A Carta para o Papai Noel dos Correios

5 min de leituraHistorinha para dormir
A Carta para o Papai Noel dos Correios
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No ano passado, a Bela escreveu uma carta para o Papai Noel.

Não foi ideia dela. Foi a professora que explicou, na sala, que existe uma coisa nos Correios: as crianças escrevem, a carta vai para os Correios, e lá eles separam um monte delas e penduram numa agência, para outras pessoas escolherem uma e responderem.

— Responder como? — perguntou a Bela.

— Comprando o presente que a criança pediu e entregando lá.

Bela achou aquilo meio difícil de acreditar.

A carta do ano passado

Mas ela escreveu.

Escreveu com a letra mais bonita que conseguiu, numa folha de caderno, e desenhou uma estrela no canto porque ficou com pena de mandar só texto.

Querido Papai Noel, Meu nome é Bela e eu tenho 8 anos. Eu queria um estojo de lápis de cor. Daqueles de 24. Se não der, tudo bem. Feliz Natal.

Ela dobrou, entregou para a professora e, sinceramente, esqueceu.

O dia em que chegou

Duas semanas antes do Natal, a mãe da Bela chegou do trabalho com um pacote na mão.

— Chegou isso pra você. Dos Correios.

Bela abriu ali mesmo, em pé no meio da sala.

Era uma caixa de lápis de cor. De vinte e quatro.

E, junto, um cartãozinho escrito à mão, com uma letra de adulto que ela não conhecia:

Bela, adorei a sua estrela. Desenha muito. Um bom Natal! — de alguém que também gosta de desenhar.

Bela leu aquilo umas dez vezes.

— Mãe. Quem é essa pessoa?

— Não sei, filha. Alguém que escolheu a sua carta.

— E por quê?

A mãe deu de ombros, sorrindo.

— Porque quis.

Bela ficou com aquele cartãozinho. Guardou dentro da caixa de lápis, e ele ficou lá o ano inteiro.

Este ano

No ano seguinte, em novembro, a Bela chegou da escola com uma ideia.

— Mãe. A gente pode responder uma carta?

A mãe estava mexendo a panela.

— Responder como?

— Igual fizeram comigo. A gente vai lá nos Correios, escolhe uma cartinha e compra o presente.

A mãe parou de mexer a panela.

Bela sabia que a resposta ia ser complicada, porque ela conhecia as contas da casa melhor do que a mãe imaginava.

— Filha, esse ano tá apertado.

— Eu sei. — Bela já tinha pensado nisso no caminho. — Mas eu tenho o dinheiro do cofre. E a senhora falou que no dinheiro do mês que vem sobra um pouquinho.

A mãe ficou um tempo olhando para ela.

— Quanto tem no cofre?

— Trinta e dois reais e setenta.

O varal de cartas

No sábado, as duas foram à agência dos Correios do centro.

Lá dentro tinha um painel enorme, cheio de barbante esticado, e nos barbantes, presas com prendedor de roupa colorido, tinha um monte de cartinhas.

Muitas. Muito mais do que a Bela imaginava.

Ela foi chegando perto devagar, com um respeito esquisito, como quem entra numa igreja.

As cartas eram todas escritas à mão. Umas com letra caprichada, outras com letra grandona e torta de quem está aprendendo. Tinha desenho de árvore de Natal, de estrela, de boneco de neve — que quase nenhuma daquelas crianças tinha visto fora da televisão.

A Bela começou a ler.

E foi ficando quieta.

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Porque quase nenhuma criança pedia brinquedo.

Eu queria um tênis número 33 porque o meu furou.

Papai Noel, eu queria uma boneca e uma cesta de comida pra minha mãe.

Eu queria um óculos. Eu não enxergo o quadro.

A carta escolhida

Bela leu umas quinze cartas. Depois voltou numa que ela tinha lido no começo e não conseguiu esquecer.

Era de um menino de sete anos, com a letra grande e torta, e um desenho de um cachorro no canto.

Querido Papai Noel, Eu queria uma bola. De futebol, de couro, dessas que não murcha. A do meu irmão furou e a gente joga com bola de meia. Obrigado. Kauã

Bela tirou a cartinha do varal com as duas mãos.

— É essa.

A bola

A bola custou quarenta e dois reais.

A Bela tinha trinta e dois e setenta. A mãe completou o resto e ainda pagou um saquinho de bala para colocar junto.

No caminho para casa, a Bela ia com a caixa da bola no colo, no ônibus.

— Mãe.

— Oi.

— Eu posso escrever um bilhete?

— Pode.

O bilhete

Em casa, Bela sentou na mesa com uma folha de caderno e pensou muito tempo antes de escrever.

Ela queria escrever direito. Queria que fosse parecido com o que fizeram com ela.

No fim, escreveu assim:

Kauã, o seu cachorro ficou muito bem desenhado. Essa bola aqui é boa, aguenta jogo na rua. Bom Natal! — de alguém que também já jogou com bola de meia.

Ela dobrou o bilhete e colocou dentro da caixa.

A entrega

Na segunda-feira, as duas voltaram aos Correios e entregaram a caixa embrulhada no balcão, com a cartinha do Kauã grampeada em cima para saberem de quem era, como o moço explicou que tinha que ser.

Quando saíram da agência, a Bela estava estranha. Meio caladona.

— Que foi? — perguntou a mãe.

— Nada. É que… eu não vou ver a cara dele abrindo.

— Não vai.

— E ele não vai saber que fui eu.

— Não vai. — A mãe pegou na mão dela. — Igualzinho ao ano passado.

E foi aí que a Bela entendeu uma coisa.

Que aquela pessoa que mandou os lápis de cor também não viu a cara dela abrindo. Também não soube. Também ficou sem saber se a menina gostou.

E mandou assim mesmo.

Na noite de Natal

Na noite de Natal, depois da ceia, a Bela foi para o quarto e abriu a caixa dos lápis de cor.

Estavam quase todos gastos, do jeito que fica lápis que é usado de verdade. O amarelo era um tico. O azul-claro tinha sumido.

E lá no fundo, dobradinho, o cartãozinho do ano passado.

Ela leu de novo.

Depois pegou uma folha e desenhou um menino jogando bola numa rua de paralelepípedo, com um cachorro correndo atrás.

Ela não sabia a cara do Kauã. Desenhou de qualquer jeito.

E, enquanto pintava a bola de branco e preto, ficou pensando que, em algum lugar da cidade, naquela mesma noite, talvez tivesse um menino de sete anos dormindo abraçado com uma bola que não murcha.

Aí ela guardou o desenho na caixa, junto com o cartãozinho.

E foi dormir.

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