A Sopa de Pedra

5 min de leituraHistorinha para dormir
A Sopa de Pedra
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Numa estrada comprida, no fim de uma tarde fria, um viajante caminhava devagar.

Ele andava havia três dias e tinha comido só um pedaço de pão duro.

Tinha uma mochila velha nas costas, um casaco remendado, uma colher de pau no bolso e uma panela de ferro pendurada na cintura, que batia no quadril a cada passo.

Quando chegou ao topo de uma colina, viu lá embaixo uma aldeia pequena, de casas de pedra, com fumaça saindo das chaminés.

E pensou: ali tem comida.

A primeira casa

O viajante bateu na primeira porta.

Abriu uma senhora, olhando desconfiada pela fresta.

— Boa tarde. Eu estou viajando faz três dias e não comi nada. A senhora teria um pedaço de pão para dividir?

— Não tenho nada — disse ela, depressa demais. — Ano ruim. Quase nada nasceu.

E fechou a porta.

Ele bateu na segunda casa. Ninguém tinha nada.

Na terceira, disseram que estavam esperando visita. Na quarta, que a filha estava doente. Na quinta, que a casa estava sem fogo.

A aldeia inteira parecia ter se combinado.

Mas o viajante, que já tinha passado por muitas aldeias, sabia que isso não era maldade.

Era medo. Era o medo de quem passou fome um dia e agora guarda tudo.

A ideia

Ele sentou na praça, no meio da aldeia, e ficou pensando.

Depois fez uma coisa que chamou a atenção de todo mundo: tirou a panela da cintura, encheu de água no poço e acendeu uma fogueira bem no meio da praça.

As janelas começaram a se abrir.

Um menino saiu correndo de uma casa e parou a poucos passos, olhando.

— O que o senhor está fazendo?

— Sopa de pedra — disse o viajante.

— Sopa de... pedra?

— A melhor sopa do mundo. Só falta a pedra.

Ele olhou em volta, achou uma pedra lisa do tamanho de um punho e lavou bem na água do poço.

Colocou dentro da panela.

O primeiro curioso

Quando a água começou a ferver, já tinha uma meia dúzia de moradores olhando de longe.

O viajante mexia a panela com a colher de pau, devagar, cheirava o vapor e dizia, só para si, alto o bastante para os outros ouvirem:

— Hmm. Está ficando ótima. Só falta um tempero.

Uma mulher não aguentou.

— Pedra? Sopa de pedra? Isso existe?

— É um segredo antigo da minha família — disse ele, sério. — Mas a sopa fica mesmo muito melhor com um pouquinho de sal. A senhora teria?

A mulher pensou. Pensou mais um pouco.

Voltou para casa e trouxe um punhado de sal.

A cenoura

— Obrigado — disse o viajante, jogando o sal na panela. — Ótimo. Agora está quase perfeita. Se tivesse uma cenoura, ficava de rainha.

Um homem que estava por ali coçou o queixo.

— Eu tenho umas cenouras que sobraram. Não é muito.

— Qualquer uma serve — disse o viajante.

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O homem trouxe duas cenouras.

E assim foi.

Um por um

Um menino trouxe uma batata.

Uma senhora, que primeiro tinha dito que não tinha nada, voltou com uma cebola.

Alguém trouxe repolho. Outro, um pedaço de toucinho. Outro, alho, cheiro-verde, uma folha de louro.

Cada um falava, ao chegar, que era pouca coisa, que só tinha aquilo, que nem sabia se servia.

E o viajante agradecia, sempre com o mesmo jeito:

— Perfeito! Era exatamente isso que faltava.

Ninguém percebeu que, a cada coisa que alguém colocava na panela, mais gente ficava curiosa para saber como a sopa ia ficar.

A mesa

A fogueira ficou grande.

Alguém trouxe uma mesa comprida, e outro trouxe bancos. Uma mulher pôs uma toalha. Uma criança trouxe tigelas.

E, de repente, a praça inteira tinha virado um lugar de festa.

Quando a sopa ficou pronta, o viajante provou, fechou os olhos, e disse com o ar mais sincero do mundo:

— Está perfeita. Nunca fiz uma sopa de pedra tão boa.

Serviu a primeira tigela para a velha que tinha batido a porta na cara dele, e a velha tomou a sopa com os olhos marejados.

Ela estava deliciosa.

O jantar

Todo mundo comeu.

Uns comeram duas vezes. As crianças repetiram três. Alguém trouxe pão, que ninguém sabia que ainda havia. Alguém trouxe queijo. Alguém trouxe uma jarra de suco de uva, que guardava para uma ocasião especial.

Aquela era a ocasião.

E a aldeia, que passou a tarde inteira dizendo que não tinha nada, passou a noite inteira rindo à mesa, comendo e conversando.

Quando todo mundo estava de barriga cheia, um velho levantou, olhou a panela e perguntou:

— E a pedra? Dá para comer também?

O viajante riu.

— Não, a pedra eu guardo. Serve para a próxima aldeia.

De manhã

De manhã, o viajante arrumou a mochila.

A aldeia inteira veio se despedir. Ele ganhou um pão, um queijo e um pedaço de linguiça.

Uma senhora pôs a mão no braço dele.

— Obrigada. A gente tinha esquecido.

— Esquecido o quê?

— Que, quando todo mundo põe um pouquinho, sobra para todo mundo.

O viajante sorriu, pôs a pedra de volta na panela e saiu pela estrada.

Atrás dele, a aldeia ficou conversando.

E, naquele inverno, aconteceu uma coisa que antes ninguém ali teria imaginado: toda sexta-feira, alguém acendia uma fogueira na praça e cada um trazia um pouco do que tinha.

Chamavam de Sopa de Pedra.

Mas a pedra, na verdade, nunca fez falta.

Este é um conto popular que existe em muitos países, sobretudo na Europa, com nomes diferentes: "Soupe au caillou" na França, "Sopa de pedra" em Portugal, "sopa de prego" na Escandinávia. Em Almeirim, em Portugal, existe até um prato com esse nome. Ninguém sabe quem a contou primeiro.

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