A Tartaruga que Tinha Pressa

No Bosque das Sombras Longas, o tempo parecia passar de um jeito diferente. As folhas caíam das árvores fazendo uma dança lenta no ar, o riacho murmurava uma canção de ninar eterna e os animais viviam sem olhar para o relógio.
Bem, quase todos os animais.
Havia uma exceção. Uma pequena mancha verde que corria (ou tentava correr) de um lado para o outro, sempre afobada. Seu nome era Tuca.
Tuca era uma tartaruga, mas ela se recusava a aceitar sua natureza. Enquanto as outras tartarugas levavam uma hora para comer uma folha de alface, mastigando com a tranquilidade de quem saboreia um banquete, Tuca engolia a sua em três mordidas, engasgava, tossia e já perguntava: — O que vamos fazer agora? Vamos! Rápido! O dia está passando!
Tuca tinha um sonho impossível: ela queria ser rápida como Zisco, o beija-flor, ou veloz como Ligeiro, o esquilo. Ela achava que ser lenta era um defeito. — Se eu ando devagar, eu perco coisas! — dizia ela para sua avó, a Dona Casca, uma tartaruga centenária que tinha musgo crescendo no casco de tão parada que ficava.
— Minha querida — dizia a avó, com uma voz que parecia mel escorrendo. — Quem corre muito vê apenas vultos. Quem anda devagar vê o mundo.
— Conversa de quem não tem pressa! — resmungava Tuca, ajeitando uma pequena mochila nas costas. Dentro da mochila, ela carregava um relógio de areia (uma ampulheta) que havia encontrado perdido por um humano. Ela vivia virando a ampulheta, obcecada com a areia caindo.
Certa manhã, uma notícia alvoroçou o bosque. O Grande Cacto da Montanha de Pedra iria florescer. Isso acontecia apenas uma vez a cada dez anos, e a flor durava apenas durante o pôr do sol daquele dia.
Todos os animais começaram a se preparar. Era uma caminhada longa, subindo a colina até o topo da montanha. — Temos que sair agora! Já! Imediatamente! — gritou Tuca, virando sua ampulheta. — Se não corrermos, vamos perder a flor!
— Tuca, acalme-se — disse o Sr. Caracol, que estava terminando de polir sua concha. — O sol acabou de nascer. Temos o dia todo.
— Vocês são muito moles! Eu vou na frente! Vou guardar o melhor lugar! — Tuca bufou, ajustou a mochila e disparou.
Bem, “disparou” é modo de dizer. Ela começou a andar o mais rápido que suas pernas curtas permitiam. Ploc, ploc, ploc. Ela suava. O coração batia forte. Ela não olhava para os lados, apenas para a trilha à sua frente e para a areia caindo em seu relógio.
No caminho, ela passou por Zisco, o beija-flor. Ele estava parado, pairando sobre uma orquídea roxa. — Sai da frente, Zisco! Estou com pressa! — gritou Tuca. — Olá, Tuca! — respondeu ele, alegre. — Já viu como essa orquídea brilha quando o orvalho bate nela? — Não tenho tempo para orvalho! Tenho uma flor de cacto para ver! — e continuou sua marcha forçada.
Mais à frente, ela encontrou Ligeiro, o esquilo, que estava deitado num galho comendo uma noz. — Tuca! — chamou ele. — Venha provar essa noz! É a mais doce da estação! — Sem tempo para lanches, Ligeiro! O tempo voa! — respondeu Tuca, sem parar.
Tuca sentia suas pernas doerem. Seu casco parecia pesar uma tonelada. Mas ela não parava. “Tenho que chegar primeiro. Tenho que ser rápida”, repetia para si mesma.
A subida da Montanha de Pedra começou. O caminho era íngreme e cheio de pedras soltas. Tuca estava tão focada em ser rápida que não prestava atenção onde pisava. Ela queria cortar caminho, sair da trilha suave que as outras tartarugas usavam e subir pelas pedras, como faziam as cabras.
— É um atalho — pensou ela. — Vou ganhar dez minutos!
Ela tentou subir numa pedra alta. Esticou a pata, puxou o corpo, mas o casco era pesado e a pedra era lisa. VUPT!
Tuca escorregou. Ela girou no ar e caiu de costas num buraco entre duas raízes de árvore. Tóim.
Tuca ficou de barriga para cima. Ela balançou as patas freneticamente, tentando se virar. Empurrou para a direita, empurrou para a esquerda. Nada. O casco estava encaixado perfeitamente no buraco. Ela estava presa.
— Não! Não! — gritou ela. — Eu não posso ficar presa! A flor vai abrir! O tempo está passando!
Ela olhou para sua ampulheta, que tinha caído ao seu lado. A areia continuava descendo, implacável. Tuca lutou por dez minutos, vinte minutos. O sol começou a subir no céu, indicando o meio-dia.
