Joaquim e a Neve que Acende

Joaquim tinha certeza de uma coisa: Natal de verdade tem neve.
Ele tinha visto em todos os filmes. Casas com o telhado branquinho, crianças fazendo boneco de neve, gente de gorro e cachecol tomando chocolate quente perto da lareira. Era assim que tinha que ser.
Por isso, quando os pais disseram que o Natal daquele ano ia ser no sítio do Vô Tião e da Vó Nena, no interior de Minas, Joaquim perguntou logo:
— Lá neva?
O pai riu tanto que teve que parar o carro no acostamento.
O Natal errado
No sítio do Vô Tião fazia trinta e cinco graus.
As cigarras cantavam tão alto nas árvores que parecia que alguém tinha deixado um liquidificador ligado. A manga madura caía do pé e se espatifava no chão, e as abelhas vinham correndo. O cachorro, o Paçoca, passava o dia deitado de barriga para cima na sombra do alpendre, sem forças nem para abanar o rabo.
E a árvore de Natal…
A árvore de Natal do Vô Tião era um galho seco, pintado de branco, enfiado numa lata de tinta cheia de areia. Tinha bolas de algodão penduradas nas pontas.
— É a neve — explicou a Vó Nena, orgulhosa.
Joaquim olhou para a neve de algodão. Olhou para o termômetro na parede, que marcava trinta e cinco. Olhou para o Paçoca derretendo no chão.
— Esse é o Natal mais errado do mundo — ele resmungou, baixinho.
A cozinha da véspera
No dia vinte e quatro, a casa ficou cheia.
Chegaram os tios, as tias, os primos, a prima de segundo grau que ninguém sabia direito de quem era filha. A cozinha virou um formigueiro. Tinha frango assado, farofa com banana, arroz com passas, que metade da família amava e a outra metade tirava do prato, e uma travessa enorme de rabanada com açúcar e canela.
Joaquim ajudou a Vó Nena a passar as rabanadas no açúcar. Comeu três escondido. Ficou com os dedos grudando.
Mas continuava achando que faltava alguma coisa.
A Folia chegou
Já era noite quando Joaquim ouviu uma música vindo lá da estrada de terra.
Primeiro, uma viola. Depois, uma sanfona. Depois, um pandeiro, e uma caixa batendo forte: tum, tum, tum-tum.
— Chegou a Folia! — gritou o Vô Tião, levantando da cadeira mais rápido do que Joaquim já tinha visto.
Pelo portão do sítio entrou um grupo de homens e mulheres, cantando juntos. Na frente vinha uma moça segurando uma bandeira enfeitada com fitas coloridas e flores de papel, e, no meio, uma pintura dos Reis Magos visitando o menino Jesus.
Eles pararam na porta da casa e cantaram versos, pedindo licença para entrar.
— O que é isso, vô? — cochichou Joaquim.
— É a Folia de Reis — respondeu o avô, também cochichando. — Eles lembram a viagem dos três Reis Magos, que seguiram uma estrela para visitar o menino Jesus que tinha acabado de nascer. Aí eles vão de casa em casa, cantando e abençoando. Desde a véspera de Natal até o Dia de Reis, em janeiro.
A Vó Nena abriu a porta bem aberta. Os foliões entraram cantando. A bandeira passou por cima da cabeça de todo mundo, e as pessoas faziam o sinal da cruz quando ela passava.
O palhaço
E aí, de repente, pulou para dentro da sala uma figura que fez Joaquim dar um passo para trás.
Era um palhaço. Mas não um palhaço de circo. Ele usava uma máscara colorida, cheia de pontas e de fitas, e uma roupa de retalhos. Dançava pulando de um pé para o outro, girava, batia os pés no chão e inventava versos engraçados, rimando com o nome das pessoas da casa.
Joaquim se escondeu atrás do Vô Tião.
— Tenho medo dele — confessou.
O avô se agachou do lado dele.
— Sabe que, quando eu tinha a sua idade, eu também tinha? Me escondia debaixo da mesa. — Ele deu uma risadinha. — O palhaço é o bagunceiro da folia. Faz careta, faz verso, faz todo mundo rir. Mas presta atenção numa coisa: ele respeita a bandeira. Tá vendo? Ele pula pra lá, pula pra cá, mas não passa na frente dela.
Joaquim prestou atenção. Era verdade.
Então o palhaço parou bem na frente dele, fez uma reverência exagerada e cantou:
— Esse menino da cidade veio do asfalto pro sertão, se ele dançar comigo, eu dou um pedaço de pão!
Todo mundo riu. E Joaquim, sem entender muito bem como, estava dançando também. Pulando de um pé para o outro, igualzinho ao palhaço, com a família inteira batendo palmas.
A neve que acende
Depois que a Folia foi embora, cantando pela estrada até a casa do próximo vizinho, o sítio ficou quieto.
As cigarras tinham parado. O calor tinha diminuído um pouco. E o Vô Tião pegou o Joaquim pela mão.
— Vem cá. Quero te mostrar a neve.
Joaquim achou que ia ver de novo o galho com algodão. Mas o avô passou reto pela árvore, abriu a porteira e levou o menino até o meio do pasto, no escuro.
— Espera um pouquinho. Deixa o olho acostumar.
Joaquim esperou.
E então viu.
Primeiro uma luzinha. Depois outra. Depois dez. Depois cem.
Pelo pasto inteiro, sobre o capim, subindo e descendo no ar morno da noite, piscavam centenas de vaga-lumes. Luzinhas amarelo-esverdeadas acendendo e apagando, acendendo e apagando, como se o céu tivesse deixado cair um pedaço das estrelas.
Joaquim abriu a boca, mas não conseguiu dizer nada.
— Aqui a gente não tem neve — disse o avô, baixinho. — Tem isso.
Joaquim estendeu a mão, bem devagar. Um vaga-lume pousou no dedo dele e ficou piscando ali, pertinho.
— Vô… — ele cochichou. — É neve que acende.
A última coisa do Natal
Naquela noite, Joaquim foi dormir no quarto dos fundos, com a janela aberta por causa do calor.
Da cama, dava para ver o pasto lá fora, ainda cheio de luzinhas piscando.
Ele pensou nos filmes, com as casas de telhado branco e as crianças de gorro. Pensou que eles eram bonitos. Mas que nenhum daqueles meninos dos filmes tinha dançado com o palhaço da Folia, nem comido rabanada escondido, nem segurado uma estrela no dedo.
Uma luzinha verde entrou pela janela e ficou piscando no teto do quarto.
E Joaquim dormiu contando os flocos da única neve do mundo que acende.
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