Guará, o Lobo de Pernas Compridas

No meio do Brasil tem um lugar de capim alto, árvore torta e chão seco: o Cerrado.
E quem anda por ali, sozinho, no fim da tarde, é um bicho que parece três animais colados num só.
Tem a cara de raposa.
Tem o pelo laranja-avermelhado, com uma crina escura no pescoço que se levanta quando ele leva um susto.
E tem as pernas mais compridas, para o tamanho do corpo, de todos os parentes do cachorro: pretas até quase o joelho, parecendo perna de garça.
É o lobo-guará.
O bicho que não é lobo
O nome engana.
Ele não é lobo, não é raposa e não é cachorro-do-mato. É uma espécie só dele: não existe outro bicho igual no mundo.
E, apesar do tamanho — ele é o maior canídeo da América do Sul, e a cabeça dele chega na cintura de um adulto — o lobo-guará não é um bicho perigoso para gente. É tímido, some quando escuta barulho e não ataca pessoa.
As pernas compridas servem para uma coisa específica: enxergar por cima do capim.
Quando ele anda no Cerrado, a cabeça dele fica acima da vegetação, e aí ele vê longe. E as orelhas enormes giram sozinhas, procurando barulho de bicho pequeno andando no chão.
O jantar do guará
Nesta história, ele se chama Guará.
Quando o sol se põe, ele acorda e sai andando.
Lobo-guará caça de um jeito meio engraçado: ele escuta, para, inclina a cabeça, escuta de novo — e aí dá um pulo com as patas da frente, prendendo no chão o rato, o tatu pequeno ou o inseto que estava ali.
Mas — e aqui vem a parte que quase ninguém sabe — boa parte do jantar dele não é bicho.
É fruta.
Mais ou menos metade do que o lobo-guará come é vegetal. E a fruta preferida dele tem até nome em homenagem a ele: a lobeira.
A lobeira
A lobeira é um arbusto do Cerrado que dá uma fruta redonda e amarela, mais ou menos do tamanho de uma laranja grande.
Naquela noite, o Guará passou por um pé de lobeira e comeu duas frutas, inteirinhas, com semente e tudo.
E foi embora andando.
Essa fruta é importante para ele por um motivo de saúde: o lobo-guará costuma ter uns vermes que moram nos rins dele, e os cientistas desconfiam que a lobeira ajuda a segurar esse problema.
Mas tem outra coisa acontecendo, e essa é a parte bonita.
O plantador distraído
As sementes da lobeira não são digeridas.
Elas passam inteiras pelo corpo do lobo-guará e saem junto com o cocô dele, lá na frente, quilômetros depois — porque ele anda muito, às vezes mais de dez quilômetros numa noite só.
E o cocô funciona como adubo.
Ou seja: o lobo-guará passa a vida comendo fruta num lugar e plantando as sementes dela em outro, sem fazer a menor ideia disso.
Tem mais: existe um estudo com a formiga-cortadeira. Ela carrega essas sementes do cocô para dentro do formigueiro e come quase todas — mas umas poucas escapam inteiras e acabam brotando ali, num solo cheio de nutriente.
É um sistema que ninguém combinou e que funciona há milhares de anos.
A noite inteira
O Guará andou a noite inteira.
Atravessou um campo queimado, desviou de uma estrada de terra, passou perto de uma cerca de fazenda e parou um tempão escutando um barulho que acabou sendo só o vento no capim.
Lá pelas tantas, ele fez o som que é a marca dele: um latido grave, alto e meio rouco, que ele solta para avisar os outros onde está.
Esse latido viaja longe no Cerrado.
De muito longe, veio a resposta de outro lobo-guará.
Os dois não foram se encontrar. Lobo-guará vive sozinho quase o ano inteiro — o casal divide um território enorme, mas cada um anda para o seu lado e eles só se juntam na época de ter filhote.
Era só um jeito de dizer: estou aqui, e esse pedaço é meu.
De manhã
Quando o céu começou a clarear, o Guará procurou um lugar para dormir.
Achou uma moita de capim bem fechada, num pedaço de campo onde ninguém passa, se enrolou ali e dormiu o dia inteiro, com as orelhas funcionando mesmo durante o sono.
E, a uns dez quilômetros dali, num lugar por onde ele tinha passado na madrugada, uma semente de lobeira estava no chão, dentro de um montinho de adubo, esperando a primeira chuva.
De verdade
O lobo-guará existe mesmo e é um dos símbolos do Cerrado. Ele aparece na nota de duzentos reais.
E está na lista de espécies ameaçadas no Brasil: o Cerrado foi virando plantação e cidade, e o bicho, que precisa de muito espaço para andar, acabou tendo que atravessar estrada. Atropelamento é hoje um dos maiores perigos para ele.
Então, se um dia você estiver de carro numa estrada que corta o Cerrado no fim da tarde, vale lembrar de uma coisa.
Aquele vulto laranja de pernas compridas que pode aparecer na beira da pista está, provavelmente, a caminho de plantar uma árvore sem saber.
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