Exausta e sem forças, Tuca parou de se debater. E começou a chorar. — Eu falhei. Sou uma tartaruga lenta e desajeitada. Vou perder tudo.
Foi então, no silêncio de sua derrota, que Tuca notou algo. Deitada de costas, ela tinha uma visão perfeita da copa das árvores. Ela viu como a luz do sol atravessava as folhas, criando desenhos de renda dourada. Ela viu uma lagarta tecendo um casulo com uma paciência infinita. Ela ouviu o som do vento assobiando uma melodia nas frestas das rochas, um som que ela nunca ouviria se estivesse correndo e fazendo barulho com seus passos apressados.
— É bonito… — sussurrou ela, surpresa.
O tempo passou. A tarde começou a cair. A ansiedade de Tuca foi substituída por uma estranha calma. Ela não podia sair dali, então decidiu apenas… estar ali.
De repente, ela ouviu vozes. Vozes lentas e ritmadas. — Um passo… e respira. Outro passo… e admira.
Era a Vovó Casca e o Sr. Caracol! Eles vinham subindo pela trilha suave, conversando e rindo. — Vovó! — gritou Tuca. — Estou aqui!
A Vovó Casca se aproximou devagar. Ela olhou para Tuca presa no buraco e sorriu com ternura. — Ah, minha pequena apressadinha. Tentou pegar o atalho das cabras, não foi? — Eu queria chegar logo — soluçou Tuca. — Agora está tarde. Vocês precisam me desvirar e correr, senão vão perder a flor!
— Correr? — riu o Sr. Caracol. — Minha querida, olhe para o céu.
Tuca olhou. O céu estava começando a ficar alaranjado. Com a ajuda da bengala da Vovó e um empurrãozinho do Sr. Caracol, Tuca foi desvirada e colocada de pé.
— Vamos — disse a Vovó. — Ainda falta um trecho.
— Mas se andarmos no seu ritmo, não vai dar tempo! — desesperou-se Tuca.
— O meu ritmo é o ritmo que minhas pernas aguentam, Tuca. E é o ritmo que me permite chegar inteira. Confie em mim.
Tuca não tinha escolha. Suas pernas doíam do tombo. Ela foi obrigada a andar no ritmo da Vovó. Passo… pausa. Passo… pausa. E, pela primeira vez na vida, Tuca olhou ao redor enquanto andava. Ela viu que as pedras da montanha brilhavam como cristais. Ela sentiu o cheiro de alecrim silvestre que crescia na beira do caminho. Ela conversou com o Sr. Caracol e descobriu que ele sabia piadas muito engraçadas.
A caminhada não foi cansativa. Foi… agradável.
Quando chegaram ao topo da Montanha de Pedra, o sol estava tocando a linha do horizonte. O céu era uma pintura de roxo, rosa e fogo. E, naquele exato momento, como se estivesse esperando por eles, o Grande Cacto estremeceu.
Suas pétalas brancas e aveludadas começaram a se abrir devagar. Não foi um estouro rápido. Foi um movimento lento, gracioso, milímetro por milímetro, revelando um centro dourado e perfumado.
Tuca prendeu a respiração. Se ela tivesse chegado duas horas antes, teria ficado esperando no sol quente, impaciente e entediada. Se tivesse chegado correndo e cansada, estaria ofegante demais para apreciar. Mas ela chegou agora. No momento exato. No ritmo certo.
Zisco, o beija-flor, apareceu voando. — Uau! Chegamos juntos! — disse ele. — Eu vim voando rápido, mas parei em tantas flores no caminho que acabei demorando.
Ligeiro, o esquilo, também estava lá, terminando sua noz.
Todos estavam lá. Os rápidos e os lentos. Cada um chegou no seu tempo, mas todos compartilhavam o mesmo momento mágico.
Tuca olhou para a Vovó Casca, que tinha os olhos fechados, sentindo o perfume da flor. — Vovó? — chamou Tuca. — Sim, querida? — Eu entendi. A música tem notas rápidas e notas longas. Se a gente tocar tudo rápido, vira barulho.
A Vovó sorriu e acariciou a cabeça de Tuca. — Exatamente. O seu ritmo é o seu poder, Tuca. Não tente ser um beija-flor. Seja a melhor tartaruga que você puder ser.
Tuca pegou sua mochila. Ela tirou a ampulheta de dentro. Ela não a jogou fora, pois era um objeto bonito. Mas ela a deitou de lado, na grama. Quando a ampulheta está deitada, a areia não cai. O tempo para.
Tuca sentou-se ao lado da avó e do Sr. Caracol. O sol se pôs, a flor brilhou sob a primeira estrela da noite e Tuca suspirou, feliz. Ela não tinha pressa de voltar para casa. Afinal, o caminho de volta também seria cheio de coisas bonitas para ver, e ela tinha a vida inteira para chegar lá.
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