O Alfaiatezinho Valente

Numa cidade pequena da Alemanha, numa rua estreita, tinha uma alfaiataria.
Dentro dela, sentado numa mesa perto da janela, de pernas cruzadas, costurava um alfaiate.
Ele era magro, baixinho e não tinha nenhuma força especial. Mas era esperto e tinha muita fé em si mesmo.
Naquela manhã, ele estava de bom humor. Tinha comprado um pote de geleia de ameixa e passou um pouco no pão, que deixou em cima da mesa para comer depois que terminasse o trabalho.
As moscas
O cheiro doce da geleia chamou as moscas.
Uma pousou no pão. Depois outra. Depois mais uma.
O alfaiate espantou as moscas com a mão, mas elas voltaram.
Ele espantou de novo, e elas voltaram.
Na terceira vez, ele ficou irritado. Pegou um pano e, de repente, PAF!, bateu em cima do pão.
Levantou o pano devagar e contou.
Sete moscas, todas de uma vez.
— Sete de um golpe! — disse ele, orgulhoso. — Eu não sabia que era tão bom.
O cinto
O alfaiate ficou tão contente que resolveu contar para o mundo inteiro.
Ele pegou um pedaço de pano largo, cortou em forma de cinto e bordou em cima, com linha dourada, quatro palavras:
SETE DE UM GOLPE.
Colocou o cinto, comeu o pão, pôs um queijo no bolso e saiu pela estrada para ver o mundo.
Ele sabia que ia arranjar encrenca. Mas, no fundo, achava que era mesmo muito valente.
A primeira pessoa que leu
No caminho, o alfaiate encontrou um gigante sentado numa pedra, olhando o horizonte.
O gigante era enorme, mais alto que uma casa, com mãos do tamanho de pás.
Ele olhou aquele homenzinho pequeno, leu o cinto e levantou as sobrancelhas.
— Sete de um golpe. Sete o quê?
— Sete homens — respondeu o alfaiate, com a maior calma.
O gigante não esperava aquilo.
Ele ficou olhando o alfaiate com um novo respeito. Mas, para ter certeza, resolveu testar.
O teste da pedra
O gigante pegou uma pedra do chão e apertou com a mão. Apertou tanto que saiu água dela.
— Faz isso — desafiou ele.
O alfaiate sorriu.
Tirou o queijo do bolso, que ninguém tinha visto, e apertou com a mão.
O queijo, mole, soltou um caldo branco.
— Essa pedra aí não estava muito seca, não — disse o alfaiate. — A minha, olha: saiu mais água.
O gigante ficou boquiaberto.
O teste do passarinho
O gigante não desistiu.
Pegou outra pedra e jogou tão alto que ela sumiu nas nuvens. Demorou um bom tempo para cair.
— Joga mais alto que isso, se conseguir.
No caminho, o alfaiate tinha encontrado um passarinho cansado e o guardara no bolso.
Ele pegou, escondido, e jogou para cima.
O passarinho voou e nunca mais voltou.
— Está vendo? — disse o alfaiate. — A minha pedra nem caiu ainda.
O gigante coçou a cabeça. Pela primeira vez, ficou com medo de verdade.
A árvore
Mesmo assim, o gigante tentou mais uma vez. Apontou para uma árvore caída, enorme, que estava no meio da floresta.
— Vamos carregar esse tronco juntos para fora do caminho?
O alfaiate respondeu:
— Boa ideia. Você carrega o tronco, que é mais forte. Eu levo os galhos, que são mais pesados.
O gigante pôs o tronco no ombro.
E o alfaiate, que era pequenininho, subiu nos galhos e ficou sentado ali em cima, assobiando, enquanto o gigante, sem saber, carregava tudo, o tronco e o alfaiate.
O gigante ficou pensando
O gigante arrastou aquilo por um bom pedaço.
Já estava suando muito quando, de repente, ouviu:
— Vai mais devagar! Se o galho cair, eu me machuco!
O gigante parou, soltou o tronco, e olhou para trás.
