A Estrela do Presépio da Escola

5 min de leituraHistorinha para dormir
A Estrela do Presépio da Escola
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Todo dia 20 de dezembro, a escola da Joana fazia a apresentação de Natal.

E, todo ano, a Joana tinha o mesmo plano: ser a Maria.

Ela já sabia a fala de cor, mesmo sem nunca ter feito o papel. Treinava no espelho do banheiro, com uma toalha azul na cabeça.

Naquele ano ela tinha oito anos, e era a vez dela. Tinha certeza.

A lista

A professora Meire colou a lista dos papéis na porta da sala numa segunda-feira de manhã.

A criançada se amontoou na frente.

A Joana esperou o bolo de gente diminuir, chegou perto e leu de cima para baixo.

Maria: Bia.

José: Rafa.

Os três reis: Tiago, Duda e Kauã.

Pastores: cinco nomes.

Anjo: Manu.

E, lá embaixo, na última linha:

Estrela de Belém: Joana.

A pior parte

A Joana voltou para a carteira e sentou.

Ela não chorou na escola. Segurou até em casa, e aí chorou um bocado.

Porque a estrela não tinha nenhuma fala.

A estrela ficava lá atrás, em cima de um banquinho, com uma fantasia de papelão. Não dizia nada, não andava, não fazia nada.

Era, na opinião dela, o papel mais sem graça do presépio inteiro.

— Eu não quero ser uma coisa que fica parada — disse ela, no jantar.

A mãe ouviu, e não tentou consertar com frase bonita.

— Você quer conversar com a professora amanhã?

A Joana pensou.

— Quero.

A conversa

No dia seguinte, ela esperou o recreio e foi falar com a professora Meire.

— Professora, eu queria trocar. A estrela não faz nada.

A professora não riu, nem disse que ela estava sendo boba.

Ela sentou na cadeirinha baixa, para ficar na mesma altura, e perguntou:

— Joana, você já leu a história do presépio inteira?

— Já.

— E como é que os três reis acharam o caminho?

A Joana abriu a boca. E fechou.

— Pela estrela.

— Isso. Sem a estrela, os três ficavam rodando pelo deserto. — A professora deu uma pausa. — O papel da estrela não é falar. É mostrar onde é.

A Joana ficou quieta.

— Mas ela fica parada.

— Fica. Só que todo mundo olha para onde ela aponta. — A professora se levantou. — Pensa até amanhã. Se você ainda quiser trocar, a gente troca.

A ideia

Naquela noite, a Joana ficou deitada olhando o teto.

E teve uma ideia.

No dia seguinte, ela foi até a professora e disse:

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— Eu fico com a estrela. Mas eu queria uma coisa.

— O quê?

— Uma lanterna.

Os ensaios

A ideia da Joana era simples.

O palco da escola era escuro no fundo. Ela ia ficar lá atrás, em cima do banquinho, com a fantasia de papelão dourado — e com uma lanterna grande na mão, com o braço recolhido atrás da ponta do papelão.

Na hora certa, ela apontaria a luz para a manjedoura.

A professora achou ótimo. E aí virou um trabalho de verdade.

A Joana precisou decorar a peça inteira, todas as falas de todo mundo, para saber exatamente quando ligar a luz e para onde apontar.

Ela treinou o movimento do braço para a luz não tremer.

Descobriu que, se apontasse de muito perto, ofuscava a Bia; de longe demais, não iluminava nada.

E aprendeu, na marra, a ficar parada de verdade. Parada é mais difícil do que parece.

A noite da apresentação

No dia 20 de dezembro, o pátio da escola estava cheio de pais, avós e irmãos, com cadeira de plástico e celular na mão.

As luzes se apagaram.

E o palco ficou no escuro.

Aí, lá no fundo, uma luzinha se acendeu.

Era a Joana.

O facho iluminou só a manjedoura de palha, no meio do palco, e o resto ficou na penumbra. A plateia inteira olhou para o mesmo ponto, ao mesmo tempo.

A peça começou.

O que ela fez a noite inteira

Durante a apresentação, a Joana trabalhou mais do que qualquer um.

Quando os pastores entraram, ela abriu um pouco o facho para pegar eles também.

Quando a Manu entrou de anjo, ela levou a luz até o alto do palco e trouxe de volta.

Quando a Bia fez a fala da Maria, ela fechou a luz de novo na manjedoura.

Quando os três reis apareceram pela lateral, ela levantou o braço bem devagar e levou a luz até eles, para a plateia saber onde olhar — e depois trouxe a luz de volta, com os três andando dentro dela.

E, no fim, quando todo mundo cantou, ela abriu o facho no palco inteiro.

Ninguém aplaudiu a estrela. Aplaudiram a peça.

E era exatamente isso que ela tinha feito acontecer.

O que a mãe falou

Na volta para casa, a Joana estava quieta no banco de trás, ainda com a fantasia de papelão no colo.

— E aí? — perguntou a mãe.

— Ninguém percebeu que era eu.

A mãe olhou pelo retrovisor.

— Filha, tinha umas cem pessoas ali. Todas elas olharam, a noite inteira, exatamente para onde você mandou.

A Joana ficou pensando nisso o caminho todo.

No ano seguinte

No ano seguinte, a professora Meire colou a lista na porta de novo.

A Joana chegou perto, procurou o próprio nome e achou na linha de cima.

Maria: Joana.

Ela ficou feliz. Fez a Maria, e fez bem.

Mas, quando o palco escureceu e a luzinha se acendeu lá atrás, ela virou o rosto de leve para procurar quem estava segurando a lanterna naquele ano.

Era um menino pequeno do segundo ano, todo sério, com a língua de fora de tanta concentração.

E a Joana, no meio da peça, deu um sorriso que não estava no roteiro.

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