Kaelen e a Chama da Montanha Partida

O Reino de Oakhaven estava morrendo. A Escuridão Rastejante, uma névoa fria e venenosa vinda das Terras Mortas do leste, avançava devorando a luz do sol e murchando as grandes árvores antigas. A única esperança era reacender o Farol da Montanha Partida, o ponto mais alto do mundo conhecido, usando uma antiga relíquia chamada Semente-do-Sol.
Os cavaleiros do Rei partiram em suas armaduras reluzentes, montados em imponentes cavalos de guerra. Mas a montanha era traiçoeira. Em poucos dias, eles retornaram derrotados, com armaduras amassadas e os espíritos quebrados. As trilhas haviam sido apagadas pelo tempo, e feras das sombras espreitavam nas ravinas.
Nos fundos do castelo, na poeira da Grande Biblioteca, estava Kaelen. Ele era um jovem de dezenove anos, de ombros estreitos e mãos manchadas de tinta. Kaelen não usava espada; ele usava um cajado de carvalho nodoso para conseguir andar, pois sua perna direita era fraca e torta desde o nascimento. Os guerreiros o chamavam de "Kaelen, o Manco".
Mas enquanto os guerreiros treinavam com espadas, Kaelen devorava os mapas antigos. Ele conhecia cada pedra, cada ravina e cada atalho da Montanha Partida, pois havia passado noites em claro redesenhando os pergaminhos da Primeira Era.
Quando o Rei, em desespero, perguntou quem tentaria a jornada final, um silêncio sepulcral tomou o salão. Ninguém deu um passo à frente.
Apoiando-se pesadamente em seu cajado, Kaelen atravessou o salão. TOC... arrasta... TOC... arrasta.
— Eu conheço o Caminho dos Antigos, Majestade — disse Kaelen, sua voz ecoando nas paredes de pedra. — Eu levarei a Semente-do-Sol.
Os cavaleiros murmuraram, alguns até riram. Mas do fundo do salão, uma figura atarracada e com uma barba trançada avançou. Era Bram, um anão veterano de guerra, exilado e cínico, que empunhava um machado quase do seu tamanho.
— Os grandes homens falharam porque confiam demais no aço e de menos na mente — grunhiu Bram. — Eu serei o escudo do garoto. Se ele sabe o caminho, eu garanto que ele chegue vivo.
O Rei, sem opções, entregou a Semente-do-Sol a Kaelen. Era um cristal dourado do tamanho de uma maçã, quente ao toque e que pulsava como um coração.
A jornada começou na manhã seguinte. Logo nos primeiros dias, a dificuldade se mostrou brutal. A neve era espessa e o terreno, acidentado. Para Bram, a subida era cansativa; para Kaelen, era uma tortura. Cada passo exigia um esforço monumental. Sua perna queimava de dor e suas mãos formaram bolhas ao redor do cajado.
Mas Kaelen não reclamou. Quando chegaram à Garganta dos Ecos, um abismo onde os cavaleiros haviam se perdido, Bram preparou o machado.
— Cuidado, garoto. É aqui que as feras das sombras atacam.
— Não vamos pela passagem principal — disse Kaelen, ofegante, apontando com o cajado para uma fenda estreita e quase invisível na rocha. — Os mapas dizem que os antigos mineradores usavam a Fenda da Agulha para evitar as feras. Confie em mim.
Eles se espremeram pela fenda escura. Ouviram os uivos das feras lá fora, caçando na passagem principal, mas passaram despercebidos. Bram olhou para o jovem arquivista com um novo respeito brilhando em seus olhos escuros.
A subida continuou por dias. Eles enfrentaram ventos cortantes e pontes de gelo que ameaçavam quebrar. Kaelen estava no limite de suas forças. Seus lábios estavam rachados e ele mal sentia os dedos dos pés.
Finalmente, alcançaram os Degraus da Agonia — uma escadaria de pedra vertiginosa que levava diretamente ao cume e ao antigo Farol. Foi então que a Escuridão Rastejante os alcançou.
Tentáculos de névoa negra subiram pelos degraus, tomando a forma de lobos sombrios com olhos vermelhos. Bram rugiu, girando seu machado e cortando a fumaça, mas havia muitos deles.
— Suba, Kaelen! — gritou o anão, bloqueando a base da escadaria com seu próprio corpo. — Acenda a forja do mundo! Eu seguro essas abominações!
Kaelen começou a subir. Os degraus eram altos e íngremes. No décimo degrau, uma rajada de vento negro o atingiu. Kaelen escorregou. Seu cajado, seu fiel apoio por toda a vida, bateu violentamente na pedra, rachou e partiu-se ao meio.
Kaelen caiu de joelhos na neve fria. A dor em sua perna era insuportável. Ele não conseguia se levantar sem o cajado. Lá embaixo, ele ouvia os gritos de batalha de Bram. A escuridão estava engolindo o mundo. O frio da névoa tentou congelar seu coração e lhe sussurrou que ele era fraco, que era apenas um manco inútil.
Kaelen olhou para a Semente-do-Sol em sua mão, que começava a perder o brilho por causa do frio.
— Eu não sou minhas pernas — sussurrou Kaelen, com os dentes cerrados. — Eu sou a minha vontade.
Ele não tentou se levantar. Em vez disso, ele guardou a Semente-do-Sol dentro da túnica, perto do coração para mantê-la aquecida, e começou a engatinhar.
Ele cravou os dedos ensanguentados nas pedras congeladas e puxou o próprio corpo. Um degrau. Depois outro. Suas roupas rasgaram, seus joelhos sangraram, e o ar rarefeito queimava seus pulmões. Ele ignorou a dor. Ignorou o vento. Ignorou o mundo. Havia apenas o próximo degrau.
Arrastando-se pela força bruta de seu espírito indomável, Kaelen alcançou o topo.
Diante dele, erguia-se o Altar do Farol, uma imensa bacia de pedra entalhada com runas antigas. Com um último grito de esforço, Kaelen se apoiou na borda da bacia, ergueu-se sobre a perna boa e colocou a Semente-do-Sol no centro do altar.
Por um segundo, nada aconteceu. Então, a montanha inteira tremeu.
Um pilar de fogo dourado, puro e ofuscante, explodiu do altar em direção aos céus. A onda de choque de luz quente varreu a montanha de cima a baixo. Quando a luz atingiu a base da escada, os lobos de sombra gritaram e se dissolveram em fumaça inofensiva, poupando a vida de Bram.
A luz dourada se espalhou como um manto de verão sobre o Reino de Oakhaven. As nuvens venenosas recuaram, evaporando diante do poder da Semente-do-Sol. A Escuridão Rastejante havia sido derrotada.
Horas depois, Bram encontrou Kaelen encostado no altar, exausto e coberto de neve, mas com um sorriso nos lábios. O anão não disse uma palavra. Ele caminhou até o jovem, tirou seu próprio machado das costas, quebrou o cabo resistente forjado em aço anão e entregou a haste reta e indestrutível a Kaelen, para servir de novo cajado.
— Para o homem mais forte que já conheci — disse Bram, curvando-se em reverência.
Kaelen, o Manco, nunca empunhou uma espada e nunca liderou um exército. Mas, nos grandes salões de Oakhaven, as canções cantadas por gerações não falavam de cavaleiros. Elas falavam do Arquivista Valente, o garoto que engatinhou até os céus e incendiou a escuridão, provando que a verdadeira jornada heroica não é medida pela força dos passos, mas pela imensidão da coragem de não desistir.
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