A Galinha que Criou um Pato

No galinheiro da Fazenda Vale Verde, a vida seguia uma rotina muito rigorosa. Acordar com o galo, ciscar milho pela manhã, banho de poeira ao meio-dia e dormir assim que o sol se punha. Quem comandava a organização das ninhos era Doroteia, uma galinha carijó gorducha, de penas macias e um coração que parecia maior que o próprio peito.
Doroteia tinha um sonho antigo: ser mãe. Naquela primavera, ela finalmente havia preparado o ninho perfeito. Juntou a palha mais seca, os gravetos mais firmes e acomodou seus ovos com todo o cuidado do mundo. Eram cinco ovos pequenos e branquinhos.
Porém, numa manhã chuvosa, Doroteia encontrou algo estranho. Perto da cerca que dava para o riacho, havia um ovo abandonado. Ele era maior que os dela, tinha uma casca levemente esverdeada e parecia frio e solitário. O instinto de Doroteia falou mais alto que a lógica. Com muito custo, ela rolou aquele ovo gigante para dentro do seu ninho.
— Onde cabem cinco, cabem seis — cacarejou ela, ajeitando as penas para cobrir o novo integrante.
Os dias passaram. As outras galinhas fofocavam. — Viu o tamanho daquele ovo? — cochichava a Galinha Magricela. — Vai nascer um avestruz, isso sim!
Doroteia ignorava. Ela conversava com os ovos, prometendo que todos seriam amados igualmente.
Finalmente, o dia do nascimento chegou. Crac, crac, crac! Os cinco ovinhos brancos se quebraram, revelando pintinhos amarelos, piando fininho e já tentando ficar em pé. Doroteia estava radiante. Mas o ovo grande continuava lá, imóvel.
Doroteia não desistiu. Ela ficou chocando aquele ovo por mais três dias, saindo apenas para beber água apressada. Na manhã do quarto dia, um barulho diferente ecoou. POC!
A casca grossa se partiu. De lá de dentro não saiu um pintinho amarelo e felpudo. Saiu uma bolinha de penas meio cinzentas, com pés chatos e alaranjados que pareciam ter dedos colados, e um bico largo e achatado.
A criaturinha olhou para Doroteia, piscou os olhos grandes e disse: — Quac?
O galinheiro ficou em silêncio. — Que tipo de pio é esse? — perguntou o Galo Barnabé, franzindo a testa.
Doroteia olhou para o filhote desengonçado, que tropeçou nas próprias patas grandes e caiu de bico na palha. Ela sentiu uma onda de amor tão grande que quase transbordou. — É o pio do meu filho — respondeu ela, firme. — O nome dele é Pingo.
Criar Pingo não foi fácil. Enquanto os irmãos, os pintinhos, aprendiam a ciscar delicadamente a terra em busca de minhocas, Pingo enfiava o bico inteiro na lama e fazia uma bagunça, espirrando terra para todo lado. Enquanto os irmãos corriam com passinhos rápidos, Pingo andava rebolando, num gingado engraçado que fazia as outras galinhas rirem.
— Ele é defeituoso, Doroteia — dizia a Dona Peru, com ar de superioridade. — Olhe esses pés! Parecem remos. Ele nunca vai conseguir subir no poleiro.
Doroteia, porém, via as coisas de outro jeito. — Ele não é defeituoso, ele é especial. Ele tem o próprio ritmo.
Pingo, no entanto, começou a perceber que era diferente. Ele tentava imitar o “cocoricó” do Galo Barnabé, mas só saía um som rouco e anasalado. Ele tentava subir na cerca, mas escorregava com seus pés lisos. À noite, ele se aconchegava debaixo da asa de Doroteia e perguntava, com olhar triste: — Mamãe, por que eu não sou igual ao Fubá e a Pipoca?
Doroteia alisava as penas da cabeça dele com o bico. — Você é igual onde importa, meu filho. Você é gentil, corajoso e é parte desta família. As penas de fora mudam, mas o coração de dentro é o que nos faz parentes.
O teste verdadeiro aconteceu numa tarde abafada de verão. O Fazendeiro esqueceu a mangueira ligada e formou-se uma grande poça, quase um lago, no meio do pátio.
