A Grande Fuga dos Pintinhos

No Galinheiro das Palmeiras, a vida era segura, quentinha e, na opinião de Pipoca, terrivelmente entediante.
Pipoca era um pintinho amarelo com uma mancha preta no topo da cabeça que parecia um topete rebelde. Enquanto seus nove irmãos e irmãs estavam felizes ciscando o mesmo metro quadrado de terra batida sob a supervisão atenta da Mamãe Carijó, Pipoca passava os dias com o bico grudado na tela de arame do galinheiro, olhando para fora.
Lá fora existia o “Mundo Verde”. Lá fora, a grama parecia mais alta. Lá fora, as minhocas deviam ter o tamanho de cobras. Lá fora, borboletas azuis dançavam sem bater em nenhuma parede.
— Vocês não entendem! — piava Pipoca para seus melhores amigos, Bolota (o pintinho mais gordinho e faminto) e Zazá (uma pintinha observadora que tinha medo da própria sombra). — Nós somos descendentes de dinossauros! O Velho Galo Sábio disse isso. Não nascemos para ficar presos. Nascemos para explorar!
Bolota bicou um grão de milho seco. — Eu gosto daqui. A comida cai do céu duas vezes por dia. Lá fora, quem garante que a comida não morde a gente?
— Deixa de ser medroso — retrucou Pipoca. — Hoje é o dia. Eu vi. O Fazendeiro esqueceu de prender o arame no canto esquerdo, perto do pé de couve. Tem um buraco. Um buraco do tamanho exato de um pintinho corajoso.
Zazá tremeu as penas. — E se a Mamãe Carijó perceber? Ela tem olhos nas costas.
— Ela está ocupada ensinando os outros a tomar banho de poeira — sussurrou Pipoca. — É agora ou nunca. Quem vem comigo para a Expedição do Além-Cerca?
A promessa de minhocas gigantes convenceu Bolota. A curiosidade (e o medo de ficar sozinho sem os amigos) convenceu Zazá.
Em fila indiana, abaixados como pequenos espiões amarelos, eles deslizaram pela palha até o canto esquerdo. Pipoca foi o primeiro. Ele se espremeu pelo arame solto. Puf! Saiu. Bolota entalou por um segundo na barriga, mas com um empurrãozinho de Zazá, Puf! Saiu também. Zazá veio por último.
Quando os três se levantaram do outro lado, o mundo parecia ter dobrado de tamanho.
A primeira coisa que notaram foi o chão. Não era terra batida e dura. Era grama. E a grama fazia cócegas na barriga deles. Era úmida, cheirosa e macia.
— Uau… — suspirou Zazá. — Parece um tapete infinito.
— Vamos! — comandou o Capitão Pipoca. — Rumo ao desconhecido!
A primeira parada foi a Horta dos Gigantes. Para um humano, eram apenas pés de alface e tomateiros. Para os pintinhos, era uma selva jurássica. As folhas de alface eram como enormes guarda-sóis verdes que bloqueavam o sol. Os tomates maduros pareciam pedras vermelhas colossais prontas para rolar e esmagá-los.
— Olhem isso! — gritou Bolota. Ele tinha encontrado uma lagarta. Mas não era uma lagarta qualquer; era verde-limão e cheia de espinhos macios. Bolota preparou o bico, mas a lagarta se virou e encarou o pintinho. Bolota recuou. — Ela me olhou feio, Pipoca! A comida aqui é mal-educada!
Eles riram e continuaram a marcha. Passaram pela “Montanha de Cascalho” (um monte de areia de construção) e escalaram bravamente até o topo, sentindo-se os reis do mundo, de onde podiam ver o telhado do galinheiro lá longe.
Mas a verdadeira aventura começou quando chegaram perto da Varanda da Casa Grande.
Lá, deitado sobre um tapete felpudo, estava A Besta. Rex, o cão basset da fazenda, dormia profundamente. Para os pintinhos, Rex era um monstro peludo de proporções titânicas. O ronco dele fazia as pedrinhas no chão tremerem. Rooooonc… Fiuuuu…
— Temos que passar por ele — sussurrou Pipoca. — Do outro lado está o Jardim das Flores Proibidas.
— E se ele acordar e nos engolir inteiros? — perguntou Zazá, escondendo-se atrás de uma folha seca.
— Nós seremos furtivos. Como ninjas — disse Pipoca.
Eles começaram a atravessar o pátio de cimento na ponta das patinhas. Tip-tap, tip-tap. O coração de Zazá batia tão forte que ela achava que o cachorro podia ouvir. De repente, uma mosca pousou no nariz de Rex. O cachorro se mexeu. Os três pintinhos congelaram, fingindo ser estátuas de penas amarelas. Rex espirrou — ATCHIM! — e o vento do espirro foi tão forte que fez Bolota rolar para trás como uma bola de boliche. Mas Rex apenas coçou a orelha, suspirou e voltou a dormir.
