A Caçada ao Tesouro do Bairro

4 min de leituraHistorinha para dormir
A Caçada ao Tesouro do Bairro
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Numa quinta-feira de férias, a Bia achou um envelope por baixo da porta de casa.

Não tinha remetente. Só o nome dela, escrito com letra de mão, daquelas antigas, bem caprichadas.

Dentro tinha um papelzinho dobrado:

Quem quiser achar o tesouro, comece onde o bairro guarda o que ninguém mais quer.

Os três

A Bia correu para chamar os dois vizinhos: o Léo, do sobrado da esquina, e o Davi, que morava no fundo do mesmo terreno que ela.

Os três tinham nove anos e as férias inteiras pela frente.

Leram a pista umas dez vezes.

— O que o bairro guarda que ninguém quer? — perguntou o Léo.

— Lixo — disse o Davi.

— Ah, ninguém vai deixar pista no lixo.

A Bia ficou quieta um tempo.

— O ferro-velho — disse ela. — O bairro inteiro leva coisa velha lá.

O ferro-velho

Eles foram os três, de bicicleta, até o ferro-velho do fim da rua.

O Seu Nilson, o dono, estava sentado numa cadeira de praia na frente.

— Vocês são os do envelope? — ele perguntou, antes de qualquer um falar.

Eles se olharam.

— Alguém deixou isso aqui para vocês hoje de manhã. E pode ir sossegada, Bia: ele passou lá na tua mãe primeiro e contou a brincadeira toda.

E entregou outro papelzinho, com a mesma letra:

Agora vão até onde o dia começa com cheiro bom e termina com a porta fechada às sete.

A padaria

Essa foi mais fácil.

Eles chegaram na padaria da Dona Lurdes ofegantes, com as bicicletas jogadas no meio-fio.

A Dona Lurdes riu quando eles entraram.

— Três crianças. Ele acertou.

Tirou de debaixo do balcão um envelope, junto com três pães de queijo que ninguém pediu e ninguém recusou.

Vão agora onde o bairro inteiro já bebeu água e hoje ninguém bebe mais.

A dúvida

Essa travou os três.

— Torneira da escola? — arriscou o Davi.

— Mas a escola tá fechada nas férias — disse o Léo. — E ali todo mundo ainda bebe.

Eles ficaram rodando o bairro, discutindo, até a Bia parar a bicicleta em frente à praça.

No canto da praça tinha uma coisa em que ninguém prestava atenção havia anos.

Um bebedouro de pedra, quebrado, sem água, com uma torneirinha enferrujada.

E, dentro do ralo seco, um envelope enrolado num saquinho.

Falta pouco. O último lugar é aquele que todo mundo passa e ninguém entra.

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O último lugar

Eles pensaram alto, sentados no meio-fio.

O ponto de ônibus? Todo mundo entra.

A igreja? Muita gente entra.

Foi o Davi quem falou, meio sem acreditar:

— A casa velha da esquina da Rua das Palmeiras.

Era uma casa antiga, de muro alto, que tinha ficado vazia por anos. A criançada passava na frente todo dia e nunca tinha visto ninguém ali dentro.

Só que, fazia umas semanas, o mato do jardim tinha sido cortado.

O portão

Eles foram pedalando devagar, e os três pararam um pouco antes.

O portão de ferro estava encostado.

A Bia respirou fundo e bateu palma.

— Ó de casa!

Uma voz respondeu lá de dentro:

— Demoraram!

Seu Waldemar

O homem que apareceu na porta tinha uns oitenta anos, cabelo branco e um sorriso enorme.

— Eu sou o Waldemar. Mudei para cá mês passado.

Ele contou que tinha morado naquele bairro quando era criança, sessenta e tantos anos antes. Tinha saído, trabalhado a vida inteira em outra cidade, e agora tinha voltado para a casa que era do pai dele.

— E eu não conhecia mais nenhuma criança daqui — disse ele. — Vocês têm ideia do que é isso? A rua inteira é igual e ao mesmo tempo é toda diferente.

— E o tesouro? — perguntou o Léo, que era o mais direto dos três.

O Seu Waldemar deu risada.

— Vem ver.

O que tinha no quintal

No quintal, debaixo de uma mangueira enorme, tinha uma mesa posta com bolo, suco e quatro cadeiras.

E, em cima da mesa, uma caixa de sapato velha.

Dentro da caixa: bolinha de gude, um carrinho de ferro sem roda, uma peteca, um álbum de figurinhas de 1958, quase completo, e uma foto em preto e branco de três crianças na frente daquela mesma mangueira, quando ela era um pauzinho fino.

— Esse é o tesouro — disse ele, apontando a foto. — Esses aqui eram eu, o Nilson do ferro-velho e a Lurdes da padaria.

Os três ficaram de boca aberta.

— Foi por isso que eles sabiam da gente!

— Eu combinei com os dois — disse o velho. — Foi a única maneira que eu achei de conhecer as crianças da rua sem parecer um velho esquisito batendo na porta dos outros.

O resto das férias

Eles comeram o bolo inteiro.

Depois passaram a tarde jogando peteca no quintal, com o Seu Waldemar explicando as regras de um jeito que eles nunca tinham ouvido, porque era o jeito de 1958.

Nas férias seguintes, virou rotina: quinta à tarde, quintal da mangueira.

E, no ano seguinte, foram os três que deixaram um envelope por baixo da porta de uma menina que tinha acabado de se mudar para a rua.

Com a mesma primeira pista.

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