A Caverna do Rio Escondido

7 min de leituraHistorinha para dormir
A Caverna do Rio Escondido
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A tia Vera era espeleóloga.

Quando o Théo perguntou o que era isso, ela respondeu:

— É gente que estuda caverna. A gente entra, mede, desenha o mapa e anota o que encontra lá dentro.

O Théo tinha dez anos e achou aquilo a melhor profissão do mundo.

Ele pediu tanto, tanto, que no meio das férias a tia Vera disse que sim. Iam entrar juntos numa caverna pequena e conhecida, pertinho da casa da avó, onde ela já tinha estado dezenas de vezes.

As regras

Na véspera, sentados na varanda, a tia Vera colocou as coisas em cima da mesa: dois capacetes, seis lanternas, luvas, um apito, uma garrafa de água e um caderno impermeável.

— Antes de entrar, três regras — disse ela. — E elas não são negociáveis.

O Théo endireitou as costas.

— Primeira: capacete sempre na cabeça. Caverna tem teto baixo e pedra solta.

— Segunda: cada um leva três fontes de luz. A lanterna de cabeça, uma de mão e uma de reserva. Se apagar tudo, o escuro lá dentro é o escuro de verdade, e a gente não sai andando por aí procurando a saída.

— E a terceira?

A tia Vera pegou a mão dele e virou a palma para cima.

— Essa é a mais difícil. Não toca em nada. Nem nas pedras bonitas.

— Por quê? Vai quebrar?

— Pior. A gordura da nossa mão gruda na pedra, e a pedra para de crescer bem naquele pedacinho. Uma estalactite pode levar cem anos para ganhar um centímetro. Você encosta um dedo hoje e estraga um século de trabalho.

O Théo olhou para a mão como se ela fosse perigosa.

— E tem mais — disse a tia. — A gente não leva nada de dentro, não deixa nada lá, e não faz barulho. Tem bicho morando ali.

— Só isso?

— Falta o principal. A gente avisa a sua avó a que horas vai sair. Se passar dessa hora, ela chama quem sabe entrar atrás da gente. E, se estiver com cara de chuva, não tem passeio nenhum.

— Por causa da chuva?

— Caverna com rio enche depressa, minha filha. A gente olha o céu antes. Se tiver chuva, fica para outro dia.

A entrada

De manhã cedo, eles caminharam uns vinte minutos por uma trilha de mato até uma parede de pedra cinzenta, cheia de buracos, meio escondida atrás de uma figueira.

A boca da caverna era uma fresta larga e baixa, na altura do peito do Théo.

Saía de lá um ar frio.

— Por que é gelado? — perguntou ele.

— Caverna não esquenta nem esfria. Lá dentro, a temperatura é quase a mesma o ano inteiro. No verão parece geladeira. No inverno parece quentinha.

Eles acenderam as lanternas, ajustaram os capacetes e entraram.

O escuro que tem som

Os primeiros metros ainda tinham a luz do dia entrando pelas costas deles, ficando mais fraca, mais fraca.

Depois de uma curva, acabou.

O Théo parou.

Era um escuro diferente de todos os escuros que ele conhecia. Não era o escuro do quarto, que sempre tem um fiozinho de luz na fresta da porta. Era um escuro cheio, fechado, que começava logo depois do círculo da lanterna.

E o silêncio também era diferente. Sem carro, sem vento, sem passarinho.

Só o som da água pingando em algum lugar. Ploc… ploc… ploc.

— Tá bem? — perguntou a tia Vera.

O Théo respirou fundo.

— Tô. Só é muito escuro.

— É o mais escuro que existe. Vem.

O salão

Depois de um corredor apertado, onde eles tiveram que andar de lado, o teto subiu de repente.

A tia Vera apontou a lanterna para cima e o Théo ficou de boca aberta.

Era um salão enorme, do tamanho de uma quadra. Do teto desciam dezenas de pedras compridas e pontudas, algumas finas feito canudo, outras grossas feito o tronco de uma árvore, todas brilhando de molhadas.

