A Estrela do Presépio da Escola

Todo dia 20 de dezembro, a escola da Joana fazia a apresentação de Natal.
E, todo ano, a Joana tinha o mesmo plano: ser a Maria.
Ela já sabia a fala de cor, mesmo sem nunca ter feito o papel. Treinava no espelho do banheiro, com uma toalha azul na cabeça.
Naquele ano ela tinha oito anos, e era a vez dela. Tinha certeza.
A lista
A professora Meire colou a lista dos papéis na porta da sala numa segunda-feira de manhã.
A criançada se amontoou na frente.
A Joana esperou o bolo de gente diminuir, chegou perto e leu de cima para baixo.
Maria: Bia.
José: Rafa.
Os três reis: Tiago, Duda e Kauã.
Pastores: cinco nomes.
Anjo: Manu.
E, lá embaixo, na última linha:
Estrela de Belém: Joana.
A pior parte
A Joana voltou para a carteira e sentou.
Ela não chorou na escola. Segurou até em casa, e aí chorou um bocado.
Porque a estrela não tinha nenhuma fala.
A estrela ficava lá atrás, em cima de um banquinho, com uma fantasia de papelão. Não dizia nada, não andava, não fazia nada.
Era, na opinião dela, o papel mais sem graça do presépio inteiro.
— Eu não quero ser uma coisa que fica parada — disse ela, no jantar.
A mãe ouviu, e não tentou consertar com frase bonita.
— Você quer conversar com a professora amanhã?
A Joana pensou.
— Quero.
A conversa
No dia seguinte, ela esperou o recreio e foi falar com a professora Meire.
— Professora, eu queria trocar. A estrela não faz nada.
A professora não riu, nem disse que ela estava sendo boba.
Ela sentou na cadeirinha baixa, para ficar na mesma altura, e perguntou:
— Joana, você já leu a história do presépio inteira?
— Já.
— E como é que os três reis acharam o caminho?
A Joana abriu a boca. E fechou.
— Pela estrela.
— Isso. Sem a estrela, os três ficavam rodando pelo deserto. — A professora deu uma pausa. — O papel da estrela não é falar. É mostrar onde é.
A Joana ficou quieta.
— Mas ela fica parada.
— Fica. Só que todo mundo olha para onde ela aponta. — A professora se levantou. — Pensa até amanhã. Se você ainda quiser trocar, a gente troca.
A ideia
Naquela noite, a Joana ficou deitada olhando o teto.
E teve uma ideia.
No dia seguinte, ela foi até a professora e disse:
— Eu fico com a estrela. Mas eu queria uma coisa.
— O quê?
— Uma lanterna.
Os ensaios
A ideia da Joana era simples.
O palco da escola era escuro no fundo. Ela ia ficar lá atrás, em cima do banquinho, com a fantasia de papelão dourado — e com uma lanterna grande na mão, com o braço recolhido atrás da ponta do papelão.
Na hora certa, ela apontaria a luz para a manjedoura.
A professora achou ótimo. E aí virou um trabalho de verdade.
A Joana precisou decorar a peça inteira, todas as falas de todo mundo, para saber exatamente quando ligar a luz e para onde apontar.
Ela treinou o movimento do braço para a luz não tremer.
Descobriu que, se apontasse de muito perto, ofuscava a Bia; de longe demais, não iluminava nada.
E aprendeu, na marra, a ficar parada de verdade. Parada é mais difícil do que parece.
A noite da apresentação
No dia 20 de dezembro, o pátio da escola estava cheio de pais, avós e irmãos, com cadeira de plástico e celular na mão.
As luzes se apagaram.
E o palco ficou no escuro.
Aí, lá no fundo, uma luzinha se acendeu.
Era a Joana.
O facho iluminou só a manjedoura de palha, no meio do palco, e o resto ficou na penumbra. A plateia inteira olhou para o mesmo ponto, ao mesmo tempo.
A peça começou.
O que ela fez a noite inteira
Durante a apresentação, a Joana trabalhou mais do que qualquer um.
Quando os pastores entraram, ela abriu um pouco o facho para pegar eles também.
Quando a Manu entrou de anjo, ela levou a luz até o alto do palco e trouxe de volta.
Quando a Bia fez a fala da Maria, ela fechou a luz de novo na manjedoura.
Quando os três reis apareceram pela lateral, ela levantou o braço bem devagar e levou a luz até eles, para a plateia saber onde olhar — e depois trouxe a luz de volta, com os três andando dentro dela.
E, no fim, quando todo mundo cantou, ela abriu o facho no palco inteiro.
Ninguém aplaudiu a estrela. Aplaudiram a peça.
E era exatamente isso que ela tinha feito acontecer.
O que a mãe falou
Na volta para casa, a Joana estava quieta no banco de trás, ainda com a fantasia de papelão no colo.
— E aí? — perguntou a mãe.
— Ninguém percebeu que era eu.
A mãe olhou pelo retrovisor.
— Filha, tinha umas cem pessoas ali. Todas elas olharam, a noite inteira, exatamente para onde você mandou.
A Joana ficou pensando nisso o caminho todo.
No ano seguinte
No ano seguinte, a professora Meire colou a lista na porta de novo.
A Joana chegou perto, procurou o próprio nome e achou na linha de cima.
Maria: Joana.
Ela ficou feliz. Fez a Maria, e fez bem.
Mas, quando o palco escureceu e a luzinha se acendeu lá atrás, ela virou o rosto de leve para procurar quem estava segurando a lanterna naquele ano.
Era um menino pequeno do segundo ano, todo sério, com a língua de fora de tanta concentração.
E a Joana, no meio da peça, deu um sorriso que não estava no roteiro.
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