A oração antes de dormir

8 min de leituraHistorinha para dormir
A oração antes de dormir
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O dia de Leo tinha sido comprido. Tão comprido que parecia que o sol tinha demorado horas extras para se pôr. Ele tinha corrido atrás do cachorro no quintal, tinha construído um castelo de blocos que alcançava (quase) o teto, e tinha até ralado o joelho tentando pular uma poça de lama que era maior do que parecia.

Agora, porém, o mundo lá fora estava escuro. A lua, redonda e prateada como uma moeda gigante, espiava pela fresta da cortina azul do quarto de Leo.

A mãe de Leo entrou no quarto, cheirando a sabonete de lavanda. Ela ajeitou os lençóis, deu um beijo na testa do menino — bem em cima de onde o cabelo fazia um redemoinho — e disse: — Hora de desligar os motores, meu pequeno foguete.

Leo se aninhou no travesseiro macio. O corpo estava cansado, “molenga” como gelatina, mas a cabeça… ah, a cabeça de Leo ainda estava a mil por hora. Ele pensava no brinquedo que queria ganhar, no desenho que assistiu e, principalmente, em uma coisa chata que aconteceu à tarde: ele havia brigado com seu amigo Lucas por causa de um carrinho vermelho. Leo tinha puxado o carrinho com força e Lucas tinha chorado.

Aquela lembrança pesava no peito de Leo como uma pedra cinzenta. Ele virou para a esquerda. Virou para a direita. A pedra não saía do lugar.

— Mãe? — chamou ele baixinho, quando ela já estava na porta. — O que foi, querido? — Eu não consigo dormir. Tem muito barulho dentro da minha cabeça. E… eu estou sentindo uma coisa ruim aqui dentro.

A mãe voltou, sentou-se na beirada da cama e sorriu aquele sorriso que parece consertar qualquer coisa quebrada. — Sabe o que é bom para “barulho na cabeça” e “peso no peito”, Leo? Uma conversa. — Com você? — Comigo também. Mas existe alguém que pode resolver isso melhor do que eu. Que tal contarmos tudo para o Papai do Céu? Ele está esperando você dar “boa noite”.

Leo olhou para o teto. — Mas Ele está muito longe, mãe. Ele mora lá nas estrelas. Será que Ele ouve meu sussurro?

A mãe pegou a mãozinha de Leo. — Deus é grande o suficiente para segurar o universo, Leo, mas Ele se faz pequeno o suficiente para caber no seu quarto. A Bíblia diz que Ele está perto de quem o chama. Ele não precisa de telefone, nem de internet. Ele só precisa do seu coração aberto. Feche os olhos e imagine que Ele está sentado aqui, nessa cadeira, pronto para ouvir.

Leo fechou os olhos. Respirou fundo. No começo, viu apenas o escuro das pálpebras. Mas então, ele tentou imaginar. Imaginou uma luz quente, dourada e bondosa.

— Oi, Deus — começou Leo, sussurrando. — Sou eu, o Leo.

O quarto ficou silencioso. Mas não era um silêncio vazio; era um silêncio cheio de paz, como se o ar tivesse ficado mais leve.

— Papai do Céu — continuou Leo, sentindo-se mais corajoso. — Hoje o dia foi legal. Obrigado pelo macarrão do almoço, eu gosto muito de macarrão. Obrigado porque o meu joelho ralado já parou de doer. E obrigado pelo meu cachorro, o Biscoito, mesmo quando ele late alto.

Leo parou. Agora vinha a parte difícil. A parte da “pedra no peito”.

— Deus… eu preciso te contar uma coisa. Eu não fui muito legal hoje. Eu peguei o carrinho do Lucas. Eu queria brincar sozinho e fui egoísta. Ele chorou e eu não pedi desculpas.

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Ao dizer aquilo, Leo sentiu uma lágrima escorrer pelo canto do olho, fazendo cócegas na orelha. — Me desculpa, Senhor. Eu não quero ser um menino que faz os outros chorarem. O Senhor pode me ajudar a ter coragem para falar com o Lucas amanhã? Eu vou emprestar o carrinho para ele o dia todo.

Nesse momento, algo mágico aconteceu. Não houve trovões, nem vozes grossas. Mas Leo sentiu como se a “pedra” em seu peito se transformasse em areia e fosse levada pelo vento. Em seu lugar, entrou um calorzinho gostoso. Ele lembrou de um versículo que aprendeu na escola dominical: “Se confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para nos perdoar”.

Deus não estava bravo. Deus estava feliz pela honestidade de Leo.

— Obrigado por me ouvir — suspirou Leo, agora sorrindo de olhos fechados.

Mas a conversa não tinha acabado. Leo percebeu que orar não era só pedir coisas ou pedir desculpas. Era também cuidar dos outros.

— Papai do Céu, antes de eu dormir, cuida da vovó que está com dor nas costas. Cuida do Lucas também, para ele não ficar triste comigo. E, Deus… a mamãe disse que tem crianças que não têm uma cama quentinha igual à minha. O Senhor pode, por favor, abraçar elas bem forte hoje à noite? Manda anjos para elas, tá bom?

O sono começou a chegar, pesado e doce. As pálpebras de Leo pesavam toneladas.

— Eu vou dormir agora, Deus. O Senhor fica aqui? A Bíblia diz que o Senhor nunca dorme, então… o Senhor pode vigiar meus sonhos? Se eu tiver pesadelo, o Senhor me acorda?

Leo sentiu uma certeza absoluta, uma fé pura que só as crianças têm, de que havia Alguém sentado ao lado de sua cama. Um Guardião que não cochilava. Um Pastor que velava por sua ovelhinha.

— Boa noite, Deus. Eu te amo. Em nome de Jesus, Amém.

— Amém — sussurrou a mãe, que tinha ouvido tudo em silêncio, emocionada.

Ela beijou Leo novamente. O menino já estava quase dormindo, respirando devagar. O quarto parecia blindado contra qualquer mal. Não havia mais medo do escuro, nem culpa pela briga, nem agitação do dia. Havia apenas a Paz que excede todo o entendimento.

Enquanto Leo mergulhava no mundo dos sonhos, ele não sonhou com monstros ou quedas. Ele sonhou que estava em um campo verde, jogando bola com Lucas e com um Homem gentil de vestes brancas que ria e corria com eles.

Lá fora, as estrelas continuavam brilhando, testemunhas silenciosas da conversa mais importante do mundo: a de uma criança com seu Criador. E Deus, que comanda as galáxias e as marés, sorriu naquela noite, porque de todas as músicas do universo, a voz sincera de Leo era a sua preferida.

“Em paz também me deitarei e dormirei, porque só tu, Senhor, me fazes habitar em segurança.” (Salmos 4:8)

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