Ester, a Rainha Corajosa

Muito tempo atrás, no tempo em que a Pérsia era um dos maiores reinos do mundo, vivia uma jovem chamada Ester.
Ela era judia, e tinha ficado órfã cedo. Quem criou a Ester foi um primo mais velho, chamado Mardoqueu.
Os dois moravam numa cidade grande do reino, onde muitos do povo deles viviam, longe da terra de Israel.
Mardoqueu era um homem sério e firme, que trabalhava perto do portão do palácio. E Ester, que cresceu ouvindo as histórias dele, aprendeu a ser atenta, calada e corajosa do jeito dela.
A escolha do rei
O rei da Pérsia se chamava Assuero.
Ele tinha ficado sem rainha, porque a rainha Vasti tinha se recusado a atender a um pedido dele, e mandou procurar, em todo o reino, jovens para ele escolher uma nova rainha.
Entre as moças levadas ao palácio estava a Ester.
Ela não pediu aquilo. Mas, quando chegou lá, tratou todo mundo com respeito, ouviu os conselhos de quem cuidava das moças e foi, aos poucos, ganhando a simpatia de todo mundo que a conhecia.
O rei conheceu todas as moças.
E escolheu a Ester.
Ela virou a rainha da Pérsia.
O segredo
Antes de ela ir para o palácio, o Mardoqueu pediu uma coisa:
— Não conte a ninguém que você é judia.
Ester obedeceu. No palácio, ninguém sabia de onde ela vinha nem qual era o povo dela.
E o Mardoqueu continuou trabalhando perto do portão, de olho, todo dia, para saber como ela estava.
O inimigo
Naquele palácio, havia um homem muito poderoso chamado Amã.
Ele era o primeiro-ministro do rei, e se achava a pessoa mais importante do reino.
Amã exigia que todos se ajoelhassem quando ele passava. E todo mundo se ajoelhava.
Todo mundo, menos uma pessoa: o Mardoqueu.
Ele era judeu, e não aceitava se ajoelhar diante de Amã.
Amã ficou furioso.
E não quis se vingar só do Mardoqueu. Quis se vingar do povo todo dele.
O decreto
Amã foi até o rei e inventou uma história.
— Há um povo espalhado pelo seu reino que não obedece às suas leis. Não vale a pena deixá-los no seu reino. Se o senhor autorizar, eu cuido do assunto.
O rei, sem perguntar qual era o povo, e sem desconfiar de nada, deu a Amã o anel dele, que servia de carimbo.
Amã escreveu um decreto, selou com o anel do rei e mandou levar a todas as cidades.
Dizia que, num dia marcado, todo o povo judeu do reino podia ser atacado.
O que o Mardoqueu fez
Quando o Mardoqueu soube, rasgou as roupas, vestiu pano de saco e foi chorar nas ruas.
Nas cidades, entre os judeus, havia jejum, choro e lamento.
A notícia chegou até a Ester, pelas moças que serviam no palácio. Ela, sem entender, mandou uma roupa nova para o primo.
Ele recusou.
Em vez disso, mandou de volta uma cópia do decreto e um recado:
— Você precisa falar com o rei. Peça a ele que ajude o seu povo.
O medo da Ester
Ester respondeu com franqueza.
Mandou dizer ao primo que, naquele reino, havia uma lei: quem entrasse na sala do trono sem ser chamado podia ser morto, a não ser que o rei estendesse o cetro dourado em sinal de perdão.
E ela estava sem ser chamada pelo rei fazia mais de trinta dias.
Era perigoso. Era muito, muito perigoso.
Mardoqueu mandou outro recado, e é esse recado que ficou famoso:
— Se você ficar calada agora, o socorro virá de outro lugar para o seu povo. Mas quem sabe se não foi justamente para um momento assim que você chegou a ser rainha?
A decisão
Ester ficou quieta um bom tempo.
Depois mandou dizer ao Mardoqueu:
— Reúna todos os judeus da cidade. Que jejuem por mim três dias e três noites. Eu e as minhas moças vamos fazer o mesmo. Depois eu vou até o rei, mesmo sem ser chamada.
E ela acrescentou:
— Se eu tiver que morrer, morrerei.
O terceiro dia
No terceiro dia, Ester colocou o manto de rainha e foi.
Atravessou os corredores do palácio, de cabeça erguida, passando por guardas, colunas e tapeçarias, com o coração batendo forte.
Chegou ao pátio interno e parou na entrada da sala do trono.
O rei estava sentado lá no fundo, no trono.
Ele olhou para ela.
Houve um silêncio longo, daqueles que dão para ouvir a respiração.
Aí o rei estendeu o cetro dourado na direção dela.
O convite
Ester se aproximou e tocou na ponta do cetro.
— O que você quer, rainha Ester? — perguntou o rei. — Pode pedir até metade do meu reino, que eu darei.
Ela não pediu logo.
Ela, com muita calma, disse só isto:
— Se parecer bem ao rei, venha hoje ao banquete que eu preparei. E traga o Amã.
O rei concordou.
E, no banquete, de novo, ela não disse o que queria. Pediu que eles voltassem no dia seguinte.
A verdade
No segundo banquete, enfim, o rei perguntou de novo.
E a Ester se levantou.
— Se o rei me favoreceu, que me conceda a minha vida e a vida do meu povo. Porque fomos vendidos para ser destruídos.
O rei ficou perplexo.
— Quem ousou fazer isso?
Ester virou o rosto e apontou, olhando bem nos olhos do homem que estava sentado à mesa.
— O inimigo é este: o Amã.
O decreto novo
O rei levantou furioso e saiu para o jardim, para esfriar a cabeça.
Quando voltou, já não havia dúvida. Amã tinha feito o rei assinar a destruição do povo da própria rainha, sem que ele soubesse.
O plano de Amã desmoronou. O rei tirou dele o cargo e o poder, e Amã nunca mais pôde fazer mal a ninguém.
Mas havia um problema: uma ordem do rei não podia ser desfeita.
Então o rei fez uma coisa inteligente: autorizou o Mardoqueu a escrever uma segunda ordem, com o mesmo anel, dizendo que os judeus podiam se defender no dia marcado.
E eles estavam preparados.
O fim da história
Os judeus foram salvos.
O Mardoqueu foi nomeado para o cargo de maior confiança do rei, o que antes era do Amã, e passou a servir o reino com justiça.
E aquele dia que seria de tristeza virou de festa. Foi chamado de Purim, e até hoje o povo judeu comemora com a leitura da história, fantasias, muito barulho toda vez que se ouve o nome de Amã, presentes de comida para os amigos e ajuda para quem precisa.
Ester continuou sendo a rainha.
Ela não era a mais forte, nem a mais poderosa.
Mas foi quem teve coragem de entrar num salão onde ninguém podia entrar sem ser chamado.
Esta história está na Bíblia, no livro de Ester. Para o texto ficar adequado à hora de dormir, a parte final, com o castigo de Amã e as batalhas, foi resumida.
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