O alfaiate pulou no chão como se nada fosse.
— Está vendo? Eu carrego o dobro do peso e nem estou cansado.
O gigante estava exausto e envergonhado.
Mas, mesmo assim, ofereceu uma coisa: pousada na casa dele, para passar a noite.
A cama
Na casa dos gigantes, que ficava no alto de uma montanha, tinha outros gigantes.
Eles ficaram olhando para o alfaiate, desconfiados.
À noite, o alfaiate recebeu uma cama enorme, do tamanho de uma casa.
Ele deitou, olhou para o tamanho do colchão e achou que estava grande demais. Foi dormir num canto do quarto, no chão, enrolado num cobertor.
Foi a sorte mais bem aproveitada da vida dele.
Porque, no meio da noite, os gigantes, que não confiavam nele, foram até o quarto e bateram na cama com uma barra de ferro.
Eles acharam que tinha acabado.
A manhã seguinte
De manhã, o alfaiate saiu do quarto bocejando, de cinto e tudo, bem-disposto.
Os gigantes olharam, pálidos.
Aquele homenzinho tinha sobrevivido a uma pancada que derrubava uma árvore.
Eles ficaram com tanto medo que saíram correndo, cada um para um lado, e nunca mais voltaram.
E o alfaiate, que só tinha dormido no lugar errado por sorte, sorriu, esticou os braços e foi tomar café.
O rei
A fama do alfaiate chegou ao palácio do rei daquela terra.
— Aquele que mata sete de um golpe — disse o rei. — Podia me ser útil.
Ele chamou o alfaiate e propôs um acordo: se ele conseguisse afastar dois gigantes que estavam assustando uma floresta do reino, ganharia metade das terras e a mão da princesa.
O alfaiate aceitou, mas pensou: como é que eu vou fazer isso?
Ele ainda não sabia.
Mas já tinha uma ideia.
A ideia
O alfaiate foi até a floresta e achou os dois gigantes dormindo debaixo de uma árvore, um do lado do outro.
Ele subiu na árvore, com os bolsos cheios de pedras pequenas.
E jogou uma pedra na cabeça do primeiro gigante.
Pof.
O gigante acordou, esfregou a cabeça e olhou para o amigo ao lado, que roncava.
— Por que você me bateu?
— Eu? Eu estava dormindo! — respondeu o outro.
Os dois voltaram a dormir.
O alfaiate jogou uma pedra na cabeça do segundo.
Pof.
A briga dos gigantes
Foi só repetir.
Uma pedra em um. Uma pedra no outro. Eles acordavam, brigavam, voltavam a dormir.
Até que, de tanto levar pedrada, os dois acharam que o outro estava de provocação.
E aí começaram uma briga.
Arrancaram árvores, jogaram pedras, rolaram no chão, até ficarem tão cansados que os dois caíram sentados, cheios de arranhões, olhando um para o outro, sem forças.
O alfaiate, lá em cima, só olhava com cara de quem não tinha nada a ver com aquilo.
Os dois gigantes, cansados e cheios de arranhões, foram embora mancando e nunca mais assustaram ninguém naquela floresta.
O fim
O rei ficou impressionado e cumpriu a promessa.
O alfaiate casou com a princesa e ganhou metade do reino.
Mas dizem que, pelo resto da vida, ele guardou o cinto bordado numa gaveta.
E, quando ficava muito orgulhoso, abria a gaveta, olhava as quatro palavras e lembrava de uma coisa.
Que tinham sido sete moscas.
E que a coragem dele, no fim das contas, nunca esteve na força. Esteve em saber pensar quando todo mundo só sabia ter medo.
Este conto é dos Irmãos Grimm, da Alemanha, publicado em 1812. No conto original, os gigantes se matam na briga, o alfaiate ainda enfrenta um unicórnio e um javali, e o final é outro. Aqui, tudo foi suavizado para a hora de dormir, e o final com o cinto guardado na gaveta foi inventado para esta versão.
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