A Coruja que Morava no Chão

Em campos abertos de grama baixa, quase em qualquer parte do Brasil, existe uma coruja que quase ninguém acha que é coruja.
Ela é pequena, menor que um pombo, mais ou menos do tamanho de uma garrafinha de água.
Tem as penas marrons salpicadas de branco, olhos amarelos enormes e umas pernas compridas, bem mais compridas do que as de uma coruja de árvore.
E, ao contrário da maioria das corujas que a gente imagina, ela passa o dia acordada, em pé no chão.
Ela é a coruja-buraqueira.
O nome
O nome vem de uma ideia simples: ela mora num buraco.
Às vezes ela mesma cava, em terra macia. Mas costuma aproveitar a toca antiga de um tatu ou de outro bicho cavador, e deixar a casa do jeito que gosta.
Fica ali, na terra, à beira de um campo aberto, num lugar de sol e vento.
E faz uma coisa que ninguém espera de uma coruja: de dia, fica em pé na frente da toca, de olhos abertos, olhando em volta, como um guarda-noturno de plantão em horário comercial.
A família
Nesta história, a família é um casal e três filhotes.
A mãe se chama Tuca e o pai, Bento.
Eles chegaram naquele pedaço de campo no começo da primavera e passaram semanas arrumando a toca: tirando terra, juntando capim seco, folhinhas e até esterco seco de gado, que serve para forrar o chão e, ao que parece, atrai besouros para a janta.
Quando a Tuca botou os ovos, o Bento passou a trazer comida.
E os filhotes nasceram numa manhã de verão, pequenos, cobertos de penugem branca, de olhos fechados.
O jeito de caçar
O Bento caçava de um jeito próprio.
Ele não ficava parado num galho esperando o rato passar, porque ali não tinha galho.
Corria.
Saía em disparada pelo capim, com aquelas pernas compridas, atrás de besouro, gafanhoto e grilo. Às vezes pulava, às vezes ficava parado, de cabeça virando para cá e para lá, como quem observa e escuta ao mesmo tempo.
E de vez em quando pegava um lagarto pequeno, um rato do campo ou até uma cobrinha.
Coruja-buraqueira come, principalmente, inseto. E come muito. Isso faz dela uma das melhores amigas de quem tem plantação.
O truque do susto
Um dia, a Tuca estava em pé na frente da toca quando viu, de longe, uma coisa.
Era um cachorro de rua, andando devagar pelo campo, com o focinho no chão.
Ele vinha em direção aos filhotes.
A Tuca não saiu voando. Ela ficou parada, olhando, até o cachorro chegar a uns dez passos.
Então deu um estalinho de aviso com o bico. E, lá do fundo da toca escura, veio um som.
Sssssssh. Ssssssh. Sssssshhh.
Um chiado grosso e comprido, igualzinho ao de uma cobra enfurecida.
O cachorro parou no meio do passo.
Ele olhou para a toca, farejou o ar, deu meia-volta e foi embora.
Por que funciona
Muitos cientistas acham que os filhotes da coruja-buraqueira, quando se sentem ameaçados, imitam o chiado de uma cobra-cascavel.
Dentro da toca escura, esse chiado ecoa e pode enganar o animal que está caçando: ele pensa que lá dentro tem uma cobra venenosa.
Os cientistas ainda discutem como esse truque surgiu, mas dá para entender o motivo: uma coruja bebê não tem como correr nem lutar.
A noite
Quando o sol se pôs, os filhotes apareceram na boca da toca.
A Tuca e o Bento ficaram em pé na boca do buraco, um do lado do outro, enquanto os três filhotes apareciam atrás deles, com as carinhas redondas e os olhos arregalados, olhando um mundo cheio de estrelas.
O céu foi escurecendo.
Os grilos começaram a cantar. Um vaga-lume apareceu, depois outro.
E a Tuca, que passou o dia inteiro em pé vigiando, se virou para os filhotes e fez um barulhinho baixo de quem diz que tudo vai bem.
O grande dia
Algumas semanas depois, os filhotes tentaram voar pela primeira vez.
Não foi bonita. Foi um pulo, uma batida de asa desajeitada, três metros no ar e uma queda de bumbum na grama.
O Bento ficou olhando de cabeça inclinada, sem ajudar.
A Tuca fez um chiado curto.
E o filhote levantou, sacudiu as penas, e tentou de novo.
De verdade
A coruja-buraqueira existe e vive em quase todo o Brasil, em campo aberto, em beira de estrada, em terreno baldio, até em gramado de aeroporto e de campo de futebol.
Ela é tão comum que muita gente passa direto por ela sem reparar. Mas corre perigo nas estradas, onde muitas são atropeladas, e perde as tocas quando os campos viram prédios.
Se um dia você passar por um terreno aberto e vir uma coruja pequena em pé no chão, olhando para você, com a cabeça virando de um lado para o outro, não precisa chegar perto.
Ela já te viu faz tempo.
E, provavelmente, tem uma família inteira dentro do buraco, esperando você passar.
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