A Raposinha Mila e a Máquina Voadora

Mila não era uma raposa comum. Enquanto as outras raposinhas passavam as tardes brincando de esconde-esconde nos arbustos, Mila estava sempre com os pelos sujos de graxa de frutinhas, usando um par de óculos de proteção feitos com cascas de nozes. Sua casa, no oco de um grande carvalho, era cheia de engrenagens de madeira, rascunhos em folhas secas e ferramentas inventadas.
O seu maior sonho sempre foi alcançar o céu. Ela ficava horas observando os falcões planarem e pensava: "Se eu construir as asas certas, eu também posso voar!"
Foi assim que nasceu o projeto da Máquina Voadora Número 1.
Mila juntou os maiores galhos que encontrou, amarrou tudo com cipós grossos e colou folhas gigantes usando resina de pinheiro. Quando terminou, a engenhoca parecia formidável. Ela subiu até o galho mais baixo da sua árvore, respirou fundo e pulou.
Zuuuuum... CRASH!
A máquina despencou direto no chão, quebrando-se em dezenas de pedaços de madeira. Mila caiu sentada num monte de folhas secas, tirando um graveto do meio de suas orelhas.
— Que desastre — suspirou a raposinha.
Mas ela não desistiu fácil. No dia seguinte, construiu a Máquina Voadora Número 2. Ela fez as asas menores para ficarem mais rápidas. Subiu na árvore, pulou e...
Zuuuuum... PLOFT!
Dessa vez, ela caiu de bico direto em uma poça de lama. As asas menores não seguraram o vento.
Mila estava exausta e muito triste. Ela chutou uma engrenagem quebrada de lado, tirou os óculos de nozes e sentou-se encostada na árvore, com vontade de chorar.
— Eu nunca vou conseguir. Sou uma raposa, raposas não foram feitas para voar. Eu só sei fazer lixo quebrado.
Foi então que ela ouviu o som de passos lentos arrastando nas folhas. Era o Senhor Barnabé, o texugo mais velho e sábio da floresta. Ele carregava uma pequena lanterna e andava devagar com sua bengala torta.
Barnabé parou em frente à poça de lama e olhou para os pedaços da Máquina Número 2.
— Ora, ora... Vejo que você fez uma descoberta incrível hoje, pequena Mila! — disse o texugo, com um sorriso bondoso.
Mila franziu a testa, limpando a lama do focinho.
— Descoberta? Eu não descobri nada, Senhor Barnabé. Eu só quebrei minhas asas. Falhei de novo.
Barnabé sentou-se ao lado dela, pegando um dos gravetos quebrados.
— Você está olhando para isso do jeito errado, minha jovem. Você não falhou. Você apenas descobriu um jeito excelente de como não construir uma máquina voadora!
A raposinha piscou, confusa.
— Mas os pássaros não caem quando aprendem a voar.
— Ah, eles caem sim! — riu o texugo. — Muitos tropeçam, batem o bico e rolam pela grama. A diferença é que eles prestam atenção ao motivo da queda. Olhe para as suas asas. Por que acha que caiu na lama hoje?
Mila pegou o graveto da mão dele e olhou com seus olhos de inventora.
— As asas da Número 1 eram muito pesadas. As da Número 2 eram muito pequenas, não conseguiram segurar o ar embaixo delas... — Mila começou a falar rápido, os olhos brilhando novamente. — Eu preciso de asas médias, feitas de bambu leve, e uma cauda para dar direção!
— Viu só? — Barnabé bateu a bengala no chão, animado. — Cada erro que você cometeu deixou você mais inteligente. Seus tombos são os seus melhores professores.
Com o coração cheio de esperança, Mila voltou ao trabalho. Ela passou três dias desenhando, medindo e amarrando. A Máquina Voadora Número 3 era diferente de todas as outras. Era leve, tinha o tamanho perfeito e uma cauda feita de penas caídas que ela recolheu pela floresta.
No amanhecer do quarto dia, com o vento soprando a favor, Mila subiu no galho mais alto do carvalho. O Senhor Barnabé estava lá embaixo, observando.
Ela colocou os óculos de nozes, abriu as asas de bambu e saltou.
Ela não ouviu um CRASH nem um PLOFT. Ela ouviu o som maravilhoso do vento passando pelas asas. Fshhhhhhh!
Mila abriu os olhos. Ela não estava caindo. Ela estava planando! Ela voou por cima das árvores, viu o brilho do lago do alto e sentiu a liberdade que sempre sonhou. Ao fazer uma curva no ar, ela acenou para o Senhor Barnabé, que sorria orgulhoso lá embaixo.
Mila finalmente havia alcançado as nuvens, e sabia exatamente o que a levou até lá: não foi apenas a madeira ou as folhas, mas a coragem de errar, aprender e tentar de novo.
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