Eles correram para a segurança das roseiras, ofegantes. — Sobrevivemos ao Dragão Peludo! — comemorou Pipoca. — Somos heróis!
O resto da tarde foi mágico. Eles perseguiram gafanhotos que pulavam alto demais. Beberam água de uma poça cristalina que tinha gosto de chuva. Bolota finalmente encontrou uma minhoca que não revidava e teve o melhor lanche da sua vida.
Mas, como acontece em todas as grandes aventuras, eles esqueceram de uma regra fundamental: olhar para o céu.
O sol, que antes estava alto e quente, começou a descer. O céu azul tornou-se alaranjado, depois roxo. E com o pôr do sol, veio o frio. O “Mundo Verde” mudou. As sombras das árvores ficaram compridas e assustadoras. Os grilos começaram a cantar um som alto e estridente. O vento parou de ser uma brisa gentil e virou um sopro gelado que atravessava as penugens finas dos pintinhos.
— Pipoca… — chamou Zazá, com a voz trêmula. — Para que lado fica o galinheiro?
Pipoca olhou ao redor. Tudo parecia igual no escuro. Onde estava a Horta dos Gigantes? Onde estava a Montanha de Cascalho? — Acho que é por ali — disse ele, apontando para um arbusto escuro.
Eles andaram, mas só encontraram uma parede de tijolos frios. — Não, é por ali! — tentou Bolota. Eles andaram e deram de cara com a roda gigante do trator, que parecia um monstro de metal no escuro.
Eles estavam perdidos. O mundo, que era tão divertido durante o dia, agora parecia imenso e perigoso. Um pio de coruja ecoou longe: Uhuuu… Uhuuu…
Os três amigos se juntaram, encostados na roda do trator. Fizeram uma bolinha amarela de penas, tentando aquecer uns aos outros. — Eu quero a minha mãe — choramingou Bolota. — Eu estou com fome e com frio. — Foi culpa minha — disse Pipoca, baixando o topete, que já não parecia tão rebelde. — Eu achei que sabia de tudo. Mas o mundo é grande demais para pintinhos pequenos.
Zazá, que estava na borda do grupo, levantou a cabeça. — Silêncio! — disse ela.
— O que foi? A coruja? — perguntou Bolota, tremendo. — Não. Escutem.
Longe, muito longe, em meio aos sons da noite, havia um som rítmico e desesperado. Cloc… Cloc… CLOC! CLOC!
— É a mamãe! — piou Pipoca.
Eles tentaram piar de volta, mas suas vozes eram fraquinhas. — Temos que piar juntos! — comandou Pipoca, recuperando um pouco de sua liderança. — No três! Um, dois, três!
— PIU! PIU! PIUUUUUU! — gritaram os três com toda a força de seus pequenos pulmões.
O som “Cloc-Cloc” parou. Houve um silêncio tenso. E então, o som de passos rápidos na grama seca. Folhas sendo afastadas com força. E, de repente, surgindo da escuridão como uma super-heroína de penas marrons e brancas, apareceu Mamãe Carijó.
Ela parecia enorme. Ela parecia brava. Mas, acima de tudo, ela parecia aliviada. Ao ver seus três filhos tremendo debaixo do trator, ela não brigou. Ela apenas abriu suas asas gigantescas e quentes. — Venham aqui, seus pestinhas aventureiros — disse ela com voz rouca.
Os três correram e se enfiaram debaixo das penas da mãe. Era quente. Cheirava a milho e serragem. Cheirava a casa.
A caminhada de volta foi feita sob a proteção absoluta da Mamãe Carijó. Ela guiava o caminho na escuridão, afastando qualquer perigo com um olhar severo.
Quando finalmente entraram pelo buraco da cerca (que a mãe teve que alargar um pouco) e pisaram na terra batida do galinheiro, os outros pintinhos já estavam dormindo.
Mamãe Carijó empurrou os três para o ninho. — Amanhã conversaremos sobre cercas e limites — disse ela, embora tenha bicado suavemente a cabeça de Pipoca. — Agora, durmam.
Pipoca, Bolota e Zazá se aninharam. O chão era duro, não tinha grama macia. O teto era de telha, não o céu estrelado. Mas era seguro.
— Pipoca? — sussurrou Zazá antes de fechar os olhos. — Hum? — A aventura foi legal. — Foi — concordou Pipoca. — Mas sabe o que é melhor? — perguntou Bolota, já meio dormindo. — O quê? — Saber que a gente tem para onde voltar.
E assim, os três exploradores do Além-Cerca adormeceram, sonhando com alfaces gigantes e cães dragões, mas felizes por estarem exatamente onde deveriam estar: em casa.
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