O Amigo Oculto da Sala do Segundo Ano

5 min de leituraHistorinha para dormir
O Amigo Oculto da Sala do Segundo Ano
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Duas semanas antes das férias, a professora Sandra entrou na sala do segundo ano com uma caixa de sapato na mão.

Dentro da caixa tinha um monte de papelzinho dobrado.

— Amigo oculto! — ela anunciou.

A sala inteira gritou.

As regras

A professora explicou as regras, que todo mundo já sabia, mas gostava de ouvir de novo.

— Cada um tira um papel. Não pode contar pra ninguém quem você tirou. O presente é até quinze reais, e olha lá. E, no último dia, a gente faz a roda, e cada um fala uma dica antes de entregar.

A caixa foi passando de mão em mão.

Quando chegou na Clara, ela enfiou a mão, remexeu bastante para dar sorte e tirou um papelzinho.

Abriu embaixo da mesa, escondido.

E leu:

Otávio

Otávio

Clara sentiu o ombro cair.

Otávio era o menino que sentava na última carteira, do lado da janela.

Ele tinha chegado no meio do ano, o que já é difícil. Usava óculos de armação grossa. Falava baixinho, quase não dava para ouvir. E, no recreio, ficava sentado no banco do pátio, sozinho, folheando o mesmo livro de bichos do fundo do mar.

Ninguém era malvado com ele. Era pior: ninguém lembrava dele.

Nas rodas de time, ele sobrava. Nos trabalhos em dupla, ele era o que ficava por último.

Clara olhou para o papelzinho e pensou uma coisa feia, que ela teve vergonha de ter pensado: "Ai, logo ele."

Depois ficou com vergonha da vergonha.

O problema dos quinze reais

Naquela noite, no jantar, Clara contou para a mãe.

— Mãe, eu tirei o Otávio. E eu não sei do que ele gosta.

A mãe passou o arroz.

— Você não senta atrás dele?

— Sento.

— Então você sabe mais do que pensa. — A mãe apoiou os cotovelos na mesa. — Fecha os olhos e me diz três coisas que você já viu ele fazendo.

Clara fechou os olhos, meio sem vontade.

— Ele lê um livro do mar no recreio. Ele desenha peixe na margem do caderno. E, quando a professora falou de baleia na aula de ciências, ele levantou a mão e falou um monte, rapidinho, e depois ficou vermelho e parou.

Ela abriu os olhos.

— Nossa. Eu sabia bastante coisa.

A procura

No sábado, Clara e a mãe foram na livraria do shopping.

Os livros de bicho do mar bonitos custavam sessenta, setenta reais. Bem mais que quinze.

Clara foi ficando desanimada.

Até que, numa mesa do fundo, ela achou um caderno.

Era um caderno de desenho, de capa dura, com um polvo desenhado na capa. Custava doze reais.

Clara pegou. Olhou. E pensou no caderno do Otávio, com os peixinhos rabiscados na margem, apertadinhos, porque não tinha lugar.

— É esse — ela disse.

Com o que sobrou, ela comprou um lápis 6B, daqueles bem macios, que o professor de arte tinha dito que era bom para sombrear.

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Deu quinze reais e vinte centavos. A mãe pagou os vinte centavos.

A dica

No dia da roda, a sala estava toda decorada com bandeirinha de papel e uma arvorezinha no canto.

As crianças sentaram no chão em roda, cada um com o presente no colo.

Foi um por um. Cada um falava a dica, e a sala inteira gritava adivinhando.

— O meu amigo oculto… corre muito rápido!

— É o Gui! É o Gui!

Quando chegou a vez de Clara, ela levantou.

E o coração dela estava batendo mais forte do que ela esperava.

— O meu amigo oculto — ela começou — é a pessoa que mais sabe de bicho do mar dessa sala inteira.

A sala ficou quieta.

Ninguém adivinhou. Porque ninguém sabia.

— Ele sabe até o nome científico do bicho do fundo do mar que acende a luzinha na cabeça. Eu não sei falar. Mas ele sabe.

Lá do outro lado da roda, o Otávio levantou a cabeça devagar.

— Melanoceto — ele disse, baixinho. — Mas todo mundo chama de peixe-diabo-negro.

Clara apontou para ele, sorrindo.

— É ele!

O presente

Otávio desembrulhou o papel com cuidado, sem rasgar, do jeito de quem não ganha presente com muita frequência.

Quando ele viu o polvo da capa, parou.

Ficou olhando um tempo. Passou a mão na capa dura. Abriu na primeira página, que estava em branco, branquinha.

Depois olhou o lápis.

— É 6B — disse Clara, meio sem graça. — O professor de arte falou que é bom pra fazer sombra.

Otávio não disse nada. Só balançou a cabeça, apertou o caderno no peito e ficou olhando para o chão por um tempo.

Ele estava com os olhos meio molhados. E, quando percebeu, empurrou os óculos para cima e disfarçou.

O recreio

No recreio daquele dia, aconteceu uma coisa que não tinha acontecido desde o dia em que ele chegou.

O Otávio não sentou sozinho no banco.

Ele sentou no meio do pátio, com o caderno aberto no joelho, desenhando. E, em dois minutos, tinha quatro crianças em volta dele.

— Faz um tubarão.

— Faz aquele de luzinha na cabeça!

— Como é o nome dele mesmo?

— Melanoceto — ele disse. E dessa vez não falou baixinho.

Clara ficou vendo de longe, encostada no pilar, comendo o biscoito dela.

Na noite de Natal

Na noite de Natal, uma semana depois, Clara estava na casa da avó, com a família toda, calor de trinta graus e o ventilador no máximo.

Em algum momento, entre a ceia e a sobremesa, ela lembrou do pátio. Do Otávio no meio das quatro crianças, falando de peixe-diabo-negro sem falar baixinho.

E ela pensou que, de todos os presentes daquele ano, aquele de que ela mais gostou foi um que ela nem ganhou.

Depois pegou mais um pedaço de rabanada e não pensou mais nisso.

Mas nunca esqueceu.

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