A Galinha Exploradora

No Galinheiro do Sítio Sossego, a vida seguia um padrão rigoroso. Às cinco da manhã, o Galo Rodolfo cantava (um pouco desafinado, diga-se de passagem). Às seis, o Seu Manuel jogava o milho. Às sete, as galinhas botavam seus ovos. E o resto do dia era dedicado à nobre arte de ciscar, fofocar e tirar cochilos à sombra do pé de manga.
Para a maioria das galinhas, aquilo era o paraíso. Mas não para Giselda.
Giselda era uma galinha de penas avermelhadas, olhos vivos e um pescoço que parecia ter uma mola, de tanto que ela o esticava para olhar além da cerca de arame. Enquanto as outras debatiam se o milho de hoje estava mais duro que o de ontem, Giselda olhava para o horizonte, onde uma montanha de vegetação verdejante prometia segredos deliciosos.
— O mundo não acaba na cerca, meninas — dizia ela, empoleirada no bebedouro. — Dizem que lá fora existe a Terra dos Minhocões Infinitos e o Pé de Alface que Nunca Acaba.
— Bobagem — retrucava Dona Cotinha, a galinha mais velha e rabugenta. — Lá fora só existem Raposas Dentuças e Carros Barulhentos. Coma seu milho e fique quieta, Giselda.
Mas a curiosidade de Giselda era maior que seu apetite. Ela passava semanas bicando, empurrando e analisando cada centímetro da cerca. Até que, numa tarde de terça-feira, quando o Seu Manuel esqueceu de consertar uma tábua solta atrás do celeiro, a oportunidade surgiu.
Havia uma fresta. Pequena, é verdade, mas suficiente para uma galinha determinada encolher a barriga e passar.
Giselda sabia que não poderia ir sozinha. Uma expedição precisava de uma equipe. Ela reuniu seus escolhidos atrás da moita de capim-santo.
— Atenção, grupo — sussurrou Giselda. — Hoje faremos história. A equipe era composta por:
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Rodolfo, o galo (convocado para proteção, embora ele tremesse ao ver uma borboleta maiorzinha).
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Belinha, uma galinha branca muito ágil, mas que se assustava com a própria sombra.
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Pipoca, o pintinho adolescente que achava tudo “irado”.
— Nós vamos morrer — decretou Belinha, roendo as unhas (ou o equivalente a unhas de galinha).
— Não vamos não — disse Giselda, ajeitando as penas. — Vamos encontrar o Grande Jardim Verde. Rodolfo, você vai na frente para espantar os perigos.
Rodolfo estufou o peito, tentando parecer corajoso, mas sua crista estava meio caída para o lado. — Claro, claro. Deixem comigo. Se aparecer um dragão, eu… eu cacarejo bem alto.
Um a um, eles se espremeram pela fresta na tábua. Ploc. Ploc. Ploc.
Quando se levantaram do outro lado, o mundo parecia ter mudado de cor. O verde era mais verde. O cheiro era de terra úmida e flores doces. Não havia cercas limitando a visão.
— Uau! — piou Pipoca. — O chão é macio!
Eles estavam no gramado da Casa Grande, um território proibido e lendário. A grama roçava na barriga deles, fazendo cócegas.
— Formação de exploração! — ordenou Giselda. — Olhos abertos.
A primeira provação veio logo nos primeiros metros: A Floresta de Samambaias. Para um humano, eram apenas plantas ornamentais em vasos no chão. Para as galinhas, era uma selva pré-histórica. Eles caminharam entre as folhas gigantes, atentos a qualquer movimento. De repente, Rodolfo parou e soltou um grito estridente. — MONSTRO!
Todos se jogaram no chão, cobrindo a cabeça com as asas. Giselda espiou com um olho só. Diante de Rodolfo, encarando-o com olhos fixos e frios, estava… um anão de jardim de cerâmica, segurando uma vara de pescar.
— É uma estátua, seu bobo — disse Giselda, dando um bicada na cauda de Rodolfo. — Levante-se. Ele não vai te comer.
Recuperados do susto, continuaram. Foi então que chegaram ao Vale da Horta. Se o paraíso existisse para as galinhas, ele seria exatamente assim. Havia fileiras de couve-manteiga com folhas do tamanho de lençóis. Havia tomates vermelhos e suculentos que caíam do pé e rachavam no chão, expondo sua polpa doce. Havia minhocas que não precisavam ser caçadas; elas praticamente davam “bom dia” na superfície da terra fofa.
— É a Terra dos Minhocões Infinitos! — chorou Belinha de emoção, esquecendo o medo.
O grupo se banqueteou. Rodolfo comeu tanto tomate que seu bico ficou vermelho. Pipoca corria atrás de grilos. Giselda, porém, mantinha-se alerta. Ela sabia que lugares maravilhosos geralmente tinham guardiões.
