Jaci, a Onça-Pintada que Atravessou o Rio

4 min de leituraHistorinha para dormir
Jaci, a Onça-Pintada que Atravessou o Rio
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No Pantanal, onde a água sobe e desce com as estações, vive o maior felino das Américas.

Ela não tem juba, como o leão, nem é listrado, como o tigre.

Tem o pelo cor de ouro velho, cheio de manchas pretas em forma de roseta: um anel de manchas pretas, com pontinhos no meio, repetido pelo corpo inteiro.

É a onça-pintada.

Um gato que gosta de água

Muitos gatos evitam a água.

A onça-pintada é uma das exceções.

Ela nada muito bem, atravessa rio largo e, de vez em quando, caça dentro da água. Isso faz dela uma felina meio esquisita, que você encontra tanto no mato seco quanto na beira do rio.

Nesta história, a onça se chama Jaci.

E, num fim de tarde, Jaci precisaria atravessar um rio.

Uma mordida poderosa

Jaci era bem maior que qualquer cachorro: um bicho que pesava mais que muita gente adulta, de pernas curtas e fortes, cabeça larga e músculo em cima de músculo.

A mordida dela é uma das mais fortes entre todos os felinos do mundo.

Ela não precisa usar isso para atacar gente. Onça-pintada costuma fugir de pessoas, desaparece quando ouve barulho, e muita gente passa a vida sem ver uma.

Mas essa mordida, junto com a força do pescoço, serve para um tipo de caça que quase nenhum outro felino consegue.

Jaci caça jacaré.

A caça

Naquela tarde, Jaci estava rondando a margem, quieta, com o corpo baixo, sem fazer nenhum barulho.

Onça-pintada não corre atrás da presa por muito tempo. Ela se esconde, espera, chega bem perto e dá um bote curto e rápido.

Dessa vez, o alvo era um jacaré que dormia no raso.

Ela chegou por trás. Deu o bote. E a caçada foi curta.

Naquela noite, Jaci comeu o suficiente para ficar alguns dias sem precisar caçar de novo.

Onça-pintada come bastante de uma vez e depois passa um tempo sem comer.

A manhã seguinte

Quando o sol nasceu, Jaci foi até um lugar escondido numa moita fechada, longe do rio.

Ali, deitado numa cama de folhas secas, dormia um filhote.

Ele era pequeno, do tamanho de um gato doméstico grande, ainda desajeitado, com as manchas pretas muito escuras sobre o pelo fofo.

Jaci lambeu a cabeça dele, de leve.

O filhote abriu um olho, deu um miado fino, e voltou a dormir.

O rio sobe

Mas as águas do Pantanal estavam subindo.

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Era época de cheia. O rio, dia a dia, ocupava mais terra, e o pedaço onde Jaci morava com o filhote começou a virar ilha.

Se ela ficasse ali, em pouco tempo, a água cobriria tudo.

Ela precisava levar o filhote para o outro lado, onde a terra ficava mais alta e seca.

E, para chegar lá, tinha que atravessar o rio.

O jeito de carregar

Um filhote tão pequeno ainda não nada bem.

Jaci fez o que as onças fazem: pegou o filhote com a boca, com muito cuidado, do mesmo jeito que uma gata pega um gatinho.

O filhote, assim, ficou quietinho, de patinhas encolhidas.

E foram até a beira do rio.

A travessia

O rio estava largo, calmo, brilhando sob a luz do fim da tarde.

Jaci parou na beirada. Olhou a outra margem. Ouviu a água.

Depois entrou.

Primeiro foram as patas, devagar. Depois a barriga. Depois o corpo todo, até só a cabeça e as costas ficarem para fora da água.

Ela nadava firme, com o filhote na boca, erguido o mais alto que conseguia da água.

Foram dez minutos que pareceram uma hora.

E, no meio do rio, um jacaré apareceu, a certa distância, olhando.

Jaci não parou. Não se virou. Continuou nadando na mesma direção, sem pressa, com os olhos na margem.

O jacaré, depois de uma pausa, afundou e sumiu.

A outra margem

Quando as patas dela tocaram o fundo, na outra margem, Jaci subiu na lama, sacudiu o corpo e deixou o filhote no chão.

Ele estava molhado e assustado. Miou, tremendo.

Ela se deitou ao lado dele e passou a língua pelo pelo molhado, devagar, até ele parar de tremer.

A noite estava chegando. As aves voltavam para dormir, e as primeiras estrelas apareciam por cima das árvores.

Jaci ficou ali, com o filhote encostado na barriga, escutando os sons do Pantanal à noite.

De verdade

A onça-pintada existe e vive em vários países, do México até o norte da Argentina.

O Pantanal é um dos lugares do mundo onde é mais fácil encontrá-la, porque o terreno é aberto e ela costuma caçar à beira dos rios.

Mas ela corre perigo em quase todo o país, até no Pantanal, onde as queimadas ameaçam o seu lar. As florestas e os campos onde ela vive foram virando fazenda e cidade, e ela precisa de muito espaço para andar. Tem região do Brasil em que ela já desapareceu.

Cuidar do lugar onde ela vive é o melhor jeito de garantir que, daqui a muitos anos, ainda tenha onça atravessando rio no Pantanal.

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