A Primeira Pescaria do Nando

O avô do Nando pescava desde os nove anos.
O Nando tinha oito, e nunca tinha ido.
Naquelas férias, finalmente ficou combinado: os dois iam sair de barco no rio, na segunda-feira de manhã.
De manhã cedo, avisou o avô. E "cedo", para pescador, quer dizer uma coisa diferente do resto do mundo.
Quatro da manhã
O avô acordou o Nando às quatro.
Estava escuro, estava frio e ele não queria levantar de jeito nenhum.
Mas levantou, comeu meio pão com manteiga em pé na cozinha, vestiu o casaco e foi.
No barracão do quintal, o avô já tinha separado tudo na véspera: duas varas de bambu, uma caixinha de anzol e chumbada, um balde, um pote de minhoca e dois coletes salva-vidas.
— Esse aqui é seu — disse ele, entregando o colete laranja. — Enquanto você estiver no barco, isso fica no corpo. Fechado. Essa é a regra, e ela não muda nem com calor, nem com preguiça, nem porque é raso.
O Nando vestiu. O avô fechou o dele também, e amarrou um apito na alça do colete do neto.
— E a sua avó já sabe a que horas a gente volta. Isso também é parte da pescaria.
O rio no escuro
Eles desceram a trilha com uma lanterna só, o avô na frente.
O barco estava amarrado no mesmo lugar de sempre, batendo de leve na água.
Quando eles saíram, o rio estava liso feito vidro, com uma névoa baixa por cima. Dava para ouvir bicho acordando na mata da margem.
O avô remou devagar até um ponto perto de uns galhos caídos e largou a âncora, que era uma pedra amarrada numa corda.
— Por que aqui?
— Porque peixe gosta de sombra e de lugar com estrutura. Pau caído, raiz, pedra. Peixe não fica no meio do nada.
Como se faz
O avô ensinou tudo sem pressa.
Como passar a minhoca no anzol sem machucar o próprio dedo.
Como soltar a linha com o polegar, para não embolar.
Como segurar a vara com as duas mãos, apontada para a água.
E, principalmente, como ficar quieto.
— Pescaria é noventa por cento esperar — disse o avô. — Quem não aguenta esperar não pesca. Pesca não, incomoda o rio.
As primeiras horas
O sol nasceu.
A névoa foi sumindo e a água virou de cinza para verde.
E não aconteceu nada.
O Nando puxou a linha umas vinte vezes achando que era peixe, e era a água puxando, ou o galho, ou a imaginação.
Ele perguntou se podiam mudar de lugar. O avô disse que não.
Ele perguntou de novo meia hora depois. O avô fez que não com a cabeça, sem tirar os olhos da linha.
Lá pelas oito, o Nando já estava com a bunda doendo, com fome e seriamente arrependido de ter acordado às quatro.
O tranco
Foi quando ele estava distraído, olhando uma garça pescar na margem, que veio o tranco.
A vara dobrou e quase escapou da mão dele.
— Vô! VÔ!
— Segura! Deixa a vara alta! Não puxa com força, não!
O Nando levantou a ponta. A linha correu para um lado, depois para o outro. Ele sentiu o peixe lá embaixo, forte, teimoso, puxando em direção aos galhos.
— Ele vai pros pau! — gritou o avô. — Vira ele! Vira!
O Nando inclinou a vara para o lado contrário, do jeito que o avô mandou, e sentiu o peixe desviar.
Aquilo durou uns dois minutos.
Para ele, pareceu uma hora.
O peixe
Quando o peixe chegou perto do barco, o avô pegou com a mão molhada, com cuidado, e levantou.
Era uma traíra.
Não era enorme. Dava mais ou menos o tamanho do antebraço do Nando. Mas era grossa, escura, com uma boca cheia de dentinhos pontudos, e brilhava no sol.
O Nando ficou de boca aberta.
— Eu peguei.
— Pegou.
Ele quis segurar. O avô deixou, mostrando como: com a mão molhada, segurando atrás da cabeça por causa dos dentes, sem apertar a barriga e sem enfiar o dedo nas guelras.
— E rápido — disse o avô. — Peixe fora da água é que nem gente debaixo d'água. Pouco tempo.
— Por que a mão tem que estar molhada?
— Porque o peixe tem uma camada de limo na pele que protege ele. Mão seca tira esse limo e ele adoece depois.
A decisão
E aí o avô fez uma pergunta que o Nando não esperava.
— E agora? Leva ou devolve?
O Nando olhou para a traíra, que abria e fechava a boca.
— A gente não ia almoçar ela?
— Pode. Essa dá para a gente. — O avô coçou a barba. — Mas eu vou te contar uma coisa, e aí você decide, porque o peixe é seu.
Ele explicou que peixe grande é o que mais bota ovo, e que o rio de hoje não é o rio da infância dele: tinha muito mais peixe antigamente.
— Quando eu era moço, a gente levava tudo. Hoje eu levo um de vez em quando, e devolvo o resto.
O Nando ficou um tempo olhando o bicho na mão.
— Eu quero devolver.
A soltura
O avô ensinou o jeito certo.
Tirou o anzol com cuidado, com um alicatinho.
Depois o Nando abaixou a traíra na água e ficou segurando ela ali, de barriga para baixo, com a cabeça virada para onde a água corria, para a água passar pela guelra.
— Segura até ela querer ir.
Demorou uns segundos.
Então o peixe deu uma rabanada forte e sumiu na água verde, e o Nando ficou com o braço molhado até o cotovelo e um sorriso que não cabia na cara.
A volta
Eles pescaram mais duas horas e não pegaram mais nada.
Voltaram com o balde vazio, o pote de minhoca pela metade e o Nando dormindo sentado no banco do barco, antes mesmo de chegar.
No almoço, foi ovo frito com arroz.
E o Nando contou a história da traíra umas quatro vezes, cada vez com o peixe um pouquinho maior.
Na semana seguinte
Na segunda-feira seguinte, às quatro da manhã, o avô foi acordar o neto.
E encontrou o menino já de pé, de casaco, com o colete salva-vidas vestido e fechado, sentado na beira da cama, esperando.
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