Dante, o Dragão que Soprava Bolhas

O Pico das Brasas era a montanha mais quente e barulhenta de todo o reino. Lá, os dragões passavam os dias afiando as garras nas pedras, batendo suas asas escamosas e, claro, praticando o Sopro de Fogo. Para um dragão, o fogo era tudo. Quanto maior a labareda, mais respeito ele ganhava.
E então, havia o pequeno Dante.
Dante era um dragãozinho de escamas vermelhas que parecia ter nascido para ser feroz. Ele tinha chifrinhos pontudos, uma cauda com espinhos e uma carinha de bravo que ele treinava todos os dias na frente do lago. Mas Dante guardava um segredo frustrante no fundo da garganta.
No dia do Grande Torneio dos Filhotes, todos os pequenos dragões deviam demonstrar seu fogo. Quando chegou a vez de Dante, ele estufou o peito, puxou todo o ar que conseguiu, fechou os olhos com força e... FUUUU.
Em vez de um estrondo de chamas, ouviu-se um suave ploc.
Do focinho de Dante, saiu uma enorme e perfeita bolha de sabão. Ela flutuou lentamente pelo ar, refletindo as cores do arco-íris, até estourar no nariz do Ancião da tribo.
A montanha inteira caiu na gargalhada.
— Um dragão de bolhas! — riam os outros filhotes. — O que você vai fazer para nos defender? Lavar os nossos inimigos?
Dante sentiu suas escamas ficarem ainda mais vermelhas de vergonha. Ele correu para se esconder em uma caverna escura, longe das risadas. Ele tentou comer pimentas ardidas, tentou mastigar carvão, mas não adiantava. Seu sopro sempre saía limpo, fresco e cheio de bolhas flutuantes. Ele se sentia o pior dragão da história.
Alguns dias depois, o alarme da montanha soou. Um zumbido terrível ecoou pelo céu. Eram as temíveis Vespas-de-Cinza!
As Vespas-de-Cinza eram insetos gigantes e mágicos que se alimentavam de calor. Elas voaram como uma nuvem escura em direção aos ninhos dos dragões. Imediatamente, o Ancião e os dragões adultos voaram para a linha de frente, abrindo suas bocas e lançando jatos de fogo poderosos contra o enxame.
Mas aconteceu um desastre.
Como as vespas se alimentavam de calor, o fogo não as machucava. Pelo contrário! Cada vez que o fogo dos dragões as atingia, as vespas ficavam maiores, mais fortes e mais furiosas. Em pouco tempo, os dragões estavam exaustos e as vespas estavam quase alcançando os ninhos onde ficavam os ovos.
— Parem de cuspir fogo! — gritou o Ancião. — Estamos deixando elas mais fortes!
— Mas o que vamos fazer? — desesperou-se outro dragão. — Fogo é a única arma que temos!
Dante, que assistia a tudo da sua caverna, viu o perigo se aproximando de sua casa. O medo tentou segurá-lo, mas o desejo de proteger sua família foi mais alto. Ele saiu correndo, abriu suas asinhas e voou desajeitado até a frente do enxame gigante.
— Dante! Saia daí! — gritou sua mãe.
O pequeno dragão não deu ouvidos. Ele respirou fundo, estufou o peitinho vermelho o máximo que pôde e soltou um sopro contínuo e poderoso. FUUUUUUUUU!
Milhares, milhões de bolhas de sabão começaram a sair do seu focinho. Eram bolhas de todos os tamanhos, cintilantes e mágicas. A nuvem de bolhas voou em direção às Vespas-de-Cinza.
Quando as vespas, que eram feitas de cinzas e brasas quentes, encostaram na água com sabão das bolhas... Tsssss! A magia refrescante de Dante apagou o calor delas. Uma por uma, as vespas foram ficando presas dentro das grandes bolhas de sabão. Como as bolhas eram muito leves, o vento da montanha simplesmente as levou flutuando para bem longe, em direção ao oceano, onde não fariam mal a ninguém.
A montanha ficou em um silêncio absoluto. As temíveis Vespas-de-Cinza haviam sido derrotadas, não pela força e pelo calor, mas pela suavidade e frescor.
O Ancião voou até Dante. O grande e velho dragão abaixou a cabeça até ficar na altura do filhote.
— Dante, nós fomos tolos. Nós rimos do que era diferente porque achávamos que só o fogo demonstrava força. Hoje, as suas bolhas salvaram o Pico das Brasas.
Os outros filhotes correram para abraçar Dante, maravilhados com o que ele tinha feito. A partir daquele dia, Dante nunca mais tentou comer carvão. Ele descobriu que ser diferente não era um defeito, mas um talento raro. E, nas tardes de verão, o Pico das Brasas tornou-se o lugar mais bonito do reino, cheio de dragões ferozes que, de vez em quando, paravam para estourar as lindas bolhas coloridas do grande herói Dante.
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