Caio e os Barulhos da Noite no Acampamento

4 min de leituraHistorinha para dormir
Caio e os Barulhos da Noite no Acampamento
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O Caio tinha sete anos e uma ideia fixa: dormir numa barraca.

Não na sala, com lençol pendurado nas cadeiras. Numa barraca de verdade, do lado de fora, debaixo do céu.

Ele pediu no Natal. Pediu no aniversário. Pediu em todo café da manhã durante um mês. Até que o tio Beto, que morava num sítio pequeno perto da serra, disse:

— Tá bom. Sábado você vem pra cá. A gente monta a barraca no gramado e dorme lá fora.

O Caio não dormiu direito na sexta de tanta vontade de dormir no sábado.

A barraca

No sábado à tarde, eles montaram a barraca juntos.

Era verde, pequena, com cheiro de lona guardada. O tio Beto ensinou a esticar a base, a encaixar as varetas e a fincar as estacas no chão com uma pedra. O Caio martelou tão forte que uma estaca entortou.

Dentro, eles puseram dois sacos de dormir, dois travesseiros, uma lanterna, um pacote de biscoito e uma garrafa de água.

Depois comeram cachorro-quente na varanda, olharam o sol se esconder atrás da serra, e o céu foi ficando cor-de-rosa, depois roxo, depois azul-escuro.

E aí as estrelas foram aparecendo. Muitas. Muito mais do que na cidade.

— Hora de ir pra barraca — disse o tio Beto.

O Caio foi na frente, correndo.

O primeiro barulho

Dentro da barraca, com a lanterna apagada, estava tudo escuro. Um escuro de verdade, que a cidade não tem.

O Caio se enfiou no saco de dormir. Fechou os olhos.

E ouviu.

Crii. Crii. Crii.

Abriu os olhos.

— Tio. Que barulho é esse?

— Grilo — disse o tio Beto, lá do outro saco de dormir. — Ele esfrega uma asinha na outra. É assim que ele canta.

O Caio ficou escutando. Não era um grilo só. Eram centenas. O gramado inteiro fazia crii.

Tudo bem. Grilo, ele conhecia.

O segundo barulho

Uns minutos depois:

Cróc. Cróc. Cróc-cróc.

— E esse?

— Sapo. Tem um brejinho ali embaixo. Os sapos machos cantam de noite para chamar as namoradas.

— Sério?

— Sério. Cada tipo de sapo tem um canto diferente. Tem sapo que parece martelo batendo em lata. Por isso o nome dele é sapo-ferreiro.

O Caio achou graça. Ficou tentando imaginar um sapo com martelo.

Aí veio um uuuh… uuh, lá longe, grave.

— Coruja — disse o tio, antes de ele perguntar.

O Caio estava começando a gostar daquilo. A noite não era silenciosa. Era cheia de gente.

O terceiro barulho

E então, do alto da cerca, bem perto da barraca, veio um som que fez o Caio gelar.

Era um lamento. Longo, triste, descendo devagar, nota por nota:

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Ô… ô… ô… ô… ô.

Parecia alguém cantando uma música muito triste no escuro.

O Caio sentou no saco de dormir com o coração na garganta.

— Tio. Tio. Tem alguém lá fora.

O tio Beto acendeu a lanterna grande e deu para o Caio uma lanterninha de chaveiro. Não parecia assustado. Parecia contente.

— Vem cá. Vou te mostrar uma coisa. Mas tem que ser bem devagar e bem quietinho.

O pássaro que fingia ser galho

Eles saíram da barraca de pé no chão, na grama molhada de sereno.

O tio Beto apontou a lanterna para o alto de um mourão velho da cerca, um pedaço de tronco quebrado bem na ponta.

— Tá vendo?

O Caio olhou. Só via o mourão.

— Não.

— Olha na pontinha.

O Caio olhou de novo. E de repente, a pontinha do mourão abriu dois olhos enormes e amarelos, que brilharam na luz da lanterna.

O Caio quase caiu para trás.

Não era um pedaço de tronco. Era um pássaro. Cinza e marrom, com as penas iguaizinhas à casca de árvore, pousado bem esticado, reto, parado, fingindo ser a ponta do mourão.

— É um urutau — cochichou o tio. — Tem gente que chama de mãe-da-lua. Durante o dia ele fica assim, parado, e ninguém enxerga ele. É o melhor disfarce da mata. De noite, ele sai para caçar mariposa e canta desse jeito.

O urutau abriu o bico, que era enorme, e cantou de novo.

Ô… ô… ô… ô… ô.

Dessa vez, o Caio não achou triste.

Achou bonito.

O último barulho

Eles voltaram para a barraca. O Caio se enfiou no saco de dormir, mas deixou a portinha um pouco aberta, para ver o céu.

Agora ele sabia o nome de todos.

Crii, o grilo.

Cróc, o sapo.

Uuuh, a coruja.

Ô… ô… ô, o urutau, que fingia ser galho.

Ele ficou escutando os quatro juntos, como se fosse uma orquestra. E os vaga-lumes acendiam e apagavam na grama, feito plateia de lanterninha.

— Tio — disse o Caio, já quase dormindo. — A noite é barulhenta, né?

— É — disse o tio Beto. — A noite é de quem acorda quando a gente dorme.

Teve mais um barulho, bem pertinho, que o Caio não reconheceu. Era grave, compassado, lento.

Rrrrr… rrrrr…

Era o tio Beto roncando.

O Caio riu baixinho, puxou o saco de dormir até o queixo e dormiu também, a primeira noite inteira debaixo do céu.

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