E o guardião apareceu.
Não era uma raposa. Não era um gavião. Era algo muito mais imprevisível: A Serpente de Água Giratória. Também conhecida como “o irrigador automático de jardim”.
Tssss-tssss-tssss-tssss! O som começou suave, mas logo a água explodiu em jatos giratórios. Para as galinhas, que odeiam se molhar, aquilo era um ataque militar.
— Corram pelas suas vidas! — gritou Rodolfo, o primeiro a fugir, derrapando na lama.
— Para a esquerda! Atrás das abóboras! — comandou Giselda.
Foi uma cena de caos e bravura. Belinha corria em ziguezague. Pipoca pulava sobre poças. Giselda, a líder, ficou por último, garantindo que ninguém ficasse para trás. Um jato de água fria acertou Giselda em cheio nas costas, mas ela não parou. Ela empurrou Pipoca para a segurança debaixo de uma folha de abóbora gigante.
Eles ficaram ali, amontoados, ofegantes e levemente úmidos, enquanto a “serpente” continuava seu ciclo de rega.
— Isso… foi… incrível! — disse Pipoca, sacudindo as penas molhadas.
— Incrível? Quase viramos sopa! — reclamou Rodolfo, tentando ajeitar a crista molhada.
Giselda olhou para o céu. O sol estava começando a baixar, pintando as nuvens de laranja. — Temos que voltar — disse ela. — Galinhas não enxergam bem no escuro. Se a noite cair e estivermos aqui fora, seremos um jantar fácil para a Coruja do Carvalho.
A volta foi uma corrida contra o tempo. Não podiam mais ir devagar apreciando a paisagem. Eles correram pelo gramado, desviaram do anão de jardim (a quem Rodolfo lançou um olhar desconfiado) e atravessaram a Floresta de Samambaias.
O sol já era apenas um risco roxo no horizonte quando avistaram a fresta na tábua do celeiro. Mas havia um problema. O gato da fazenda, Napoleão, estava deitado exatamente na frente da entrada secreta, tirando uma soneca.
O grupo parou bruscamente. — Fim da linha — sussurrou Belinha. — Foi bom conhecer vocês.
Giselda olhou para o gato gordo e alaranjado. Ele dormia profundamente, mas qualquer movimento brusco poderia acordá-lo. — Precisamos de uma distração — disse Giselda. Ela olhou para Rodolfo.
Rodolfo engoliu em seco. — Eu? Por que eu? — Porque você é o galo. Você tem o grito mais alto. Você vai correr para o lado oposto, cacarejar como se tivesse visto um fantasma e atrair o Napoleão para longe. Depois, você voa para cima da cerca e entra por cima. Nós entramos pelo buraco.
Era um plano arriscado. Rodolfo tremeu, mas olhou para seus amigos. Olhou para Giselda, que confiava nele. Ele estufou o peito. Dessa vez, de verdade.
Rodolfo correu para perto dos latões de lixo. Ele encheu os pulmões e soltou o grito mais esquisito e alto de sua vida: — CÓÓÓ-RÓ-CÓÓÓÓ-SOCORROOO!
Napoleão acordou num pulo, com os pelos todos arrepiados. Ele viu o galo correndo em direção à árvore e disparou atrás dele, pensando ser uma presa fácil ou um brinquedo barulhento.
— Agora! — gritou Giselda.
Belinha entrou. Ploc. Pipoca entrou. Ploc. Giselda entrou por último. Ploc.
Do lado de dentro, com o coração disparado, elas colaram os ouvidos na madeira. Ouviram um miado frustrado e o bater de asas de Rodolfo subindo na cerca. Segundos depois, Rodolfo pousou no meio do galinheiro, ofegante, mas inteiro.
As outras galinhas, que já estavam nos poleiros se preparando para dormir, olharam para o grupo sujo de terra, com penas desgrenhadas e bicos manchados de tomate.
— Onde vocês estavam? — perguntou Dona Cotinha. — Perderam a hora da chamada.
Giselda subiu no poleiro mais alto. Ela olhou para sua equipe. Rodolfo estava sorrindo. Belinha parecia mais corajosa. Pipoca já dormia de cansaço.
— Onde estávamos? — repetiu Giselda, limpando um pedaço de folha de couve que estava preso em sua asa. — Estávamos vivendo, Cotinha. Estávamos vivendo.
Naquela noite, ninguém sonhou com milho seco. Giselda e sua equipe sonharam com tomates gigantes, monstros de água e a doce sensação de liberdade. E Giselda sabia, enquanto fechava os olhos, que aquela tinha sido apenas a primeira de muitas expedições. Afinal, ela tinha ouvido dizer que, do outro lado da estrada, havia um pomar de maçãs…
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