Bento e a Fortaleza de Pedra

No Rio dos Pinheiros Prateados, o som mais comum era o crac-crac-crac de dentes afiados trabalhando. A Colônia dos Castores era famosa por ter os melhores lenhadores da floresta. Assim que um filhote nascia, ele ganhava um pequeno galho para começar a praticar. A regra era simples: um bom castor tem dentes fortes e constrói com madeira.
Mas o pequeno Bento era diferente.
No dia em que a professora Castora entregou o primeiro galho de carvalho para a turma de filhotes, todos começaram a roer com vontade. Quando chegou a vez de Bento, ele abriu a boca, mordeu a casca da árvore e... Ai!
Uma pontada de dor terrível atravessou seus dentes da frente. Ele soltou o galho imediatamente, com os olhos cheios de lágrimas. Seus dentes eram incrivelmente sensíveis.
— O que foi, Bento? — riu um dos filhotes maiores. — O galho é muito duro para a sua boquinha?
Bento tentou de novo no dia seguinte com um galho de salgueiro, que era mais macio, mas a dor voltou. Ele simplesmente não conseguia roer madeira. Envergonhado, ele começou a se afastar da colônia. Enquanto todos trabalhavam na grande represa, cortando troncos pesados, Bento ficava nas águas rasas, triste e solitário.
Para passar o tempo, ele começou a brincar com as pedras do fundo do rio. Elas eram lisas, redondas e frias. Bento não precisava mordê-las; ele usava suas patinhas. Ele logo percebeu que tinha um dom especial para entender os formatos das pedras. Ele sabia exatamente qual pedra redonda se encaixava no espaço de uma pedra quadrada. Ele começou a construir pequenos castelos de pedra na beira do rio, que eram tão perfeitos e firmes que nem a correnteza conseguia derrubar.
Ainda assim, ele escondia suas construções. Afinal, castores de verdade não brincam com pedras.
O inverno chegou ao fim, e com ele veio o Grande Degelo. A neve das montanhas derreteu muito rápido, e o Rio dos Pinheiros Prateados começou a encher. A água subiu, subiu e ficou furiosa. A correnteza virou um monstro marrom e barulhento.
A represa de madeira da colônia começou a estalar. Crec... Crac!
— A água está muito forte! — gritou o Líder da colônia. — Os galhos estão quebrando! Tragam mais madeira, rápido!
Os castores correram para cortar mais árvores e jogar os troncos na água para tapar os buracos. Mas a correnteza estava tão rápida que levava a madeira embora antes que eles conseguissem prendê-la. A represa estava prestes a se romper, e a casa de todos seria levada pela enchente.
Bento, que observava tudo tremendo na margem, olhou para a água enfurecida. A madeira estava flutuando e indo embora. Mas ele sabia o que não flutuava. Ele sabia o que era pesado o suficiente para desafiar o rio.
— Pedras! — gritou Bento, correndo para o meio da confusão. — Precisamos usar pedras!
— Pedras não, Bento! Nós somos castores, nós usamos madeira! — gritou o Líder.
— A madeira está sendo levada! Confie em mim! — pediu o pequeno castor, com uma voz tão firme que surpreendeu até a si mesmo.
Sem esperar resposta, Bento mergulhou nas águas rasas e empurrou uma grande pedra cinzenta. Ele rolou a pedra até o maior buraco da represa. Pluft! A pedra afundou e ficou presa exatamente no espaço vazio. A água bateu nela, mas a pedra não se moveu um milímetro.
Os outros castores pararam, maravilhados.
— Peguem as pedras grandes! — ordenou o Líder. — Façam o que o Bento mandar!
Pela primeira vez na vida, Bento sentiu que pertencia àquele lugar. Ele correu de um lado para o outro, apontando com as patinhas.
— Aquela pedra chata ali! Agora aquela redonda para travar o tronco! Rápido!
Trabalhando juntos, a colônia carregou pedras pesadas enquanto Bento as encaixava como um quebra-cabeça perfeito. Em poucos minutos, eles construíram uma barreira de pedras misturada com os troncos de madeira. A água rugiu, empurrou e bateu com toda a força, mas a nova represa, agora pesada e impenetrável, não cedeu. A colônia estava a salvo.
Quando o nível da água finalmente baixou e a calma voltou ao rio, o Líder da colônia chamou todos os castores para uma reunião. Ele caminhou até Bento e colocou a pata em seu ombro.
— Nós sempre acreditamos que o valor de um castor estava apenas em seus dentes — disse o Líder, em voz alta para todos ouvirem. — Mas o Bento nos ensinou que a nossa verdadeira força está na nossa inteligência e no nosso coração. Se não fosse pelo Mestre das Pedras, não teríamos mais uma casa hoje.
Bento abriu um sorriso enorme (com cuidado para não bater os dentinhos sensíveis). Ele nunca mais se sentiu o pior castor do mundo. A colônia mudou suas regras, e Bento se tornou o Primeiro Castor Engenheiro de Pedras, provando que, mesmo quando você não consegue fazer as coisas do jeito que todo mundo faz, o seu jeito único pode ser exatamente o que o mundo precisa para não desmoronar.
O Que Achou da Historinha?
Toque nas estrelas para avaliar
O que achou desta história?
Comentários (0)
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a comentar!



