A Lua que Seguia o Carro

4 min de leituraHistorinha para dormir
A Lua que Seguia o Carro
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O Tomás tinha seis anos e uma opinião firme sobre a lua.

Ele achava que ela era esperta.

Todo mundo dizia que a lua ficava lá no céu e não ia a lugar nenhum. Mas o Tomás sabia que não era bem assim, porque tinha reparado numa coisa estranha: quando ele andava de carro à noite, a lua andava junto.

Ele ia para a esquerda, a lua ia para a esquerda. Ele ia para a direita, a lua ia para a direita.

Ela acompanhava o carro.

A viagem

Naquele sábado, a família voltava da casa da vó.

Era uma viagem de duas horas, saindo no fim da tarde, quando o sol estava baixo. O pai dirigia, a mãe ia no banco da frente, olhando o celular, e o Tomás, no banco de trás, com o cinto de segurança no assento de elevação e um cobertor no colo.

No começo, ele tentou conversar. Depois tentou brincar de adivinhar placa. Depois cansou.

A luz foi diminuindo.

A estrada ficou mais escura, os postes das cidades foram ficando para trás, e as árvores viraram silhuetas pretas dos dois lados.

E aí, de repente, o Tomás viu.

A lua apareceu

Ela estava baixa, atrás de um morro, enorme e amarela, quase cor de gema de ovo.

O Tomás grudou o rosto no vidro.

— Mãe, a lua!

— Que linda — disse a mãe, olhando por cima do ombro.

O carro fez uma curva, e a lua sumiu atrás de umas árvores.

O Tomás ficou quieto, esperando.

E, na curva seguinte, ela voltou. No mesmo lugar. Do mesmo tamanho.

Ela estava seguindo.

O teste

O Tomás resolveu testar.

Ele ficou olhando para a lua, firme, sem piscar, enquanto o carro passava por uma cerca, uma casa, uma ponte pequena.

A lua continuou lá, sempre no mesmo canto da janela.

Aí o pai diminuiu a velocidade, para fazer uma curva fechada, e o Tomás ficou olhando.

A lua sumiu pelo lado de fora do vidro.

E, quando o carro voltou a seguir reto, ela estava de volta.

— Pai.

— Oi.

— A lua está seguindo a gente.

O pai riu, baixinho.

— Está mesmo, né?

A conversa

— Ela faz isso por quê?

O pai ficou calado um tempo, pensando, com os olhos na estrada.

— Boa pergunta. Você tem alguma ideia?

O Tomás pensou.

— Acho que ela gosta da gente.

— Pode ser.

— Ou ela está com medo de ficar sozinha.

— Também pode ser.

O Tomás ficou olhando o pai pelo retrovisor, esperando uma resposta de verdade.

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Mas o pai só sorriu, com os olhos, sem falar nada.

As árvores

Enquanto o carro andava, o Tomás foi reparando em outra coisa.

As árvores e os postes passavam rápido, correndo, um atrás do outro, zum, zum, zum.

As casas, mais longe, passavam mais devagar.

Os morros, lá no fundo, quase não se mexiam.

E a lua, que estava mais longe do que qualquer coisa, parecia não se mexer nada.

Era como se cada coisa tivesse uma velocidade diferente, dependendo do quanto estava perto.

O Tomás percebeu isso sozinho, sem ninguém falar.

E gostou da descoberta.

O sono

Mas o corpo do Tomás estava ficando pesado.

Os olhos fechavam, ele abria, fechava de novo.

O cobertor estava quentinho. O barulho do motor era constante, grave, parecia uma respiração. As luzes da estrada passavam pela janela, uma a uma, e iluminavam o rosto dele devagar.

Ele se encostou no assento, com a cabeça virada para a janela.

A lua ainda estava lá.

— Pai — disse ele, já quase sem voz.

— Oi.

— Não deixa ela ir embora.

— Não vou deixar — disse o pai.

A explicação

O pai olhou pelo retrovisor.

O Tomás estava dormindo, de boca entreaberta, com o rosto virado para a lua.

— Sabe qual é o segredo? — disse o pai, baixinho, só para a mãe ouvir.

— Qual? — perguntou a mãe.

— A lua está tão, mas tão longe, que, por mais que o carro ande, ela quase não muda de posição para quem olha daqui de dentro. Ela não segue ninguém. As árvores passam correndo, e a lua, de tão longe, parece ficar sempre junto da gente.

A mãe sorriu.

— Mas parece que segue.

— Parece.

— E ele nunca vai acreditar que não.

— Não precisa — disse o pai.

A chegada

Quando o carro entrou na garagem, duas horas depois, o Tomás não acordou.

O pai tirou ele do assento com cuidado, com cobertor e tudo, e levou no colo para dentro de casa.

No caminho, passando pela porta, olhou para o céu.

A lua estava lá, mais alta do que antes, amarela e redonda.

Ela nunca tinha seguido ninguém.

Só andava devagarinho pelo céu, tão longe que parecia acompanhar todo mundo, em todo lugar.

Na cama

O Tomás acordou no meio da noite, na cama dele, sem saber como tinha chegado ali.

A janela do quarto estava aberta, e a lua estava lá.

Ele levantou a cabeça, olhou e sorriu.

— Eu sabia — sussurrou.

E voltou a dormir.

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