As galinhas entraram em pânico. — Água! Perigo! — gritavam elas, correndo para lugares altos. Galinhas detestam se molhar, pois suas penas ficam pesadas e elas não sabem nadar.
Mas Pingo… Pingo parou na beira da poça. Seus olhos brilharam. Era como se uma música antiga tocasse dentro dele, uma música que ele nunca tinha ouvido, mas sabia dançar.
Sem pensar, ele pulou. — Pingo, não! — gritou Doroteia, desesperada, correndo até a borda. — Você vai afundar!
Mas Pingo não afundou. Ele flutuou. Mais do que isso, ele deslizou. Aqueles pés grandes e “estranhos” funcionavam como motores perfeitos na água. Aquele bico chato era ideal para filtrar a água e pegar insetos na superfície. Ele mergulhava a cabeça e jogava água para cima, rindo e fazendo Quac, Quac, Quac de pura felicidade.
O galinheiro parou para assistir. Era a coisa mais graciosa que já tinham visto. Na terra, Pingo era desajeitado; na água, era um rei.
A alegria, porém, durou pouco. Um dos irmãos de Pingo, o pequeno Fubá, curioso com a brincadeira, chegou muito perto da borda. Ele escorregou na lama e caiu na parte mais funda da poça.
— Piuuu! Socorro! — gritou Fubá, batendo as asinhas inutilmente, começando a afundar.
Doroteia entrou em desespero. Ela tentou entrar na água, mas suas patas afundaram na lama e ela quase caiu. O Galo Barnabé cacarejava sem saber o que fazer. Nenhuma galinha podia salvar Fubá.
Ninguém, exceto Pingo.
Num movimento rápido, Pingo virou-se. Ele bateu os pés com força, cortando a água como uma lancha veloz. Em segundos, chegou até o irmão. — Suba nas minhas costas! — ordenou Pingo (ou foi o que pareceu, em sua língua de pato).
Fubá, tremendo, agarrou-se às penas impermeáveis de Pingo. Com força e elegância, Pingo nadou de volta para a margem, depositando o irmãozinho são e salvo na grama seca.
Doroteia correu e abraçou os dois. Ela chorava e ria ao mesmo tempo. — Vocês viram? — disse ela, olhando para todos os animais que estavam de boca aberta. — Vocês viram o meu filho?
O Galo Barnabé limpou a garganta, envergonhado. — É… ele nada muito bem. Para uma… galinha.
— Ele não é uma galinha — disse Doroteia, estufando o peito com orgulho. — Ele é um Pato. E é o melhor pato do mundo. E é meu filho.
Naquele dia, tudo mudou no galinheiro. Pingo não tentou mais cacarejar ou subir no poleiro alto. Ele descobriu que havia um lago grande nos fundos da fazenda e passava as tardes lá, nadando feliz. Mas, toda noite, quando o sol se punha, ele voltava para o galinheiro.
Ele não dormia no poleiro, pois não tinha equilíbrio para isso. Ele dormia no chão, aninhado na palha. E Doroteia, em vez de subir para dormir com as outras galinhas, descia e dormia ali, no chão, ao lado dele, cobrindo-o com sua asa quentinha.
Certa vez, um pato selvagem passou voando e viu Pingo no lago. Ele pousou e disse: — Ei, garoto! Você é um de nós. Por que vive com aquelas galinhas barulhentas? Venha voar conosco, ir para o sul!
Pingo olhou para o céu, depois olhou para a cerca do galinheiro, onde Doroteia o esperava com um punhado de milho especial que ela tinha guardado para ele.
— Eu sou um pato, sim — respondeu Pingo. — Mas aquela galinha ali é minha mãe. Ela me ensinou a andar, me aqueceu quando eu tinha frio e me amou quando eu era desajeitado. Minha espécie é pato, mas minha família é ela.
O pato selvagem voou embora, sem entender. Pingo saiu da água, sacudiu as penas e correu (rebolando engraçado) para o abraço de Doroteia.
E assim, na Fazenda Vale Verde, todos aprenderam a lição mais importante de todas: família não tem a ver com bicos iguais ou penas da mesma cor. Família é quem cuida, quem se preocupa e quem ama, mesmo que um goste de ciscar na terra e o outro prefira flutuar nas águas. E Doroteia, a mãe mais feliz do mundo, sabia que tinha criado não apenas um pato, mas um herói.
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