eu tenho um pouquinho. A gente sempre tem. — Ele apertou o ombro dela. — Mas a casa é boa. Deita.
Ela deitou. E, de algum jeito, dormiu.
A marca na parede
Quatro semanas depois, a Iracema reparou numa coisa de manhã: dava para ver um pedacinho do chão de novo, num canto.
A água estava baixando.
Foi baixando devagar, do mesmo jeito que tinha subido. O chão apareceu. Depois apareceu o último degrau. Depois o penúltimo.
E, quando a água finalmente saiu de dentro de casa, ficou uma linha de barro na parede, na altura do peito da Iracema.
O pai pegou um prego e riscou ali, e escreveu o ano ao lado.
A Iracema olhou para a parede e viu que tinha outras marcas. Mais antigas, mais fundas, algumas quase apagadas. Uma delas, bem lá em cima, dizia 1989.
— Essa é a do senhor.
— Essa é a minha — disse o pai. — E agora tem a sua.
O cheiro de terra
Passaram mais uns três meses, e a praia de areia branca voltou a aparecer na frente da casa.
O campo de futebol reapareceu. O pé de goiaba voltou a ser um pé de goiaba inteiro, com goiaba e tudo.
E teve um dia em que a Iracema desceu a escada até o último degrau, pisou na areia quentinha e sentiu de novo aquele cheiro que só tem quando a água vai embora: cheiro de terra molhada secando no sol.
Ela correu pela praia até cansar. Depois sentou na areia e ficou olhando o rio, que agora estava lá longe, comportado, brilhando.
De noite, deitada no colchão que já tinha voltado para o chão de casa, ela ficou pensando no peixe que passou na sala. Na preguiça no galho. Na canoa por cima da cerca.
E pensou que seria meio chato se o rio ficasse baixo o ano inteiro.
Mas rio não faz isso. Rio respira.
Então ela fechou os olhos e dormiu, esperando a próxima cheia.
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