O Alfaiate e os Três Botões de Ouro

5 min de leituraHistorinha para dormir
O Alfaiate e os Três Botões de Ouro
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Numa cidade antiga, de ruas estreitas e telhados vermelhos, morava um alfaiate chamado Mateus.

Mateus era velho, tinha as mãos manchadas de tanto trabalhar e usava óculos redondos que viviam escorregando pelo nariz. Sua oficina era um cômodo pequeno, cheio de retalhos coloridos pendurados nas paredes e com uma janela que dava para a praça.

Ele não era rico. Mas era feliz, porque gostava do que fazia.

O Estranho da Noite de Chuva

Numa noite de inverno, quando a chuva batia forte nas telhas, alguém bateu à porta da oficina.

Mateus abriu. Era um velho encharcado, com um casaco puído e sapatos furados, tremendo de frio.

— Boa noite — disse o velho. — Não tenho onde dormir.

Mateus abriu a porta inteira.

— Entra, entra. Tem sopa no fogo.

O alfaiate deu ao estranho a sua própria cadeira perto do fogão, um prato de sopa e um cobertor. E, enquanto o velho comia, Mateus pegou o casaco puído dele e passou a noite inteira costurando: remendou os buracos, reforçou as costuras, forrou o peito com um retalho de lã grossa que estava guardado havia anos.

De manhã, o velho vestiu o casaco e ficou olhando para ele, espantado.

— Está melhor do que quando era novo.

— É o meu trabalho — disse Mateus, sorrindo por trás dos óculos tortos.

O velho enfiou a mão no bolso e tirou três botões.

Eram de ouro. Ouro de verdade, brilhando na luz cinzenta da manhã.

— Não tenho como pagar — disse ele. — Mas tenho isto. E eles não são botões comuns: cada um costura um desejo. Costure num tecido e diga o que quer.

Mateus quis recusar, mas o velho já colocava os botões na mão dele e fechava seus dedos por cima.

— Use com cuidado — disse. — Desejo costurado não se descose.

E foi embora pela rua molhada, sem olhar para trás.

O Primeiro Botão

Mateus ficou uma semana inteira com os três botões numa caixinha, sem coragem de usar.

Até que numa tarde entrou na oficina a viúva Ana, com o filho pequeno no colo. O menino estava com febre havia dias e ela não tinha dinheiro para o remédio.

Mateus não pensou duas vezes.

Pegou o primeiro botão de ouro, costurou-o na barra da manta do menino e disse baixinho:

— Que este menino fique bom.

Naquela noite, a febre passou.

A viúva voltou no dia seguinte com o filho correndo pela oficina e mexendo em tudo, e chorou tanto de alívio que Mateus teve que emprestar um retalho para ela enxugar o rosto.

O Segundo Botão

Meses depois, houve um incêndio na padaria da esquina.

O fogo comeu o telhado, a fornada e a fachada inteira. O padeiro, seu Antônio, ficou sentado na calçada olhando os escombros, sem saber o que fazer da vida.

Mateus atravessou a rua com o segundo botão na mão. Costurou-o no avental queimado do padeiro e disse:

— Que a sua padaria volte.

Em três semanas — ninguém soube explicar como, com doações que apareceram de todo canto e um empréstimo que caiu do céu —, a padaria estava de pé de novo, mais bonita do que antes.

Sobrou um botão.

O Último Botão

O tempo passou, e Mateus foi ficando mais velho.

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Os olhos foram piorando. As mãos foram ficando trêmulas. Chegou um dia em que ele não conseguiu mais enfiar a linha na agulha sem ajuda, e a oficina começou a perder freguês.

Uma noite, ele estava sentado sozinho no escuro, com o último botão de ouro na palma da mão, olhando para ele.

Era só desejar. Olhos novos. Mãos firmes. Talvez até juventude.

Ele ficou muito tempo assim.

Foi quando ouviu um barulhinho na porta.

Era uma menina magrinha, de uns dez anos, filha de uns recém-chegados que moravam do outro lado da praça. Ela segurava um vestido rasgado.

— Moço, o senhor conserta? Só que eu não tenho dinheiro.

Mateus olhou para o vestido. Depois para as mãos dela — pequenas, firmes, sem tremor nenhum.

E teve uma ideia.

— Eu conserto — disse ele. — Mas com uma condição: você vai fazer comigo.

A Última Costura

A menina se chamava Lia, e voltou no dia seguinte. E no outro. E no outro.

Mateus não conseguia mais costurar direito, mas conseguia ensinar. Sentava do lado dela e ia falando: assim se marca o tecido, assim se corta na diagonal, assim se dá o ponto invisível que ninguém enxerga.

As mãos eram dela. Os olhos eram dela. Mas o ofício era dele.

Em dois anos, Lia costurava melhor do que muita gente que costurava havia vinte.

Numa tarde, quando ela já cuidava da oficina quase sozinha, Mateus a chamou e colocou o último botão de ouro na mão dela.

— É seu.

Lia arregalou os olhos.

— Mas o senhor podia ter usado! Podia ter voltado a enxergar!

O velho alfaiate riu, um riso rouco e contente.

— Minha filha, eu usei. Eu usei ele no dia em que você bateu na minha porta.

— Como assim? O senhor não costurou nada!

— Costurei, sim — disse Mateus, batendo de leve no peito. — Costurei aqui. E o desejo era: que o que eu sei não morra comigo.

Lia olhou para o botão brilhando na palma da mão.

— E funcionou?

Mateus apontou para a oficina inteira: os retalhos coloridos, a máquina, as tesouras bem afiadas, os vestidos prontos pendurados esperando os donos.

— Olha em volta e me diz você.

O Que Ficou

Mateus morreu num inverno tranquilo, alguns anos depois, dormindo na cadeira perto do fogão.

Lia ficou com a oficina, e a oficina prosperou. Ela ensinou o ofício a outras três meninas, que ensinaram a outras, e assim por diante.

E o terceiro botão de ouro nunca foi usado. Lia o guardou numa caixinha, e passou adiante junto com a oficina, com uma única instrução para quem recebesse:

"Use só quando não tiver mais nada para dar. E repare: talvez você já tenha dado."

Dizem que aquele botão está numa caixinha até hoje, numa alfaiataria de rua estreita, esperando.

Mas ninguém nunca precisou dele.

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