A Caverna do Rio Escondido

A tia Vera era espeleóloga.
Quando o Théo perguntou o que era isso, ela respondeu:
— É gente que estuda caverna. A gente entra, mede, desenha o mapa e anota o que encontra lá dentro.
O Théo tinha dez anos e achou aquilo a melhor profissão do mundo.
Ele pediu tanto, tanto, que no meio das férias a tia Vera disse que sim. Iam entrar juntos numa caverna pequena e conhecida, pertinho da casa da avó, onde ela já tinha estado dezenas de vezes.
As regras
Na véspera, sentados na varanda, a tia Vera colocou as coisas em cima da mesa: dois capacetes, seis lanternas, luvas, um apito, uma garrafa de água e um caderno impermeável.
— Antes de entrar, três regras — disse ela. — E elas não são negociáveis.
O Théo endireitou as costas.
— Primeira: capacete sempre na cabeça. Caverna tem teto baixo e pedra solta.
— Segunda: cada um leva três fontes de luz. A lanterna de cabeça, uma de mão e uma de reserva. Se apagar tudo, o escuro lá dentro é o escuro de verdade, e a gente não sai andando por aí procurando a saída.
— E a terceira?
A tia Vera pegou a mão dele e virou a palma para cima.
— Essa é a mais difícil. Não toca em nada. Nem nas pedras bonitas.
— Por quê? Vai quebrar?
— Pior. A gordura da nossa mão gruda na pedra, e a pedra para de crescer bem naquele pedacinho. Uma estalactite pode levar cem anos para ganhar um centímetro. Você encosta um dedo hoje e estraga um século de trabalho.
O Théo olhou para a mão como se ela fosse perigosa.
— E tem mais — disse a tia. — A gente não leva nada de dentro, não deixa nada lá, e não faz barulho. Tem bicho morando ali.
— Só isso?
— Falta o principal. A gente avisa a sua avó a que horas vai sair. Se passar dessa hora, ela chama quem sabe entrar atrás da gente. E, se estiver com cara de chuva, não tem passeio nenhum.
— Por causa da chuva?
— Caverna com rio enche depressa, minha filha. A gente olha o céu antes. Se tiver chuva, fica para outro dia.
A entrada
De manhã cedo, eles caminharam uns vinte minutos por uma trilha de mato até uma parede de pedra cinzenta, cheia de buracos, meio escondida atrás de uma figueira.
A boca da caverna era uma fresta larga e baixa, na altura do peito do Théo.
Saía de lá um ar frio.
— Por que é gelado? — perguntou ele.
— Caverna não esquenta nem esfria. Lá dentro, a temperatura é quase a mesma o ano inteiro. No verão parece geladeira. No inverno parece quentinha.
Eles acenderam as lanternas, ajustaram os capacetes e entraram.
O escuro que tem som
Os primeiros metros ainda tinham a luz do dia entrando pelas costas deles, ficando mais fraca, mais fraca.
Depois de uma curva, acabou.
O Théo parou.
Era um escuro diferente de todos os escuros que ele conhecia. Não era o escuro do quarto, que sempre tem um fiozinho de luz na fresta da porta. Era um escuro cheio, fechado, que começava logo depois do círculo da lanterna.
E o silêncio também era diferente. Sem carro, sem vento, sem passarinho.
Só o som da água pingando em algum lugar. Ploc… ploc… ploc.
— Tá bem? — perguntou a tia Vera.
O Théo respirou fundo.
— Tô. Só é muito escuro.
— É o mais escuro que existe. Vem.
O salão
Depois de um corredor apertado, onde eles tiveram que andar de lado, o teto subiu de repente.
A tia Vera apontou a lanterna para cima e o Théo ficou de boca aberta.
Era um salão enorme, do tamanho de uma quadra. Do teto desciam dezenas de pedras compridas e pontudas, algumas finas feito canudo, outras grossas feito o tronco de uma árvore, todas brilhando de molhadas.
— Essas que descem do teto são as estalactites — disse a tia. — A água dissolve um tiquinho da pedra lá em cima e desce carregando esse calcário. Quando a gota fica pendurada aqui embaixo, ela deixa para trás um anelzinho duro, fininho, e vai embora. Gota por gota, ano após ano.
