A Coruja que Morava no Chão

4 min de leituraHistorinha para dormir
A Coruja que Morava no Chão
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Em campos abertos de grama baixa, quase em qualquer parte do Brasil, existe uma coruja que quase ninguém acha que é coruja.

Ela é pequena, menor que um pombo, mais ou menos do tamanho de uma garrafinha de água.

Tem as penas marrons salpicadas de branco, olhos amarelos enormes e umas pernas compridas, bem mais compridas do que as de uma coruja de árvore.

E, ao contrário da maioria das corujas que a gente imagina, ela passa o dia acordada, em pé no chão.

Ela é a coruja-buraqueira.

O nome

O nome vem de uma ideia simples: ela mora num buraco.

Às vezes ela mesma cava, em terra macia. Mas costuma aproveitar a toca antiga de um tatu ou de outro bicho cavador, e deixar a casa do jeito que gosta.

Fica ali, na terra, à beira de um campo aberto, num lugar de sol e vento.

E faz uma coisa que ninguém espera de uma coruja: de dia, fica em pé na frente da toca, de olhos abertos, olhando em volta, como um guarda-noturno de plantão em horário comercial.

A família

Nesta história, a família é um casal e três filhotes.

A mãe se chama Tuca e o pai, Bento.

Eles chegaram naquele pedaço de campo no começo da primavera e passaram semanas arrumando a toca: tirando terra, juntando capim seco, folhinhas e até esterco seco de gado, que serve para forrar o chão e, ao que parece, atrai besouros para a janta.

Quando a Tuca botou os ovos, o Bento passou a trazer comida.

E os filhotes nasceram numa manhã de verão, pequenos, cobertos de penugem branca, de olhos fechados.

O jeito de caçar

O Bento caçava de um jeito próprio.

Ele não ficava parado num galho esperando o rato passar, porque ali não tinha galho.

Corria.

Saía em disparada pelo capim, com aquelas pernas compridas, atrás de besouro, gafanhoto e grilo. Às vezes pulava, às vezes ficava parado, de cabeça virando para cá e para lá, como quem observa e escuta ao mesmo tempo.

E de vez em quando pegava um lagarto pequeno, um rato do campo ou até uma cobrinha.

Coruja-buraqueira come, principalmente, inseto. E come muito. Isso faz dela uma das melhores amigas de quem tem plantação.

O truque do susto

Um dia, a Tuca estava em pé na frente da toca quando viu, de longe, uma coisa.

Era um cachorro de rua, andando devagar pelo campo, com o focinho no chão.

Ele vinha em direção aos filhotes.

A Tuca não saiu voando. Ela ficou parada, olhando, até o cachorro chegar a uns dez passos.

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Então deu um estalinho de aviso com o bico. E, lá do fundo da toca escura, veio um som.

Sssssssh. Ssssssh. Sssssshhh.

Um chiado grosso e comprido, igualzinho ao de uma cobra enfurecida.

O cachorro parou no meio do passo.

Ele olhou para a toca, farejou o ar, deu meia-volta e foi embora.

Por que funciona

Muitos cientistas acham que os filhotes da coruja-buraqueira, quando se sentem ameaçados, imitam o chiado de uma cobra-cascavel.

Dentro da toca escura, esse chiado ecoa e pode enganar o animal que está caçando: ele pensa que lá dentro tem uma cobra venenosa.

Os cientistas ainda discutem como esse truque surgiu, mas dá para entender o motivo: uma coruja bebê não tem como correr nem lutar.

A noite

Quando o sol se pôs, os filhotes apareceram na boca da toca.

A Tuca e o Bento ficaram em pé na boca do buraco, um do lado do outro, enquanto os três filhotes apareciam atrás deles, com as carinhas redondas e os olhos arregalados, olhando um mundo cheio de estrelas.

O céu foi escurecendo.

Os grilos começaram a cantar. Um vaga-lume apareceu, depois outro.

E a Tuca, que passou o dia inteiro em pé vigiando, se virou para os filhotes e fez um barulhinho baixo de quem diz que tudo vai bem.

O grande dia

Algumas semanas depois, os filhotes tentaram voar pela primeira vez.

Não foi bonita. Foi um pulo, uma batida de asa desajeitada, três metros no ar e uma queda de bumbum na grama.

O Bento ficou olhando de cabeça inclinada, sem ajudar.

A Tuca fez um chiado curto.

E o filhote levantou, sacudiu as penas, e tentou de novo.

De verdade

A coruja-buraqueira existe e vive em quase todo o Brasil, em campo aberto, em beira de estrada, em terreno baldio, até em gramado de aeroporto e de campo de futebol.

Ela é tão comum que muita gente passa direto por ela sem reparar. Mas corre perigo nas estradas, onde muitas são atropeladas, e perde as tocas quando os campos viram prédios.

Se um dia você passar por um terreno aberto e vir uma coruja pequena em pé no chão, olhando para você, com a cabeça virando de um lado para o outro, não precisa chegar perto.

Ela já te viu faz tempo.

E, provavelmente, tem uma família inteira dentro do buraco, esperando você passar.

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