— Essas que descem do teto são as estalactites — disse a tia. — A água dissolve um tiquinho da pedra lá em cima e desce carregando esse calcário. Quando a gota fica pendurada aqui embaixo, ela deixa para trás um anelzinho duro, fininho, e vai embora. Gota por gota, ano após ano.

Do chão subiam outras, mais gordas e de ponta arredondada.

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— E essas são as estalagmites. Nascem bem embaixo, onde a gota cai. Quando as duas se encontram no meio, viram uma coluna só.

O Théo apontou para uma coluna grossa no fundo do salão, que ia do chão ao teto.

— Aquela ali já se encontrou.

— Aquela ali — disse a tia Vera — começou muito antes de existir qualquer cidade no Brasil.

Os moradores

Num canto do teto, a lanterna pegou uma penca de morceguinhos pendurados, dormindo enrolados nas asas.

O Théo prendeu a respiração.

— Pode chegar perto?

— Não. Eles estão dormindo, e morcego acordado fora de hora gasta energia que ele não tem de sobra. A gente passa longe e apaga a luz da cara deles.

Eles passaram bem quietinhos.

Mais adiante, numa poça de água tão transparente que parecia ar, o Théo viu uns bichinhos brancos, minúsculos, andando no fundo.

— Esses não têm olho — cochichou a tia. — A família deles mora aqui desde sempre, e aqui nunca fez falta enxergar. Então, ao longo de milhares e milhares de gerações, foram nascendo bichinhos com olhos cada vez menores, até não nascer mais olho nenhum. E ninguém sentiu falta. Eles percebem tudo pelo cheiro e pelo movimento da água.

O rio escondido

No fim do salão tinha uma passagem baixa. De lá vinha um barulho.

Não era mais ploc. Era um som contínuo, correndo.

Eles se abaixaram, passaram, e do outro lado tinha um rio.

Um rio de verdade, largo como uma rua pequena, correndo dentro da pedra, com a água mais limpa que o Théo já tinha visto na vida.

— De onde ele vem?

— Da chuva lá fora. A água entra pelas rachaduras da pedra, se junta aqui dentro e sai lá na frente, numa nascente, no meio do mato. — Ela olhou para o sobrinho. — Muito rio dessa região passa por baixo da terra em algum pedaço do caminho.

Eles sentaram numa pedra seca, apagaram as lanternas de mão e ficaram só com as de cabeça.

Depois a tia Vera fez uma proposta.

— Quer ver o escuro de verdade? Um minuto só.

Um minuto sem luz

O Théo pensou. O coração acelerou.

— Quero.

Eles apagaram tudo.

— Tô aqui, ó — disse a tia, apertando o ombro dele. — A lanterna está na minha mão. Um minuto.

E o mundo sumiu.

Não dava para ver a mão na frente do rosto. Não dava para ver se os olhos estavam abertos ou fechados. Era um preto tão completo que parecia ter peso.

O Théo sentiu uma pontinha de medo subir.

Aí ele reparou que a mão da tia estava no ombro dele o tempo inteiro. E que o barulho do rio continuava ali, calminho, correndo do mesmo jeito.

Um minuto depois, a tia acendeu a lanterna.

A luz pareceu a coisa mais bonita do mundo.

— E aí?

— Deu um pouco de medo — disse o Théo, sorrindo. — Mas eu aguentei.

A saída

Eles tinham ficado quase quatro horas lá dentro.

Na volta, eles refizeram o caminho devagar, olhando tudo de novo pelo outro lado, que é o jeito de um lugar só virar dois.

Quando chegaram perto da boca da caverna, o Théo viu uma luz cinzenta lá na frente, que foi ficando branca, e aí amarela, e aí o dia inteiro caiu em cima dele.

Ele apertou os olhos, rindo.

Nunca uma tarde comum tinha parecido tão iluminada.

Depois

Naquela noite, o Théo desenhou a caverna toda no caderno: o corredor apertado, o salão das colunas, os morcegos, a poça dos bichinhos sem olho e o rio escondido.

Escreveu embaixo três frases, do jeito que a tia Vera tinha ensinado:

Não levar nada. Não deixar nada. Não tocar em nada.

E dormiu com o capacete em cima da cadeira, do lado da cama, pronto para a próxima.

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