A Cigarra e a Formiga

Num campo muito grande, quando o verão chegou, o sol começou a brilhar forte.
As flores abriram. O capim cresceu. O céu ficou azul de ponta a ponta.
E uma cigarra, no alto de um galho, começou a cantar.
Ela cantava de manhã. Cantava de tarde. Cantava até a hora de dormir.
Era uma cantiga animada, que fazia as outras bichinhas sorrirem.
A formiga
Lá embaixo, na terra, uma formiga passava todo dia carregando um grãozinho de trigo.
Era um grão pesado, duas vezes maior que ela.
Ela caminhava devagar, suando, em fila com as outras formigas, direto para a casa delas, que ficava debaixo de uma raiz de árvore.
A cigarra olhou.
— Para que tanta pressa, dona Formiga? Pare um pouco! O verão é para curtir! Vem cantar comigo!
A formiga parou, deu uma olhada para cima e sorriu, cansada.
— Obrigada, mas não posso. Eu estou juntando comida para o inverno.
— Inverno? — riu a cigarra. — Está tão longe! Hoje tem sol, tem flor, tem tudo!
E voltou a cantar.
O verão passou
Os dias foram passando.
As folhas ficaram amarelas.
O vento começou a soprar mais frio.
Uma manhã, a cigarra acordou tremendo.
Olhou em volta. As flores tinham sumido. O capim estava seco. As folhas caíam.
E, o pior, ela estava com muita fome.
Procurou comida por todo canto, mas não encontrou nada.
Foi aí que ela se lembrou da formiga.
A porta
A cigarra foi até a casa das formigas e bateu na porta.
Toc, toc, toc.
A formiga abriu.
— Dona Formiga — disse a cigarra, com a voz baixinha, envergonhada —, eu passei o verão inteiro cantando, e agora não tenho nada para comer. Será que a senhora pode me ajudar?
A formiga ficou calada por um tempo.
Ela lembrava muito bem que a cigarra tinha rido dela. Lembrava de ter ouvido a cantiga todos os dias, enquanto carregava grão para lá e para cá.
Mas lembrou também de outra coisa: a cantiga tinha sido muito bonita, e tinha feito o trabalho dela parecer um pouco mais leve.
A conversa
— Entra — disse a formiga. — Está frio.
A cigarra entrou. Era uma casinha quentinha, com a despensa cheia de grãos.
Sentaram à mesa. A formiga serviu sopa de milho, bem quente.
Enquanto a cigarra tomava, a formiga falou:
— Eu te ajudo, mas quero te contar uma coisa. Eu não trabalho porque não gosto de cantar. Eu trabalho porque sei que o inverno vem, e eu preciso estar pronta.
— Eu fui uma boba — disse a cigarra.
— Foi, um pouquinho. Mas também cantou muito bem. E se a gente se ajudar, cada uma pode fazer o que faz de melhor.
O trato
Ficaram combinadas.
Naquele inverno, a cigarra ficou na casa da formiga.
À noite, quando as formigas voltavam cansadas do trabalho de arrumar a despensa, a cigarra cantava para elas.
E, de dia, ajudava no que podia: varria a entrada, separava os grãos menores, avisava quando a neve começava a cair.
Quando o verão voltou, a cigarra fez uma coisa que nunca tinha feito.
Guardou um pouco de comida para o inverno seguinte.
Mas continuou cantando todos os dias.
De onde vem
Esta fábula é muito antiga. Ela é atribuída a Esopo, da Grécia antiga, e foi recontada por muitos autores, entre eles o francês Jean de La Fontaine, no século XVII.
Na versão tradicional, a formiga se recusa a ajudar e manda a cigarra dançar, já que passou o verão cantando. Aqui, o final foi mudado: a formiga acolhe a cigarra, e as duas fazem um trato. Essa parte é invenção desta versão.
De verdade
Na vida real, a cigarra não passa o verão cantando à toa, nem precisa pedir comida a formiga nenhuma.
Ela passa a maior parte da vida debaixo da terra, em forma de ninfa, sugando o líquido das raízes das plantas. Algumas espécies passam vários anos assim.
Quando chega a hora, ela sobe, troca de casca e ganha asas. Só então os machos começam a cantar, para chamar as fêmeas.
E, como adulta, ela vive pouco tempo, algumas semanas.
Ou seja: aquele canto que você ouve no verão é o trabalho dela, depois de muitos anos esperando debaixo do chão.
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