A Lua que Seguia o Carro

O Tomás tinha seis anos e uma opinião firme sobre a lua.
Ele achava que ela era esperta.
Todo mundo dizia que a lua ficava lá no céu e não ia a lugar nenhum. Mas o Tomás sabia que não era bem assim, porque tinha reparado numa coisa estranha: quando ele andava de carro à noite, a lua andava junto.
Ele ia para a esquerda, a lua ia para a esquerda. Ele ia para a direita, a lua ia para a direita.
Ela acompanhava o carro.
A viagem
Naquele sábado, a família voltava da casa da vó.
Era uma viagem de duas horas, saindo no fim da tarde, quando o sol estava baixo. O pai dirigia, a mãe ia no banco da frente, olhando o celular, e o Tomás, no banco de trás, com o cinto de segurança no assento de elevação e um cobertor no colo.
No começo, ele tentou conversar. Depois tentou brincar de adivinhar placa. Depois cansou.
A luz foi diminuindo.
A estrada ficou mais escura, os postes das cidades foram ficando para trás, e as árvores viraram silhuetas pretas dos dois lados.
E aí, de repente, o Tomás viu.
A lua apareceu
Ela estava baixa, atrás de um morro, enorme e amarela, quase cor de gema de ovo.
O Tomás grudou o rosto no vidro.
— Mãe, a lua!
— Que linda — disse a mãe, olhando por cima do ombro.
O carro fez uma curva, e a lua sumiu atrás de umas árvores.
O Tomás ficou quieto, esperando.
E, na curva seguinte, ela voltou. No mesmo lugar. Do mesmo tamanho.
Ela estava seguindo.
O teste
O Tomás resolveu testar.
Ele ficou olhando para a lua, firme, sem piscar, enquanto o carro passava por uma cerca, uma casa, uma ponte pequena.
A lua continuou lá, sempre no mesmo canto da janela.
Aí o pai diminuiu a velocidade, para fazer uma curva fechada, e o Tomás ficou olhando.
A lua sumiu pelo lado de fora do vidro.
E, quando o carro voltou a seguir reto, ela estava de volta.
— Pai.
— Oi.
— A lua está seguindo a gente.
O pai riu, baixinho.
— Está mesmo, né?
A conversa
— Ela faz isso por quê?
O pai ficou calado um tempo, pensando, com os olhos na estrada.
— Boa pergunta. Você tem alguma ideia?
O Tomás pensou.
— Acho que ela gosta da gente.
— Pode ser.
— Ou ela está com medo de ficar sozinha.
— Também pode ser.
O Tomás ficou olhando o pai pelo retrovisor, esperando uma resposta de verdade.
Mas o pai só sorriu, com os olhos, sem falar nada.
As árvores
Enquanto o carro andava, o Tomás foi reparando em outra coisa.
As árvores e os postes passavam rápido, correndo, um atrás do outro, zum, zum, zum.
As casas, mais longe, passavam mais devagar.
Os morros, lá no fundo, quase não se mexiam.
E a lua, que estava mais longe do que qualquer coisa, parecia não se mexer nada.
Era como se cada coisa tivesse uma velocidade diferente, dependendo do quanto estava perto.
O Tomás percebeu isso sozinho, sem ninguém falar.
E gostou da descoberta.
O sono
Mas o corpo do Tomás estava ficando pesado.
Os olhos fechavam, ele abria, fechava de novo.
O cobertor estava quentinho. O barulho do motor era constante, grave, parecia uma respiração. As luzes da estrada passavam pela janela, uma a uma, e iluminavam o rosto dele devagar.
Ele se encostou no assento, com a cabeça virada para a janela.
A lua ainda estava lá.
— Pai — disse ele, já quase sem voz.
— Oi.
— Não deixa ela ir embora.
— Não vou deixar — disse o pai.
A explicação
O pai olhou pelo retrovisor.
O Tomás estava dormindo, de boca entreaberta, com o rosto virado para a lua.
— Sabe qual é o segredo? — disse o pai, baixinho, só para a mãe ouvir.
— Qual? — perguntou a mãe.
— A lua está tão, mas tão longe, que, por mais que o carro ande, ela quase não muda de posição para quem olha daqui de dentro. Ela não segue ninguém. As árvores passam correndo, e a lua, de tão longe, parece ficar sempre junto da gente.
A mãe sorriu.
— Mas parece que segue.
— Parece.
— E ele nunca vai acreditar que não.
— Não precisa — disse o pai.
A chegada
Quando o carro entrou na garagem, duas horas depois, o Tomás não acordou.
O pai tirou ele do assento com cuidado, com cobertor e tudo, e levou no colo para dentro de casa.
No caminho, passando pela porta, olhou para o céu.
A lua estava lá, mais alta do que antes, amarela e redonda.
Ela nunca tinha seguido ninguém.
Só andava devagarinho pelo céu, tão longe que parecia acompanhar todo mundo, em todo lugar.
Na cama
O Tomás acordou no meio da noite, na cama dele, sem saber como tinha chegado ali.
A janela do quarto estava aberta, e a lua estava lá.
Ele levantou a cabeça, olhou e sorriu.
— Eu sabia — sussurrou.
E voltou a dormir.
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