A Respiração do Vô Chico

A Manu tinha sete anos e uma cabeça que não desligava.
Era assim: ela deitava, fechava os olhos, e a cabeça começava.
Lembrava a prova de sexta. Lembrava a amiga que não falou com ela no recreio. Lembrava um sonho esquisito da semana passada. Lembrava que tinha esquecido de guardar a bicicleta.
Quanto mais ela tentava não pensar, mais pensava.
A casa do Vô Chico
Naquele fim de semana, a Manu ficou na casa do Vô Chico, na cidadezinha da praia.
A casa era simples, com chão de cimento queimado, cortina leve e cheiro de café mesmo à noite. O quarto dela tinha uma cama de solteiro com coberta de retalhos e uma janela que dava para o quintal.
Às nove, o Vô Chico apagou a luz grande e deixou só a lamparina.
— Boa noite, Manu.
— Boa noite, vô.
E a cabeça começou.
Quase meia-noite
Muito tempo depois, o Vô Chico passou pelo corredor para beber água e viu um brilho de olho aberto no quarto.
Ele parou na porta.
— Ué. Não dormiu?
— Não consigo — disse a Manu. — Minha cabeça não para.
O Vô Chico entrou e sentou na beirada da cama, que rangeu.
Ele foi pescador a vida inteira. Tinha a mão grande, grossa, com a pele engrossada da corda.
— Eu conheço isso — disse ele. — Cabeça que não para é que nem mar mexido. Não adianta mandar ficar quieto. Só piora.
— E o que a gente faz?
— A gente espera. Mas esperando direito.
O jeito dos pescadores
— Quando eu era moço — disse o Vô Chico —, a gente saía de madrugada e às vezes tinha que ficar parado, esperando a maré virar. Duas, três horas paradas, de noite, no meio do mar.
— Que chato.
— Chatíssimo. E aí um pescador velho me ensinou uma coisa. — Ele bateu de leve na coberta. — Põe a mão aberta na barriga.
A Manu pôs.
— Agora puxa o ar pelo nariz, devagarinho, e vê se a sua mão sobe. Se subir a barriga, tá certo. Se subir só o peito, tenta de novo, mais devagar, deixando o ar descer mais fundo.
Ela tentou. Na primeira vez subiu o peito. Na segunda, a barriga.
— Isso. Agora a gente conta.
Um, dois, três, quatro
— Puxa o ar contando até quatro — disse o vô, e foi contando com os dedos, bem devagar. — Um… dois… três… quatro.
A Manu puxou.
— Agora solta contando até seis. Bem devagar, como se estivesse assoprando uma vela sem deixar ela apagar.
— Por que mais tempo pra soltar?
— Porque é soltando que o corpo se acalma. Puxar acorda, soltar embala. — Ele sorriu. — Quem descobriu isso foi um pescador que não sabia ler.
Eles fizeram juntos.
Puxa: um, dois, três, quatro.
Solta: um, dois, três, quatro, cinco, seis.
A cabeça ainda falando
Na terceira vez, a cabeça da Manu voltou a falar da prova de sexta.
— Vô, eu tô pensando de novo.
— Vai pensar mesmo — disse ele, sem se abalar. — Pensamento não é convidado, ele entra sem bater. Você não tem que expulsar. Só volta pra contagem. Quantas vezes precisar.
— E se eu voltar cem vezes?
— Aí você contou cem vezes. Está ótimo.
A Manu achou aquilo estranho e bom ao mesmo tempo. Não precisava brigar com a própria cabeça. Só precisava voltar.
Puxa: um, dois, três, quatro.
Solta: um, dois, três, quatro, cinco, seis.
O quintal lá fora
Aos poucos, ela foi percebendo os barulhos de fora.
O vento passando na cortina. Um cachorro que latiu longe e parou. O mar, que dali não dava para ver, mas dava para ouvir, indo e voltando, num ritmo parecido com o da respiração dela.
Puxa. Solta.
O corpo foi ficando pesado. Primeiro as pernas, depois os braços, depois os ombros, que estavam levantados e desceram sem ela mandar.
A mão na barriga subia e descia sozinha.
Contagem embolada
Lá pelas tantas, a contagem começou a embolar.
Um… dois… quatro… seis…
A Manu perdeu a conta e não se importou.
O Vô Chico, que estava contando com os dedos, percebeu que a respiração dela tinha ficado comprida e funda, daquele jeito que só acontece quando a pessoa dorme.
Ele parou de contar.
Ajeitou a coberta de retalhos no ombro dela, baixou a lamparina até virar um pontinho e saiu na ponta dos pés, fechando a porta devagar.
No dia seguinte
De manhã, a Manu acordou com cheiro de café e de pão na chapa.
Ela entrou na cozinha e sentou na cadeira de sempre.
— Dormiu? — perguntou o Vô Chico, sem levantar os olhos da xícara.
— Dormi. Nem lembro da hora.
— Pois é.
Ela ficou pensando um pouco, balançando as pernas debaixo da mesa.
— Vô. Isso funciona em casa também? Sem o senhor contando?
O Vô Chico deu aquele sorriso devagar de quem já sabia que a pergunta vinha.
— Funciona em qualquer lugar. A conta é sua, a barriga é sua e o ar é de graça.
Para quem for tentar
Se a sua cabeça também não parar hoje à noite, você pode fazer igual à Manu.
Põe a mão na barriga.
Puxa o ar pelo nariz contando devagar: um, dois, três, quatro.
Solta pela boca contando: um, dois, três, quatro, cinco, seis.
Se o pensamento voltar, não briga com ele. Só volta a contar.
E a contagem é sua: pode ser mais rapidinha, do jeito que for confortável. Isso não é para forçar. Se der tontura ou faltar ar, é só parar e respirar normal.
Puxa… e solta.
Boa noite.
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