A Lebre e a Tartaruga

Num campo muito grande, cheio de flores e de caminhos de terra, morava uma lebre.
Ela era a mais rápida de todos os bichos da região.
E sabia disso muito bem.
Todo dia, ela passava pela estrada, rápida como o vento, e gritava:
— Quem vai querer correr comigo? Ninguém? Claro que não! Eu sou a mais veloz de todas!
Os bichos só olhavam e baixavam a cabeça.
Era verdade. Ninguém corria como ela.
A tartaruga
Naquele campo, também morava uma tartaruga.
Ela andava devagar. Sempre tinha andado devagar. Para ela, não havia pressa nenhuma no mundo.
Um dia, depois de ouvir a lebre se gabar pela quinta vez na mesma semana, a tartaruga levantou a cabeça devagarzinho e disse:
— Eu corro com você.
A lebre parou.
Olhou para a tartaruga.
E começou a rir.
— Você? Com essas perninhas? Eu chego lá e volto antes de você dar o segundo passo!
— Vamos ver — disse a tartaruga, sem se alterar.
A corrida
Os outros bichos adoraram a ideia.
Combinaram o lugar: saindo de uma pedra grande, atravessando o campo inteiro, passando por uma ponte pequena e chegando até uma árvore velha do outro lado.
Uma coruja ficou responsável por dar o sinal.
— Preparar! Apontar! Já!
A lebre saiu disparada.
Em um instante, ela já estava lá longe, uma pontinha marrom no meio do campo.
A tartaruga deu o primeiro passo.
Depois o segundo.
Depois o terceiro.
O descanso
Quando a lebre chegou perto da ponte, olhou para trás.
Não viu ninguém.
A tartaruga era só uma pinta, bem longe, quase invisível.
A lebre riu sozinha.
— Ainda falta tanto para ela chegar! Posso dar uma cochilada aqui, debaixo desta árvore, e ainda ganho a corrida com folga.
Ela se deitou na sombra. O vento era macio, o sol estava quentinho, as folhas se mexiam devagar.
E, em poucos minutos, a lebre estava dormindo.
O passo a passo
A tartaruga não parou.
Ela não corria. Não pulava. Só andava.
Um passo. Depois outro. Depois outro.
Quando o sol subiu, ela continuou. Quando ficou quente, ela continuou. Quando as pernas cansaram, ela descansou só um pouquinho e continuou de novo.
Ela passou perto da árvore onde a lebre dormia, bem devagar, sem fazer barulho.
E seguiu em frente.
O despertar
Foi um barulho que acordou a lebre.
Gritos. Palmas. Muita gente torcendo.
Ela abriu um olho.
Depois abriu o outro.
E levou um susto: do outro lado, perto da árvore velha, a tartaruga estava quase chegando à linha de chegada, e todos os bichos estavam em volta, torcendo.
A lebre saiu correndo.
Correu mais rápido do que tinha corrido a vida inteira.
Mas, quando chegou, a tartaruga já tinha cruzado a linha.
A chegada
Os bichos fizeram uma festa.
Gritaram, bateram palmas, e a coruja, que era muito séria, até soltou um pio de alegria.
A lebre parou, ofegante, olhando a tartaruga.
Estava envergonhada.
Mas, depois de um tempo, foi até ela.
— Você ganhou. Eu achei que não precisava me esforçar, e você nunca parou. Desculpa por ter rido de você.
A tartaruga sorriu.
— Eu só continuei andando — disse. — Foi só isso.
A lebre pensou nisso por muito tempo.
E, depois daquele dia, nunca mais se gabou da velocidade.
Mas, de vez em quando, parava para conversar com a tartaruga, que andava devagar e, por isso mesmo, via muitas coisas que a lebre nunca tinha reparado: as flores pequenas no meio do capim, as formigas na trilha, o desenho das nuvens.
De onde vem
Esta fábula é muito antiga. Ela é atribuída a Esopo, um contador de histórias da Grécia antiga, que viveu há mais de dois mil anos.
Ninguém sabe ao certo se Esopo existiu de verdade ou se o nome reúne histórias de várias pessoas. Mas as fábulas dele continuam sendo contadas até hoje, em muitas línguas.
A lição, em geral, é que quem não para, e vai com calma, muitas vezes chega mais longe do que quem corre sem pensar. O final em que a lebre pede desculpas e faz amizade com a tartaruga foi acrescentado nesta versão.
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