A Carta para o Papai Noel dos Correios

No ano passado, a Bela escreveu uma carta para o Papai Noel.
Não foi ideia dela. Foi a professora que explicou, na sala, que existe uma coisa nos Correios: as crianças escrevem, a carta vai para os Correios, e lá eles separam um monte delas e penduram numa agência, para outras pessoas escolherem uma e responderem.
— Responder como? — perguntou a Bela.
— Comprando o presente que a criança pediu e entregando lá.
Bela achou aquilo meio difícil de acreditar.
A carta do ano passado
Mas ela escreveu.
Escreveu com a letra mais bonita que conseguiu, numa folha de caderno, e desenhou uma estrela no canto porque ficou com pena de mandar só texto.
Querido Papai Noel, Meu nome é Bela e eu tenho 8 anos. Eu queria um estojo de lápis de cor. Daqueles de 24. Se não der, tudo bem. Feliz Natal.
Ela dobrou, entregou para a professora e, sinceramente, esqueceu.
O dia em que chegou
Duas semanas antes do Natal, a mãe da Bela chegou do trabalho com um pacote na mão.
— Chegou isso pra você. Dos Correios.
Bela abriu ali mesmo, em pé no meio da sala.
Era uma caixa de lápis de cor. De vinte e quatro.
E, junto, um cartãozinho escrito à mão, com uma letra de adulto que ela não conhecia:
Bela, adorei a sua estrela. Desenha muito. Um bom Natal! — de alguém que também gosta de desenhar.
Bela leu aquilo umas dez vezes.
— Mãe. Quem é essa pessoa?
— Não sei, filha. Alguém que escolheu a sua carta.
— E por quê?
A mãe deu de ombros, sorrindo.
— Porque quis.
Bela ficou com aquele cartãozinho. Guardou dentro da caixa de lápis, e ele ficou lá o ano inteiro.
Este ano
No ano seguinte, em novembro, a Bela chegou da escola com uma ideia.
— Mãe. A gente pode responder uma carta?
A mãe estava mexendo a panela.
— Responder como?
— Igual fizeram comigo. A gente vai lá nos Correios, escolhe uma cartinha e compra o presente.
A mãe parou de mexer a panela.
Bela sabia que a resposta ia ser complicada, porque ela conhecia as contas da casa melhor do que a mãe imaginava.
— Filha, esse ano tá apertado.
— Eu sei. — Bela já tinha pensado nisso no caminho. — Mas eu tenho o dinheiro do cofre. E a senhora falou que no dinheiro do mês que vem sobra um pouquinho.
A mãe ficou um tempo olhando para ela.
— Quanto tem no cofre?
— Trinta e dois reais e setenta.
O varal de cartas
No sábado, as duas foram à agência dos Correios do centro.
Lá dentro tinha um painel enorme, cheio de barbante esticado, e nos barbantes, presas com prendedor de roupa colorido, tinha um monte de cartinhas.
Muitas. Muito mais do que a Bela imaginava.
Ela foi chegando perto devagar, com um respeito esquisito, como quem entra numa igreja.
As cartas eram todas escritas à mão. Umas com letra caprichada, outras com letra grandona e torta de quem está aprendendo. Tinha desenho de árvore de Natal, de estrela, de boneco de neve — que quase nenhuma daquelas crianças tinha visto fora da televisão.
A Bela começou a ler.
E foi ficando quieta.
Porque quase nenhuma criança pedia brinquedo.
Eu queria um tênis número 33 porque o meu furou.
Papai Noel, eu queria uma boneca e uma cesta de comida pra minha mãe.
Eu queria um óculos. Eu não enxergo o quadro.
A carta escolhida
Bela leu umas quinze cartas. Depois voltou numa que ela tinha lido no começo e não conseguiu esquecer.
Era de um menino de sete anos, com a letra grande e torta, e um desenho de um cachorro no canto.
Querido Papai Noel, Eu queria uma bola. De futebol, de couro, dessas que não murcha. A do meu irmão furou e a gente joga com bola de meia. Obrigado. Kauã
Bela tirou a cartinha do varal com as duas mãos.
— É essa.
A bola
A bola custou quarenta e dois reais.
A Bela tinha trinta e dois e setenta. A mãe completou o resto e ainda pagou um saquinho de bala para colocar junto.
No caminho para casa, a Bela ia com a caixa da bola no colo, no ônibus.
— Mãe.
— Oi.
— Eu posso escrever um bilhete?
— Pode.
O bilhete
Em casa, Bela sentou na mesa com uma folha de caderno e pensou muito tempo antes de escrever.
Ela queria escrever direito. Queria que fosse parecido com o que fizeram com ela.
No fim, escreveu assim:
Kauã, o seu cachorro ficou muito bem desenhado. Essa bola aqui é boa, aguenta jogo na rua. Bom Natal! — de alguém que também já jogou com bola de meia.
Ela dobrou o bilhete e colocou dentro da caixa.
A entrega
Na segunda-feira, as duas voltaram aos Correios e entregaram a caixa embrulhada no balcão, com a cartinha do Kauã grampeada em cima para saberem de quem era, como o moço explicou que tinha que ser.
Quando saíram da agência, a Bela estava estranha. Meio caladona.
— Que foi? — perguntou a mãe.
— Nada. É que… eu não vou ver a cara dele abrindo.
— Não vai.
— E ele não vai saber que fui eu.
— Não vai. — A mãe pegou na mão dela. — Igualzinho ao ano passado.
E foi aí que a Bela entendeu uma coisa.
Que aquela pessoa que mandou os lápis de cor também não viu a cara dela abrindo. Também não soube. Também ficou sem saber se a menina gostou.
E mandou assim mesmo.
Na noite de Natal
Na noite de Natal, depois da ceia, a Bela foi para o quarto e abriu a caixa dos lápis de cor.
Estavam quase todos gastos, do jeito que fica lápis que é usado de verdade. O amarelo era um tico. O azul-claro tinha sumido.
E lá no fundo, dobradinho, o cartãozinho do ano passado.
Ela leu de novo.
Depois pegou uma folha e desenhou um menino jogando bola numa rua de paralelepípedo, com um cachorro correndo atrás.
Ela não sabia a cara do Kauã. Desenhou de qualquer jeito.
E, enquanto pintava a bola de branco e preto, ficou pensando que, em algum lugar da cidade, naquela mesma noite, talvez tivesse um menino de sete anos dormindo abraçado com uma bola que não murcha.
Aí ela guardou o desenho na caixa, junto com o cartãozinho.
E foi dormir.
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