A Princesa de Botas e a Bruxa dos Espinheiros

O Reino de Cristalina era famoso por suas águas puras e brilhantes. Mas uma manhã, o Rei acordou com um silêncio aterrorizante. As cachoeiras pararam de roncar. Os rios pararam de correr. Da noite para o dia, toda a água do reino havia se transformado em ametista, uma pedra roxa, dura e fria.
O pânico se espalhou. Os peixes estavam presos no cristal e não havia água para beber. Os sábios do rei coçaram suas barbas longas e declararam:
— É a Maldição da Seca Petrificada! A única cura é a pétala da Lótus do Sol, que cresce no topo da Montanha dos Ventos. Mas o caminho é impossível!
Enquanto os cavaleiros choramingavam sobre a dificuldade da missão, a Princesa Íris já estava no estábulo. Ela não usava vestido de baile; usava calças confortáveis, botas de couro enlameadas e levava uma corda com gancho na cintura. Íris não esperava por príncipes montados em cavalos brancos. Ela montou no seu próprio cavalo malhado e partiu em disparada rumo à Floresta Escura.
Lá, no meio de árvores retorcidas, vivia Morgana, a Bruxa dos Espinheiros. Lendas diziam que ela transformava intrusos em sapos. Mas Íris não tinha tempo para lendas. Ela bateu na porta da cabana torta com força.
A porta se abriu com um estrondo, revelando uma velha mulher com um chapéu pontudo e remendado, segurando uma xícara fumegante.
— Quem ousa perturbar o meu silêncio?! — grasnou Morgana, com olhos faiscantes. — Eu vou transformar você em um...
— Um sapo, eu sei. Olá, senhora Morgana — interrompeu Íris, fazendo uma reverência educada, mas apressada. — Nossos rios viraram pedra. Preciso que a senhora me guie até a Montanha dos Ventos.
Morgana piscou, surpresa com a ousadia da garota.
— Uma princesa? Com botas sujas? Volte para o seu castelo, menina. A Montanha dos Ventos é guardada por Quimeras de Pedra. Você seria esmagada em cinco minutos.
— Talvez — disse Íris, sorrindo. — Mas a senhora também está sem água, não é? Percebi que o seu chá está com um cheiro estranho. Fez com água da chuva velha?
A bruxa bufou, ofendida, pois seu chá realmente estava péssimo.
— Argh! Você é muito irritante. Certo! Eu vou com você. Mas não espere que eu carregue a sua mochila!
E assim, a dupla mais estranha do mundo partiu.
O caminho até a montanha foi cheio de perigos. Quando chegaram à Ponte das Ilusões, uma névoa mágica tentou enganá-las. A névoa mostrava um caminho seguro de pedra que, na verdade, era um abismo.
— Pare! — gritou Morgana, jogando um pó verde brilhante no ar. O feitiço da bruxa desfez a névoa, revelando a ponte verdadeira, que era fina e perigosa.
Quando uma das Quimeras de Pedra — leões gigantes com asas de morcego — acordou e bloqueou o caminho rosnando, Morgana preparou uma bola de fogo mágico. Mas antes que ela pudesse lançar, Íris girou sua corda e lançou o gancho, que se prendeu no chifre da estátua. Com um puxão ágil, Íris derrubou a criatura desajeitada no chão.
— Guarde sua magia para depois, Morgana! — gritou a princesa. — Corra!
Morgana sorriu de canto. A garota tinha garra.
Finalmente, elas chegaram ao pico. No centro de um lago congelado em pedra roxa, brilhava a Lótus do Sol. Mas o lago estava cercado por uma fumaça do sono eterno. Quem respirasse aquilo, dormiria para sempre.
— É muito longe, eu não consigo alcançar com o gancho — disse Íris, calculando a distância.
— E a minha magia não é forte o suficiente para afastar essa névoa toda sozinha — resmungou Morgana, apertando o cabo da vassoura.
Elas se olharam. Precisavam trabalhar juntas.
— Eu vou prender a corda em você — disse Íris. — Você usa sua poção de vento para afastar a fumaça só um pouquinho, eu te lanço sobre o lago, você pega a pétala, e eu te puxo de volta com toda a minha força.
— Se você me deixar cair, eu juro que o seu próximo vestido será feito de verrugas! — ameaçou a bruxa.
Íris amarrou a corda na cintura da bruxa. Morgana bebeu a poção de vento, que a fez flutuar. Com um impulso forte, Íris atirou a bruxa pelo ar. Morgana voou sobre a névoa do sono, esticou a mão enrugada e arrancou uma pétala brilhante da Lótus do Sol.
— Puxa, menina, puxa! — gritou a bruxa, quando a névoa começou a engoli-la.
Íris fincou as botas na terra e puxou a corda com toda a sua força de exploradora, caindo para trás e trazendo Morgana a salvo para o chão limpo. As duas caíram na terra, ofegantes, mas segurando a pétala radiante.
As duas voltaram correndo até a nascente do rio principal de Cristalina. Morgana jogou a pétala mágica sobre a ametista. O calor do sol na pétala brilhou, e um barulho maravilhoso de gelo rachando começou a ecoar. A pedra derreteu, voltando a ser água cristalina e rápida. Os peixes voltaram a nadar. O reino estava salvo.
Quando o Rei, chorando de alegria, ofereceu a Morgana sacos de ouro e a chance de morar no castelo, a bruxa fez uma careta.
— Morar em um castelo barulhento? Eu prefiro comer lama. Mas eu aceito um suprimento vitalício de folhas de chá importadas.
A partir daquele dia, Cristalina mudou. As meninas do reino aprenderam que princesas podem (e devem) sujar as botas de vez em quando. E todo domingo à tarde, a Princesa Íris cavalgava até a Floresta Escura para tomar chá com Morgana, provando que grandes aventuras não precisam terminar quando o reino é salvo; elas também podem se transformar em grandes amizades.
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