Do chão subiam outras, mais gordas e de ponta arredondada.
— E essas são as estalagmites. Nascem bem embaixo, onde a gota cai. Quando as duas se encontram no meio, viram uma coluna só.
O Théo apontou para uma coluna grossa no fundo do salão, que ia do chão ao teto.
— Aquela ali já se encontrou.
— Aquela ali — disse a tia Vera — começou muito antes de existir qualquer cidade no Brasil.
Os moradores
Num canto do teto, a lanterna pegou uma penca de morceguinhos pendurados, dormindo enrolados nas asas.
O Théo prendeu a respiração.
— Pode chegar perto?
— Não. Eles estão dormindo, e morcego acordado fora de hora gasta energia que ele não tem de sobra. A gente passa longe e apaga a luz da cara deles.
Eles passaram bem quietinhos.
Mais adiante, numa poça de água tão transparente que parecia ar, o Théo viu uns bichinhos brancos, minúsculos, andando no fundo.
— Esses não têm olho — cochichou a tia. — A família deles mora aqui desde sempre, e aqui nunca fez falta enxergar. Então, ao longo de milhares e milhares de gerações, foram nascendo bichinhos com olhos cada vez menores, até não nascer mais olho nenhum. E ninguém sentiu falta. Eles percebem tudo pelo cheiro e pelo movimento da água.
O rio escondido
No fim do salão tinha uma passagem baixa. De lá vinha um barulho.
Não era mais ploc. Era um som contínuo, correndo.
Eles se abaixaram, passaram, e do outro lado tinha um rio.
Um rio de verdade, largo como uma rua pequena, correndo dentro da pedra, com a água mais limpa que o Théo já tinha visto na vida.
— De onde ele vem?
— Da chuva lá fora. A água entra pelas rachaduras da pedra, se junta aqui dentro e sai lá na frente, numa nascente, no meio do mato. — Ela olhou para o sobrinho. — Muito rio dessa região passa por baixo da terra em algum pedaço do caminho.
Eles sentaram numa pedra seca, apagaram as lanternas de mão e ficaram só com as de cabeça.
Depois a tia Vera fez uma proposta.
— Quer ver o escuro de verdade? Um minuto só.
Um minuto sem luz
O Théo pensou. O coração acelerou.
— Quero.
Eles apagaram tudo.
— Tô aqui, ó — disse a tia, apertando o ombro dele. — A lanterna está na minha mão. Um minuto.
E o mundo sumiu.
Não dava para ver a mão na frente do rosto. Não dava para ver se os olhos estavam abertos ou fechados. Era um preto tão completo que parecia ter peso.
O Théo sentiu uma pontinha de medo subir.
Aí ele reparou que a mão da tia estava no ombro dele o tempo inteiro. E que o barulho do rio continuava ali, calminho, correndo do mesmo jeito.
Um minuto depois, a tia acendeu a lanterna.
A luz pareceu a coisa mais bonita do mundo.
— E aí?
— Deu um pouco de medo — disse o Théo, sorrindo. — Mas eu aguentei.
A saída
Eles tinham ficado quase quatro horas lá dentro.
Na volta, eles refizeram o caminho devagar, olhando tudo de novo pelo outro lado, que é o jeito de um lugar só virar dois.
Quando chegaram perto da boca da caverna, o Théo viu uma luz cinzenta lá na frente, que foi ficando branca, e aí amarela, e aí o dia inteiro caiu em cima dele.
Ele apertou os olhos, rindo.
Nunca uma tarde comum tinha parecido tão iluminada.
Depois
Naquela noite, o Théo desenhou a caverna toda no caderno: o corredor apertado, o salão das colunas, os morcegos, a poça dos bichinhos sem olho e o rio escondido.
Escreveu embaixo três frases, do jeito que a tia Vera tinha ensinado:
Não levar nada. Não deixar nada. Não tocar em nada.
E dormiu com o capacete em cima da cadeira, do lado da cama, pronto para a próxima.
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